Análise das manifestações culturais presentes no bairro do Prado

Localização do bairro do Prado na cidade de Recife

O presente texto visa trazer para o público um retrato da cultura do bairro do Prado que está localizado em Recife. A pesquisa está fundamentada na coleta de dados sobre os centros culturais da área analisada e entrevistas além de livros, artigos, reportagens e dissertações para compreender melhor a história da área analisada. Primeiro tratarei de fornecer ao leitor um panorama histórico do Brasil e do mundo no início do século XX para depois focar nas reformas urbanas realizadas na capital pernambucana. Em seguida se conhecerá um pouco da história do bairro nas primeiras décadas em que surgiu e no final do século passado para depois tratar do século XXI com o intuito de mostrar as transformações ocorridas no Prado e de que forma a situação socioeconômica influenciou a distribuição geográfica dos centros religiosos. Depois disto serão analisadas as diferentes manifestações culturais fazendo uma correlação entre elas e as condições materiais do Prado e como estas inibem ou promovem a cultura local.

O início do século XX representou um ponto de inflexão para a espécie humana, pois a primeira tentativa de suicídio coletivo da Europa ruiu o domínio desta sobre o mundo. A irrupção da barbárie total no coração da civilização mostrou para os europeus uma face de si mesmos que eles só tinham visto nos outros. Este choque quebrou todos os moldes que limitavam e salvaguardavam a Europa e esta acabou submergindo num relativismo e vazio existencial que está longe de terminar. Do outro lado do Atlântico, o Brasil ignorava toda esta situação não por ter permanecido intacto ao terremoto que abalara o continente europeu, mas pelo fato de que nosso país acabara de ingressar na Modernidade.

Ao final do século XIX os republicanos imbuídos do ideal positivista derrubaram a monarquia por ver nesta o principal empecilho para o progresso técnico-científico brasileiro. Com a instauração da República, os positivistas empreenderam uma série de mudanças de cunho social, político e cultural para que o Brasil alcançasse a Modernidade o mais rápido possível. Assim, na virada do século XIX para o XX o casamento civil foi instituído, cemitérios foram criados fora dos terrenos das igrejas, o Estado se tornou laico e uma nova constituição foi promulgada. Todavia, a principal mudança se deu no âmbito do espaço urbano visto que as grandes cidades brasileiras foram remodeladas para se tornarem modernas, o que no início do século XX significava seguir os traçados retos da Paris de Haussmann. Assim, os governos municipais realizaram reformas urbanas como o calçamento de ruas, criação de um sistema de esgoto, coleta regular de lixo, alargamento das vias, retirada de mendigos das ruas, demolição de casas insalubres (mocambos no Recife e cortiços no Rio de Janeiro) e campanhas de vacinação contra a febre amarela. Ao mesmo tempo em que as urbes eram remodeladas na Zona da Mata ocorriam outras mudanças, pois no final do século XIX e início do XX surgiram os engenhos centrais e as usinas de açúcar que provocaram a migração de famílias rurais para o Recife em busca de melhores condições de vida. Tais pessoas se estabeleceram nas áreas de mangue e de pastagem presentes na periferia da cidade que já estavam sendo ocupadas pelos pobres expulsos da área central por causa das reformas urbanas. É preciso notar que a ocupação de tais áreas pela população pobre atendia dois interesses da elite modernizante: retirar os mais humildes do centro e aterrar os mangues para que a periferia se tornasse moderna.

