Moscando

Dizem que as moscas vivem apenas 24 horas. Não é verdade. Pelo menos para a mosca que vive em minha casa. Todos os dias ela me azucrina. Há meses. Me acorda alisando meu supercílio antes do despertador tocar. Voa perigosamente roçando meus lábios no momento em que eu começo a bocejar. Me puxa pelo cabelo. Me faz levantar. Cansado, com raiva e vontade de matar. Mas sempre escapa às minhas desastradas tentativas de sandália em punho e olhos sem piscar. E depois do banho, durante o café da manhã, ela volta a atacar. Passa se esgueirando pela xícara, pousa no pão. Pega carona na faca da manteiga, escapa de mais um mosquicídio de raspão. Sobrevoa toda a mesa e de novo se esquiva da minha mão. Encontra a tampa do açucareiro, anda pela borda do pires. Busca a ponta do meu nariz, encarando minha íris. E quando vou me arrumar para ir trabalhar, lá está ela, parada no mesmo lugar: a porta do armário, que abro com força, na tentativa tola de fazê-la desistir. Mas a mosca não liga, escorrega e desliza, parece rir de mim. Pousa na mesma calça, voa para a mesma camisa, faz graça e para na mesma meia que uso todos os dias. De repente, em um estalo, atordoado e surpreso, penso comigo mesmo: é a mosca que sobrevive há meses ou é o dia que se repete todo dia por inteiro? É a mosca que vive e revive várias vezes ou eu virei um prisioneiro do tempo?

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