O fruto proibido do Éden

Na maioria das religiões o sexo desempenha um papel primordial na prática religiosa, em algumas crenças a relação sexual é tida como positiva e em outras deve ser evitada a todo custo. Muitos questionam o que de fato representa o fruto proibido apresentado no livro de Gênesis, entretanto quando se estuda as religiões anteriores ao judaísmo percebe-se que o símbolo do fruto está associado ao casal primordial, ao sexo e a serpente.

Um dos melhores exemplos para entender o motivo pelo qual o sexo e o fruto proibido descritos na Bíblia são a mesma coisa é analisar a Epopeia de Gilgamesh. Num trecho deste livro nota-se a similitude entre Adão e Enkidu, este vivia feliz com os animais num estado de inocência até que Gilgamesh manda uma rameira para Enkidu e este se transforma depois da relação sexual:

Enkidu perdera sua força, pois agora tinha o conhecimento dentro de si, e os pensamentos do homem ocupavam seu coração. Então ele voltou e sentou-se ao pé da mulher, e escutou com atenção o que ela lhe disse: És sábio, Enkidu, e agora te tornaste semelhante a um deus. Por que queres ficar correndo à solta nas colinas com as feras do mato? (SANDARS, N. K. A epopéia de Gilgamesh, p 96 a 99).

A Bíblia não é tão explícita ao comparar o sexo com o conhecimento quanto a Epopeia de Gilgamesh, mas dá indícios de que os hebreus também viam uma correlação entre o saber e o sexo. Basta analisar o trecho que diz o que ocorre depois de Adão e Eva terem comido do fruto proibido: “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” (Gênesis 3:7). Ora, se o casal estava sem roupa antes de comerem do fruto como eles só perceberam que estavam nus depois de transgredirem a ordem de Deus? A resposta é que o ato de comer da Árvore do conhecimento do bem e do mal simboliza o amadurecimento humano tanto intelectual (ciência) quanto corpóreo (sexo). Tanto é verdade que o trecho que narra a primeira relação sexual de Adão e Eva é usado a palavra conhecer e não outra que pudesse denotar o coito, a passagem é esta: “E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu luz a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um homem” (Gênesis 4:1). Deste modo, o ato de comer do fruto da ciência do bem e do mal representa a a descoberta de si mesmo em que será preciso se utilizar da própria mente para resolver problemas e a inserção no mundo adulto em que o sexo se faz bastante presente.

A alegoria do jardim do Éden também simboliza a passagem da humanidade de um período que pode ser visto como infância da mesma para uma era em que o ser humano é responsável pelos próprios atos. O período em que a espécie humana não era capaz de se governar pode ser vista em termos históricos como o paleolítico, pois os humanos não controlavam as forças da natureza. Eles viviam da caça, da colheita e da pesca assim como o casal do Éden que nada precisavam fazer para se alimentarem exceto colher dos frutos que estavam perto deles. Todavia, quando os dois comem do fruto proibido tudo é modificado e agora eles terão que plantar para comer através do suor do próprio rosto, ou seja, trabalhar. O neolítico ilustra bem o que foi dito anteriormente, pois com o desenvolvimento da agricultura o ser humano começa a controlar a natureza e através do trabalho passa a modificar o mundo.

Ao comer do fruto do conhecimento o ser humano tornou-se responsável pela própria vida e nada melhor para representar esta passagem do que o sexo, pois é este ato que confirma a transformação do menino em homem e, portanto senhor de si mesmo. O sexo é ao mesmo tempo algo divino e bestial, divino por criar a vida e bestial por ser algo presente em todos os animais.

Não há nenhum pecado original, pois o jardim do Éden, o casal primordial e a serpente nada mais são do que alegorias para descrever a passagem de um momento em que a humanidade era dependente da natureza para outra em que a espécie humana adquiriu o poder de modificar a si mesma e ao mundo.

Texto escrito por Mário Pereira Gomes

Bibliografia:

Livros:

A EPOPEIA de Gilgamesh. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus: mitologia ocidental. 2. ed. São Paulo: Palas Athena, 2008.

GARAUDY, Roger. O ocidente é um acidente: (por um diálogo das civilizações). Rio de Janeiro: Salamandra, 1978.

Sites:

Bíblia Sagrada. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/

Deus e o Estado. Disponível em: https://ateus.net/artigos/critica/deus-e-o-estado/

O Poder do Mito. Disponível em: http://www.projetovemser.com.br/blog/wp-includes/downloads/joseph_campbell_%20o_poder_do_mito.pdf

O que é Esclarecimento? Disponível em: https://ateus.net/artigos/ceticismo/o-que-e-esclarecimento/

Segredos do Éden: o mistério da serpente. Disponível em: http://www.judeu.org/pdfs/segredoseden4.pdf