Dentro deste contexto histórico de modernização das cidades e migração da Zona da Mata para o Recife e do centro desta para a periferia é que surgiu o bairro do Prado. Este se tratava de uma propriedade rural, como o nome indica, conhecida como Prado do Lucas e pertencente a uma família católica. Na década de 1930 as freiras noelistas adquiriram um terreno no bairro do Prado e em 1936 ergueram a Capela de Santa Edwiges que é subordinada a Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios localizada no bairro de Afogados. A data de fundação da Capela é a mesma de comemoração da santa, ou seja, 16 de outubro. A relação entre as noelistas e a Santa Edwiges é ainda mais interessante quando se nota que as primeiras fazem parte de uma associação religiosa conhecida como Movimento Noelista que além da função de catequese promovia festividades natalinas e ajuda (espiritual e material) aos mais necessitados[1]. Já a Santa Edwiges é a padroeira dos pobres e endividados, ela em vida usou o próprio dinheiro para construir hospitais, igrejas e ajudar os detentos que estavam presos por não conseguirem pagar as dívidas[2]. Assim, a Santa Edwiges foi o modelo que as freiras noelistas tomaram para si no que diz respeito da relação delas com a comunidade carente do bairro do Prado. Na década de 1940 o Hipódromo do Prado foi inaugurado pelo coronel Bento Magalhães que aos 80 anos assumiu a presidência do Jockey Club de Pernambuco que é a entidade esportiva responsável pelas corridas de cavalo, também conhecidas como turfe, no hipódromo. Segundo dados do site do Jockey Club este na época da fundação era “um clube da elite recifense, que costumeiramente aos domingos, se reunia para participar e observar as competições de turfe[3]”. Com o surgimento do Hipódromo do Prado, que todo mundo só chama de Jockey Club, a vida cultural do bairro se dividiu entre as festividades realizadas pela entidade esportiva e as atividades da Capela de Santa Edwiges. A partir de 1964 o hipódromo passou a ser palco do Grande Prêmio Bento Magalhães.

No final do século XX muitos moradores do Prado e de outras comunidades carentes corriam o risco de serem expulsos do bairro por causa da irregularidade jurídica dos assentamentos e da especulação imobiliária. Os moradores encontraram apoio jurídico sobre a questão fundiária na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife (CJP) que na época era liderada pelo criador da mesma, ou seja, por Dom Hélder Câmara. A população juntamente com a CJP e movimentos populares criou o Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social (PREZEIS) que previa mecanismos para regularização dos imóveis e criação de um projeto de urbanização que atendesse as necessidades sociais de cada comunidade. Em 1987 o projeto se tornou em lei (14.947/1987) sancionada no governo do prefeito Jarbas Vasconcelos. Assim, foram criadas as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) que se constituem:

(…) num instrumento de regulação e controle do uso e ocupação do solo, a partir da previsão de parâmetros urbanísticos, dimensões máximas das áreas dos lotes para novos parcelamentos ou resultantes de remembramentos, inibindo, assim, os interesses dos empreendedores imobiliários e comerciais[4].

Desta forma, as grandes empresas são mantidas afastadas das ZEIS, mas o poder público negligencia seus deveres para com as mesmas, ou seja, o Estado nem cumpre seu papel e nem deixa parte do setor privado atuar na comunidade. Assim, o bairro do Prado se encontra duplamente abandonado e imerso numa situação de pobreza da qual somente irá sair com muito esforço dos moradores.

Se antes os únicos centros culturais do bairro eram a Capela de Santa Edwiges e o Hipódromo do Prado, atualmente há muitas outras opções como bares, templos de outras religiões, televisão, LAN houses, computadores em residências, cinemas, shoppings e o futebol que tomou os corações dos habitantes do Prado que outrora eram do Jockey Club. Uma amostra de como o futebol substituiu o turfe é que na Rua Armando Soriano há o bar Marciel Esporte em que até a primeira década deste século pessoas realizavam apostas nas corridas de cavalo, mas agora elas arriscam a sorte nas partidas de futebol. Podemos observar como o aumento da renda e as transformações estruturais da urbe são capazes de criar novas formas de cultura e marginalizar as mais antigas. As mudanças ocorridas em Recife nas últimas décadas fizeram com que os locais tradicionais entrassem em decadência: a atuação da Capela no bairro agora se dá através apenas da festa em homenagem à Santa Edwiges e de suas funções religiosas como a missa. Já o hipódromo tentou se reerguer através dos shows internacionais das bandas Iron Maiden em 2009 e Black Eyed Peas em 2010. No entanto, isto não evitou o declínio no qual se encontra o espaço e o próprio Jockey Club.

