Análise do filme A Chegada

Cena do filme A Chegada

A mais recente obra cinematográfica de Denis Villeneuve é uma das melhores no gênero ficção científica do ano de 2016. Neste texto irei abordar a linguagem e como ela muda a vida das pessoas e do mundo em A Chegada. Para melhorar a compreensão da obra fílmica o tema linguagem será dividido em três partes e dentro de cada parágrafo outros temas que surgem no filme também serão abordados. A primeira parte tratará da linguagem humana como fonte de conflitos, já a segunda irá focar na concepção de tempo e linguagem (universal) dos alienígenas e de que forma a nova linguagem provoca nos personagens a visão da espécie humana sobre si mesma e o universo. Por fim, a terceira que falará do momento em que o presente extraterrestre (a linguagem universal) é aceito pela humanidade e esta se torna uma única família.

O tecido da realidade humana é rompido quando 12 naves alienígenas, chamadas de “conchas” por causa do formato, chegam ao planeta Terra em locais escolhidos de maneira aleatória. De repente as certezas mais sólidas da humanidade desmancham no ar e tal vazio é representado pela falta de comunicação não só entre humanos e alienígenas, mas entre os próprios seres humanos que são incapazes de se comunicar de maneira unificada de uma espécie para outra por causa da existência de muitos idiomas e países. Assim, a pluralidade de línguas reflete a multiplicidade de nações e esta representa o maior obstáculo ao projeto de estabelecer um contato efetivo com os extraterrestres. O governo norte-americano chama a linguista Louise Banks e o físico Ian Donelly para juntos decifrarem a linguagem dos “heptapods”, nome dado pelos humanos para os seres extraterrestres. A dupla acompanhada de militares se dirige para a nave localizada num vale e descobrem que ela flutua sobre o solo, então para entrar na “concha” é necessário um elevador que os faça ascender até o desconhecido. Tal cena está imbuída da filosofia transhumanista, pois coloca a máquina como meio para o ser humano transcender a si mesmo. Ao subir até a entrada da nave Ian toca o casco dela com o dedo indicador numa clara alusão ao famoso afresco A Criação de Adão de Michelangelo, mas a primeira tentativa de se comunicar com os alienígenas é decepcionante pelo fato da fala deles ser uma série de sons parecidos com os da baleia. Na segunda vez o grupo usa a escrita e esta consegue estabelecer a primeira conversação entre humanos e extraterrestres. Todavia, a má interpretação das mensagens proferidas pelos “heptapods” e a desconfiança mútua das nações (muitos idiomas, pouco entendimento) provoca a escalada na tensão que só é resolvida quando Louise aprende a linguagem universal e a utiliza para estabelecer um laço de confiança com os chineses que desistem de bombardear a “concha” localizada no Mar da China Meridional. Somente ao aprender a nova escrita que a guerra é evitada e as suspeitas entre os países são desfeitas. Após os eventos uma nova geopolítica é estabelecida, mas antes de analisar as mudanças causadas na humanidade pela linguagem universal é preciso falar como esta é escrita e de que forma ela amplia nossa visão de mundo.

A escrita alienígena se forma a partir de um fluido negro que sai de um dos sete tentáculos dos “heptapods” e forma a figura abaixo:

Escrita dos “heptapods”

A escrita alienígena é muito semelhante ao símbolo da eternidade chamado ouroboros que se trata de uma serpente que morde a própria cauda. Esta correlação entre símbolo e escrita é muito importante, pois o logograma transmite uma concepção de tempo que permite aos extraterrestres enxergar passado, presente e futuro como um só. Neste ponto é necessário perceber que a escrita alienígena não é linear assim como a percepção deles sobre o tempo. Todavia, tanto os alienígenas quanto os humanos que aprendem a linguagem universal e consequentemente preveem o futuro decidem não mudá-lo, pois eles são incapazes de ver os vários futuros possíveis e isto denota a inexistência no filme do conceito de livre-arbítrio. É interessante notar que a concepção de tempo extraterrestre não se dá apenas pela evolução tecnocientífica dos “heptapods”, mas por estes serem dotados de uma linguagem que os possibilita que a nova percepção sobre o tempo seja comunicável. Isto se torna mais forte quando Hannah, filha de Louise, pergunta para esta qual o nome dado para um acordo em que nenhuma parte é prejudicada e a mãe responde que se trata de um jogo de soma não nula. A garota tinha em si a ideia, mas precisava de uma palavra que simbolizasse o que ela estava pensando. Deste modo, o fato dos cientistas não conseguirem imaginar o universo de uma nova forma se dá mais pelo fato da linguagem que eles usam ter alcance restrito do que o atual nível tecnológico e científico da espécie humana e aqui é muito bom lembrar a seguinte frase: “os limites da minha linguagem denotam os limites de meu mundo” (WITTGENSTEIN, 1968, p. 111). Ao tomar contato com seres de outro planeta, a linguagem e o mundo humano são ampliados, então você pode observar que há uma estreita relação entre os dois. Pelo fato de ter aprendido a escrita alienígena Louise vê que terá uma filha e que ela morrerá jovem, então ela se encontra diante de uma encruzilhada: conceber uma criança destinada a morrer na adolescência ou não ter a filha e colocar em risco não só o futuro da humanidade como o dos “heptapods”. A linguista decide amar o destino (amor-fati), então ela aceita o futuro e todos os momentos de alegria e dor que irá viver e isto significa que Louise proferiu um grande sim para a vida.

