PLATONICES

A adolescência é como um rough, um esboço, uma obra em progresso, inacabada, mal acabada. A adolescência é um período terrível. Literalmente falando. Tudo no seu corpo começa a crescer rápido e sem um mínimo de harmonia. Pelos, braços, mãos, nariz, boca, espinhas. O sujeito se olha no espelho, não se reconhece e nem gosta do que vê. É feio. Muito feio ser adolescente.

Some a esta aberração física, minha timidez crônica. A esquisitice corporal já gera insegurança por si só. Eu não precisava ser tímido. Mas era. Sou, na verdade. Como eu me achava bizarro e não tinha coragem de chegar nas garotas, no início da minha adolescência optei por ser adepto das paixões platônicas. É que, além dos defeitos já citados, tenho mais um: sou um romântico incurável. Era difícil ficar muito tempo sem me interessar por alguém.

Por isso, durante uma parte da minha puberdade, eu colecionei apaixonites absolutamente estéreis. Funcionava assim: eu via uma garota, se a achasse linda, decidia se me apaixonaria por ela ou não. Sim, decidia. O processo sempre começava de maneira racional. Aí eu ia alimentando aquele sentimento com diálogos fictícios embaixo do chuveiro, cartas inspiradas mas nunca enviadas, músicas cantadas para ninguém no escuro do meu quarto e histórias de encontros que só aconteciam na minha imaginação. Depois de um tempo, eu via outra garota ainda mais bonita e trocava de paixão, assim, como quem para de ler um livro antes do fim e começa a ler outro.

Entre os meus 11 e 14 anos de idade eu vivi algumas paixões platônicas. Difícil dizer quantas. Lembro perfeitamente de três destes “relacionamentos”. Todos vividos na escola em que estudava, o Teresa de Lisieux. A primeira vítima, a quem eu dei o nome de Valéria, era uma loura baixinha cheia de sardas no rosto. Eu sempre inventava um nome para as minhas paqueras. Afinal era tímido demais e feio demais para tentar uma aproximação física.

Minha paixão por Valéria não durou muito. É que pouco tempo depois, vi uma morena linda de cabelos lisos, a quem eu dei o nome de Priscila. Esta paixão durou. Tinha até música. Cheia de Charme, de Guilherme Arantes. O engraçado é que a morena de codinome Priscila tinha namorado. Mas eu não ligava. Nunca fui muito ciumento. E como era proibido beijar na boca em minha escola, só os via abraçados, conversando. Não sofria tanto.

Para a minha terceira paixão platônica, eu dei o nome de Marta. Linda. Do tipo deslumbrante. Ela era atlética, malhava. Se não me engano, fazia aeróbica, um tipo de atividade física que era moda na época. “Marta” foi a minha maior paixão platônica. Tinha 13 anos de idade e toda vez que a via, tremia. Faltava-me o ar. O coração disparava. Assim como as duas outras, ela também era mais velha do que eu. Mas ao contrário das duas outras, “Marta” mexia mesmo comigo. Ela era da mesma sala de uma prima minha, Ana Paula. Quando as duas estavam juntas, eu nem encostava. Era como se eu tivesse colocado “Marta” em uma espécie de pedestal. Ela era inalcançável.

Lembro, por exemplo, do dia em que descobri que “Marta” morava perto de mim. Estava indo comprar pão na padaria Alameda. No meio do caminho, a vi passando. Com roupa de ginástica. Não acreditei. A partir daquele dia, comprar pão passou a ser minha tarefa preferida. Sempre cruzava com ela. Eram os melhores segundos do dia.

Depois que fiz 14 anos, meu corpo começou a tomar jeito, a insegurança foi embora, a timidez persistiu, mas, mesmo assim, abandonei as paixões platônicas. Comecei a me interessar por relacionamentos mais convencionais. Desde então, nunca mais vi “Valéria”. Nunca. Às vezes até me questiono se ela chegou mesmo a existir. Ou se não passou de uma ilusão. Descobri que “Priscila” se chama Mirela. Nunca nos conhecemos, mas até hoje eu a vejo por aí. Já Marta, eu continuei vendo.

Em 1991, no meu primeiro dia de aula no curso de Publicidade da Universidade Católica do Salvador, vi “Marta” de novo. Ela era da minha sala. Foi quando eu descobri que o verdadeiro nome dela é Maria de Fátima e que o interesse dela era por psicologia e não por propaganda. Não viramos amigos. Convivemos pouco. É que eu precisei mudar de turno e por isso, acabávamos não nos vendo muito. Mas no mesmo ano, lembro de ter ido ao cinema com uma namorada minha para assistir My Girl, Meu Primeiro Amor em português. Ao chegar próximo à sala, a turma que tinha assistido a sessão anterior estava saindo. Entre eles, Maria de Fátima com o namorado. Ela estava linda como sempre. E estava chorando. Uma cena que me tocou. Naquele momento, senti de novo o que sentia quando a via passar pela Avenida Paulo VI com roupa de ginástica: paixão. Só que de uma maneira mais terna. Fiquei realmente balançado e ali eu desejei, pela primeira vez, de verdade, namorar com ela.

Muitos anos depois, em 2010 se não me engano, nos encontramos de novo. Foi durante o Carnaval, na Barra. Ficamos um tempo juntos, seguindo o mesmo trio elétrico. Em frente ao Morro do Gato, nos beijamos. Lembro de não acreditar no que estava acontecendo. Um filme passou por minha cabeça na hora. Eu me vi aos 13 anos de idade, feio e desengonçado, beijando a garota mais bonita da escola. E não era sonho. Não era ilusão. Passava longe de ser platônico. Era absurdamente e absolutamente real. Poucas vezes me senti tão bem. É bom realizar sonhos. Mesmo aqueles que você nem lembrava mais que tinha sonhado.

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