Próximo ao Hipódromo do Prado se encontra o Baile Perfumado[5]. Este surgiu da iniciativa de produtores que decidiram criar a própria casa de show após encontrarem dificuldade para a realização de eventos nos estabelecimentos mais consolidados como Chevrolet Hall, Casa da Rabeca e Clube Internacional. Durante a pesquisa descobri que o nome se trata de uma homenagem ao filme homônimo que representa um marco no renascimento do cinema pernambucano tal como a casa de show que deseja ser o mesmo no campo da música recifense. O filme foi dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas e conta a história do libanês Benjamin Abrahão Botto que fez as únicas imagens de Lampião. O Baile Perfumado é uma ótima opção para os moradores do bairro do Prado e adjacências que desejam ir para um show próximo de casa e dentre os artistas que já passaram por lá estão Elza Soares, Zeca Baleiro, Nando Reis, a banda Blitz e Titãs.

A disposição geográfica dos centros religiosos do Prado é deveras interessante, pois mostra a composição social do entorno dos locais de culto. O Centro Espírita Mahatma Gandhi e a Capela de Santa Edwiges, que já foi tratada neste texto, estão na área mais nobre do bairro. Estes dois centros religiosos são compostos por pessoas de classe média do próprio bairro e adjacências. Já na mais carente se encontra a Capela Nossa Senhora Aparecida e todos os terreiros de Umbanda e Candomblé além dos templos pentecostais o que evidencia a influência da composição socioeconômica dos moradores de uma determinada área do bairro na religiosidade dos mesmos. Sobre estes últimos centros religiosos que foram citados é preciso dizer que os líderes adiaram ou se esquivaram das entrevistas ao máximo até chegar num ponto em que eu falava de todos, exceto deles, ou abandonava este texto. Assim tomei a decisão de focar nos centros religiosos que abriram as portas para mim e quanto aos que não fizeram isto só se pode falar da relação deles com a comunidade. Esta é relativamente boa, apesar de que muitos moradores se incomodam bastante com o barulho que eles fazem durante os cultos. É comum acontecerem atritos entre os frequentadores dos templos pentecostais e dos terreiros do Prado além do fato de que em certas pregações os pastores e os fiéis que sobem ao púlpito para testemunhar proferem que as religiões de matriz afro-brasileira são uma personificação do mal no mundo.

Na parte oeste do Prado, tendo o hipódromo como ponto central do bairro, existe a Capela Nossa Senhora Aparecida, fundada em 2013, estava subordinada a Paróquia São João Bosco, mas agora é pertencente à Paróquia Nossa Senhora de Fátima que outrora era uma igreja assim como a São João Bosco é agora. A relação com a comunidade ocorre através de visitar as casas para rezar o terço e amparar os doentes. As principais comemorações são o dia das crianças, São João Bosco, Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora Auxiliadora. Na área leste há um centro espírita kardecista chamado Grupo Espírita Mahatma Gandhi. Pelas informações coletadas descobri que o centro é guiado pelo mentor espiritual João Emmanuel e o nome é uma homenagem ao pacifista indiano. O espaço religioso foi criado em 14 de maio de 2002 com o objetivo de divulgação e estudo do Espiritismo além da promoção de serviços assistenciais às comunidades carentes do Prado, Bongi, Mustardinha, Mirueira e Afogados. Tais trabalhos assistenciais se dão através de festas no dia das crianças e Natal, atendimento psicológico e médico gratuito, da distribuição semanal de sopa e mungunzá e distribuição mensal tanto de cestas básicas quanto de enxovais para bebês. Há também o atendimento espiritual que é dividido em dois: atendimento fraterno e consulta e tratamento espiritual. O primeiro se trata do acolhimento de indivíduos que sofrem problemas como vício em drogas, angústia e crise existencial, enquanto que o segundo é a cura espiritual através da imposição das mãos sobre o paciente. Os planos futuros do Grupo Espírita Mahatma Gandhi visam a construção do Lar Fraterno Mahatma Gandhi para atender 200 crianças e o mesmo número de idosos. O projeto ainda prevê a criação de um posto de saúde, um ginásio poliesportivo, dormitório, horta comunitária e escola do ensino fundamental ao médio. Para isto o Grupo promove vários eventos como palestras, seminários, bazares e shows beneficentes.

