Ser Diferente é Normal

Quando eu tinha 8 ou 9 anos, um vizinho me chamou para jogar no time dele. De cara, fiquei um pouco surpreso em saber que ele tinha um time de futebol. De qualquer forma, comecei a me ver entrando em estádios lotados, dando entrevistas para a televisão, pilotando um Escort XR-3, tirando foto com modelos e atrizes globais, essas coisas que faziam todos os jogadores de bola da época. Aceitei na hora, claro. E perguntei o que tinha que fazer. Nada, ele respondeu antes de concluir: “Meu pai já comprou o padrão, é só você aparecer na hora do jogo”.

Voltei para casa com uma dúvida na cabeça: o que seria um padrão? E por que precisávamos de um para jogar futebol? No dia do jogo, apareci, como combinado e aprendi duas lições. Primeiro que eu não ia ser um jogador de futebol de verdade, desses que entram em estádios, dão entrevistas na tevê, desfilam em um Escort XR-3 ou posam para fotos com modelos e atrizes globais. Aquilo era um campo de terra, não tinha trave, não tinha nem arquibancada, só prédios em volta! Segundo que padrão era o uniforme do time. Aquilo que identifica o clube ao qual o jogador pertence. Talvez por não jogar muito bem, acabaram me dando a roupa de goleiro. Engraçado, o único uniforme que fugia do padrão. De alguma forma, aquilo moldou o meu jeito de ser.

Alguns anos mais tarde, saindo de casa com lenço na cabeça e brinco na orelha, fui interpelado por meu irmão mais velho. Ele queria saber se eu não me preocupava com o que as outras pessoas iriam falar ou pensar de mim. Se eu não me incomodava em ser diferente do padrão. Dei de ombros.

De todas as normas de conduta social, as que menos gosto são aquelas que tentam inibir nossas formas de expressão. Até porque são regras tácitas, camufladas, mas rígidas, que seguem padrões determinados por “alguém” e que acabam nos violentando. Quantas vezes você teve vontade de usar uma determinada roupa, cantar uma música em voz alta na rua ou pintar o cabelo de uma cor menos ortodoxa e não fez por medo de ser taxado de estranho? Ou pior ainda; e se você é tão moldado e está tão encaixotado em um perfil social que nunca teve nem vontade de ser/agir/fazer diferente?

Sonho com um mundo em que cada um de nós possa ouvir a música que gosta, ler o que deseja, frequentar os lugares que quer, usar um sapato de cada cor, cortar o cabelo do jeito que der na telha, chorar em público, fazer declaração de amor no alto de um prédio, dançar sem música, falar sozinho, brincar de estátua numa praça, abraçar um desconhecido ou qualquer outra coisa que nem consigo imaginar… desde que queira. E que ninguém seja julgado por isso. Porque não poder se expressar é não poder ser. E não há lugar pior para se estar.

Em um mundo com tanta patrulha, com tantos olhos vigiando e julgando o tempo todo, acho que dei sorte por receber uma camisa de goleiro no dia do meu primeiro jogo “oficial”. Naquele dia, eu aprendi que ser diferente também é importante para o coletivo. No caso do futebol, por exemplo, é essencial. Nunca gostei muito de seguir a maioria. Nas minhas escolhas e nas minhas maneiras, procuro ser fiel ao meu jeito. Até hoje algumas pessoas olham estranho quando me veem fazendo algo incomum. Eu continuo dando de ombros. Não ligo. Eu sei como é normal ser diferente. Eu já fui goleiro.