Nos momentos mais tensos da obra fílmica vemos que a nação mais diplomática do planeta é os Estados Unidos, enquanto que as mais belicistas são a China e a Rússia. Como um filme de Hollywood A Chegada reflete a visão geopolítica do governo estadunidense de que os dois países citados anteriormente são os mais propensos a resolver disputas políticas e econômicas através da guerra, enquanto que os EUA pegam em armas apenas em último caso. Após Louise dissuadir a China de atacar uma “concha” ocorre um evento na sede da ONU em que várias bandeiras estão hasteadas e dentre elas há uma de fundo branco com o logograma extraterrestre o que significa que a partir de agora os “heptapods” são membros das Nações Unidas e que uma nova geopolítica baseada na cooperação será estabelecida. Louise se casa com Ian e escreve um livro que trata da linguagem universal e começa a ensiná-la na universidade, ou seja, os seres humanos agora irão falar vários idiomas, mas a escrita será a mesma para todos. Assim, as diferenças humanas são postas em um segundo plano e se você notar que a maior parte de nossas mensagens se dá através da escrita (ex: redes sociais) não é difícil imaginar que as interações humanas no futuro mostrado no filme se darão através dos logogramas. Com a aquisição de uma nova linguagem e de uma concepção de tempo mais avançada os limites da espécie humana são alargados e ela passa a avançar de forma exponencial para que três mil anos depois possa ajudar os “heptapods” (este é o motivo deles terem visitado a Terra e nos dado a linguagem universal). Diante da existência do outro a humanidade se torna una não só na política, mas também na linguagem e isto me faz lembrar o seguinte versículo bíblico:

E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer Gênesis 11:6.

Os limites para o progresso humano são derrubados e finalmente a humanidade se une. A partir deste ponto o desenvolvimento tecnocientífico se torna a norma para que um dia possamos ajudar nossos amigos de outro planeta e adquirir conhecimentos até agora inimagináveis.

O filme A Chegada é rico em simbologia e trata temas difíceis de maneira leve e fluída. É uma obra cinematográfica diferente do que comumente se vê quando se trata do primeiro contato entre humanos e alienígenas, ou seja, guerra e risco de sermos extintos. Isto mostra a urgência de refletir mais sobre os impactos que a comprovação de vida inteligente extraterrestre terá sobre nossas vidas e A Chegada mostra o caminho para isto ao colocar o diálogo e a cooperação entre as nações como a melhor forma para resolver os problemas globais.

Texto escrito por Mário Pereira Gomes

Bibliografia:

Livros:

BUCKINGHAM, Will et al. O livro da filosofia. São Paulo: Globo, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm,. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

_____________________. Assim falou Zaratustra: texto integral. São Paulo: Martin Claret, 2008.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Trad. José Arthur Giannotti. São Paulo: Companhia Editor Nacional/ Editora da Universidade de São Paulo, 1968.

Sites:

A linguagem e seus limites. Disponível em: http://pensamentoextemporaneo.com.br/?p=1308

A lógica e os limites da linguagem no Tractatus logico-philosophicus de Ludwig Wittgenstein. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/artigos/1416759

Bíblia Online. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br

Como os designers de “A Chegada” criaram (e desvendaram) um alfabeto alienígena. Disponível em: http://www.b9.com.br/68448/cultura/como-os-designers-de-chegada-criaram-e-desvenderam-um-alfabeto-alienigena/

Conheça a teoria linguística em que se baseia A Chegada, filme de ficção científica do ano. Disponível em: http://notaterapia.com.br/2016/12/16/conheca-teoria-linguistica-em-que-se-baseia-chegada-filme-de-ficcao-cientifica-ano/

Crítica | A Chegada. Disponível em: http://nosbastidores.com.br/critica-a-chegada/

Crítica: “A Chegada” é uma ficção científica ambiciosa sobre barreiras da comunicação. Disponível em: http://clubecinema.com.br/critica-a-chegada/

Em “A Chegada” o homem está incomunicável no Universo. Disponível em: http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/12/em-chegada-o-homem-esta-incomunicavel.html

Filosofia Contemporânea — WITTGENSTEIN, Ludwig — O limite da Linguagem e o do Mundo. Disponível em: http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/3599836

Introdução à Filosofia do Transhumanismo. Disponível em: www.universoracionalista.org/filosofia-do-transhumanismo/

Nietzsche — Amor-fati. Disponível em: https://razaoinadequada.com/2013/04/03/nietzsche-amor-fati/

Onde o filme “A Chegada” acerta na comunicação entre alienígenas e humanos. Disponível em: http://gizmodo.uol.com.br/analise-linguistica-filme-a-chegada/

Passagem do tempo é a chave da existência e do filme “A Chegada”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/11/1834843-passagem-do-tempo-e-a-chave-da-existencia-e-do-filme-a-chegada.shtml

Quick, How Might the Alien Spacecraft Work? Disponível em: http://blog.stephenwolfram.com/2016/11/quick-how-might-the-alien-spacecraft-work/