Existem quatro terreiros no bairro sendo três ligados a Umbanda e um ao Candomblé. Na Rua Chaves Martins há o Centro Espírita Nossa Senhora do Carmo cujos frequentadores seguem a Umbanda. O espaço foi fundado em 1964 por Rosa de Lima Salustiano de Souza. Segundo esta a relação com a comunidade se deteriorou nos últimos anos com a chegada dos pentecostais ao bairro, pois ela teme que com a conversão as pessoas abandonem as festividades em homenagem aos santos e orixás que divertem o Prado ao longo do ano. As festas promovidas pelo Centro são a de Cosme e Damião com a tradicional distribuição de doces e comemorações em honra a Nossa Senhora do Carmo e da Conceição que na Umbanda são identificadas respectivamente por Oxum e Iemanjá. Durante tais celebrações religiosas os membros do Centro se reúnem e realizam procissões para as igrejas cujos nomes são homônimos aos das santas. Na Rua Secundino Carneiro se encontra a Tenda de Umbanda Caminheiros do Bem fundado por José Jesus de Araújo em 1969, mas segundo o fundador da Tenda que está com a idade de 96 anos o contato com o mundo espiritual começou em 1943 quando no desenrolar da Segunda Guerra Mundial ele queria muito ir para o conflito até que seu pai apareceu numa visão pedindo para desistir de tal ideia. No dia seguinte Jesus de Araújo foi avisado de que estava dispensado do exército brasileiro. Em 1953 a esposa dele tivera as primeiras visões e em determinado ano migraram para o Recife em busca de melhores condições de vida. A Tenda promove estudos evangélicos (leitura e reflexão sobre a Bíblia), festa de Cosme e Damião, distribuição mensal de cestas básicas, ajuda aos “espíritos sofredores” e festas aos orixás.

Na Rua Xavier Sobrinho há dois terreiros sendo um da Umbanda e outro ligado ao Candomblé que é o Ilê Axé Oxum Ajangurá. Este foi fundado por Marlene Barbosa de Souza em 1969 no bairro do Zumbi, mas está há 37 anos no Prado. Contemporaneamente é administrado pelo filho dela, Babalorixá Scharlane de Sabá, que forneceu muitas informações sobre as festas que são realizadas no espaço. As festividades são cinco ao longo do ano e os homenageados são: Xangô, Jurema, Oxum, as mestras da Jurema e Iemanjá. Os integrantes do terreiro criaram o Afoxé Omin Sabá que sai em cortejo à meia-noite e faz apresentações no Recife Antigo durante o Carnaval. Já o da Umbanda é o Centro Espírita Nossa Senhora da Conceição fundado em 1978 por Josefa Leite de Melo. As festas realizadas pelo centro são a de Cosme e Damião e dia das crianças. Quinzenalmente acontece distribuição de mungunzá ou bolo e guaraná para as pessoas da comunidade. Atualmente é administrado pelo filho da fundadora, João Tenório de Melo, que sai vestido de Iemanjá ou Oxum durante as apresentações do Maracatu Nação Almirante do Forte. Sobre este é importante frisar que no início era um maracatu de baque solto e depois se transformou em baque virado. O primeiro, também conhecido como maracatu rural, remonta a Zona da Mata de Pernambuco no período pós-abolição da escravatura e foi criado por trabalhadores rurais ligados ao corte da cana-de-açúcar que trouxeram essa manifestação cultural para o Recife dentro do contexto histórico de migração já tratado no início deste texto. As principais características do maracatu de baque solto são a rebeldia (eles não pediam autorização para fazerem o cortejo na cidade), a presença de orquestra, Mateus e Catirina, cantigas, do caboclo de lança e de pena, o fato do cortejo ser conduzido por um mestre com apito e a ausência de uma corte nas primeiras décadas de existência. Esta mostra o novo status quo, regime republicano e liberdade aos escravizados, do Brasil no fim do século XIX e começo do XX. Já o de baque virado conta com a presença do rei e da rainha, do porta-estandarte, das damas de honra dos monarcas, damas do paço que carregam as calungas que representam a divindade dos orixás. A origem do maracatu de baque virado pode ser traçada até o século XVIII e é caracterizado pela busca de recriar as cortes dos reis africanos no Brasil através de elementos da religião católica e dos cortejos realizados pelas famílias reais da Europa. Assim, o maracatu de baque virado é uma tentativa do negro escravizado de se acomodar na sociedade em que está inserido. Agora que se sabe a diferença entre os dois maracatus já se pode falar sobre o que fez o Maracatu Nação Almirante do Forte mudar de baque solto para baque virado. Em meados da década de 1950 a Federação Carnavalesca de Pernambuco (FECAPE) chefiada por Mário Melo impôs a seguinte condição aos maracatus de baque solto: estes só poderiam participar da folia se adotassem a corte que outrora era exclusividade do baque virado. Num sentido simbólico isto significava que a acomodação ao status quo da época era a condição para o maracatu de baque solto fazer parte do tecido social.

Fora dos espaços oficiais de cultura como os centros religiosos, o Baile Perfumado e o Hipódromo do Prado há também as manifestações culturais realizadas pelo povo em suas casas e ruas durante os fins de semana e comemorações como Carnaval, São João, eleição de um político do bairro, Natal e Ano-Novo. O centro de tais atividades culturais se dá nas ruas Xavier Sobrinho e Gomes Taborda e destas os festejos se irradiam para as outras vias. Na primeira há sempre pessoas na calçada sem restrição de idade: adultos jogam dominó, baralho ou apenas conversam sobre a vida alheia, crianças empinam pipa, brincam de bola de gude, pião, pega-pega e esconde-esconde. Os mais velhos ficam bebendo e admirando a paisagem. É comum ver homens vadios sentados na calçada imersos em longas conversas sobre futebol e sempre acompanhados de um cigarro na boca e um copo de cerveja ou cachaça na mão. Eles são frequentadores assíduos das lotéricas locais e do bar já citado em que ocorrem apostas em partidas de futebol. Para sustentar o vício tanto da bebida quanto do jogo eles realizam “bicos” como pedreiros, catadores de lixo, pintores e serralheiros. O consumo de bebida alcoólica é bastante disseminado e por causa deste você observa que durante cinco dias os habitantes da rua trabalham como Hefesto para se transformarem em Dionísio no final de semana e na seguinte eles repetem o ciclo. Este fato social inibe o crescimento econômico e consequentemente o panorama cultural destas pessoas não se expande. Muitos dos que estão presos em tal ciclo frequentam templos evangélicos e católicos, mas pelo que se percebe a conversão não provoca uma mudança como o abandono dos vícios. Nos fins de semana algumas famílias festejam na varanda ou no quintal de casa, enquanto que outras colocam mesas e cadeiras plásticas na calçada para beber e dançar ao ritmo de vários gêneros musicais como pagode, samba, reggae e sertanejo. Todavia, os principais gêneros musicais são funk e brega com predominância de canções com temática erótica. Além do problema do alcoolismo e do jogo há o consumo de maconha que atinge principalmente os mais jovens, estes para sustentarem o consumo da droga praticam pequenos furtos ou vendem pipoca e água na Avenida Engenheiro Abdias de Carvalho. No Carnaval a rua fica praticamente deserta, pois a maioria das pessoas se encaminha para a Rua Gomes Taborda, Olinda e Recife Antigo. No entanto, os que preferem curtir o Carnaval com a família sem o risco de confusão brincam na própria rua e no decorrer da folia surgem os caboclos de lança, a “La Ursa” e os papangus. No São João a rua fica repleta de fogueiras e aparecem as barracas em que se vendem comidas típicas dessa festa. Os infantes passam a noite brincando com rojões e os adultos em geral mudam o repertório musical e dançam ao som de Santanna, Elba Ramalho, Luiz Gonzaga e Dominguinhos. No Natal os parentes de longe se reúnem numa mesma casa e a única coisa que muda é que a rua se torna mais silenciosa e iluminada. Já o Ano-Novo é o ápice das celebrações, pois se estende por um período maior do que todas as outras. Uns vão para a praia de Boa Viagem, outros ficam na própria rua e há ainda os que comemoram o novo ano em casa ou na Gomes Taborda. Nesta as festas contam com mais atrações artísticas pelo fato de ter mais estabelecimentos comerciais do que a Xavier Sobrinho.

Através desta obra você conheceu a vida cultural presente no bairro do Prado bem como a história do mesmo. É uma área de transição de uma comunidade pobre para uma de classe média e esta diferença pode ser vista na cultura consumida por cada parte da população analisada. Os mais abastados vão para o Baile Perfumado e outras casas de show de Recife, enquanto que os mais pobres vão para templos, terreiros ou fazem a festa na calçada em frente de casa. Assim, podemos ver que a situação socioeconômica da população e as manifestações culturais da mesma estão relacionadas. Quanto mais carente uma comunidade menor é a capacidade da mesma de manter a própria cultura, mas a riqueza e a religião podem fazer com que os cidadãos substituam suas festas tradicionais por outras mais exclusivistas tanto do ponto de vista religioso quanto financeiro.

Nesta segunda década do século XXI o bairro pode mudar ainda mais, pois é pouco adensado e o mercado imobiliário está saturado em localidades como Torre, Madalena e Boa Viagem. Assim, o Prado pode sofrer uma nova mudança e alguns centros culturais apresentados neste texto poderão desaparecer. Caberá aos moradores preservarem a própria cultura ao ingressarem de vez na Modernidade para que não fiquem perdidos como a Europa atual e esta é uma decisão que se deve tomar agora.

Texto escrito por Mário Pereira Gomes

Notas:

[1] LEITE JÚNIOR, A. M, 2011, p. 64.

[2] Breve hagiografia da Santa Edwiges. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/071...

[3] Sobre o Jockey. Disponível em: http://www.jcpe.com.br/instituciona...

[4] MIRANDA, 2008, p. 417.

[5] Neste mesmo espaço existiram outras casas de show como Mansão do Forró, Cavalo Dourado, Forró Chic e Casa de Zé Nabo.

BIBLIOGRAFIA

Livros:

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MIRANDA, Lívia; MORAES, Demóstenes. O Plano de Regularização das Zonas Especiais de Interesse Social (Prezeis) do Recife: democratização da gestão e planejamento participativo. In: CARDOSO, Adauto Lucio (Org.). Habitação Social nas Metrópoles Brasileiras: Uma avaliação das políticas habitacionais em Belém, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo no final do século XX. Porto Alegre: ANTAC, 2007, p. 414–435.

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Artigos:

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Fontes orais (entrevistados):

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Sites:

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Bairro do Prado chama atenção de quem busca novo endereço. Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2017/02/05/interna_vidaurbana,687481/bairro-do-prado-chama-atencao-de-quem-busca-de-novo-endereco.shtml

Breve hagiografia da Santa Edwiges. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/071...

Católicos fazem homenagem a Santa Edwiges em capela no Recife. Disponível em: http://g1.globo.com/pernambuco/videos/v/catolicos-fazem-homenagem-a-santa-edwiges-em-capela-no-recife/3702526/

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Maracatu Almirante do Forte. Disponível em: https://almirantedoforte.com.br/

Qual a ligação entre os santos católicos e os orixás? Disponível em: http://mundoestranho.abril.com.br/religiao/qual-a-ligacao-entre-os-santos-catolicos-e-os-orixas/

Sobre o Jockey. Disponível em: http://www.jcpe.com.br/institucional/sobre-o-jockey/