O Mármore, o Vinho e o Tapete

“Estátua dos Museus Capitolinos coberta para não ofender o presidente do Irã, Rohani. Solução italiana. Solução mais lógica”. Walter Leoni / Fanpage.it

Algumas semanas atrás a viagem do presidente iraniano Hassan Rohani a países europeus me chamou atenção pela maneira que este e os que estavam lhe acompanhando foram tratados pelos anfitriões. As ações dos chefes de Estado trazem um melhor conhecimento sobre eles do que os discursos políticos previamente elaborados.

O presidente do Irã iniciou na última semana de janeiro uma histórica viagem, pois há quase duas décadas não ocorria uma visita ao continente europeu de Estado de um presidente iraniano. Rohani foi para a Europa no intuito de reatar os laços econômicos com os países europeus, algo que só ocorreu por causa do acordo nuclear entre o Irã e o grupo 5+1 que é formado por EUA, China, Rússia, Alemanha, Reino Unido e França. O primeiro país visitado foi a Itália em que acordos firmados do país persa com empresas italianas poderão chegar aos 17 bilhões de euros. Ao desembarcar na Itália, Rohani foi recebido presidente Sergio Mattarella e depois se encontrou nos Museus Capitolinos com o premiê italiano Matteo Renzi e foi a ação deste que deve ser analisada.

O primeiro-ministro italiano mandou cobrir com caixas de compensado as estátuas de pessoas nuas como a famosa Vênus Capitolina para não ofender a delegação iraniana e, além disto, o vinho teve de ser retirado do almoço por causa do preceito islâmico que proíbe o consumo de álcool. Com este ato o governo da Itália apenas mostra que se envergonha de sua própria história e o quão complacente é com as idiossincrasias alheias. O que se viu foi a relação de um país que tudo concede para agradar outra nação que pouco cede. Como disse Giuliano Volpe, chefe do Conselho Superior de Herança Cultural do Ministério da Cultura da Itália, “Você não pode esconder a sua cultura, a sua religião ou história. Foi uma decisão equivocada”. Se o governo italiano sabia da recusa da delegação iraniana de ver esculturas nuas, então por qual motivo a entrevista de Matteo Renzi e Rohani se deu justamente em um museu? Concluo que o governo italiano escolheu um museu para mostrar o quanto é subserviente aos pedidos de uma autoridade estrangeira ou foram os iranianos que decidiram por fazer a entrevista no museu cujas estátuas foram cobertas por painéis brancos para mostrar seu poder. A atitude italiana é de agradar o outro mesmo que isto signifique esconder a própria identidade cultural o que a França não fez quando Rohani visitou Paris.

A visita à França foi marcada pela falta de consenso na mesa de almoço, pois o governo francês queria servir vinho aos representantes da República Islâmica o que é praxe em visitas de mandatários internacionais. Todavia, os iranianos recusaram assim como na Itália a presença de álcool na mesa. Ou seja, a delegação iraniana queria que ninguém no almoço consumisse vinho quando o mais correto deveria ser que os muçulmanos ingerissem água ou suco, enquanto que os franceses se deleitassem com o vinho nacional. Entretanto, o respeito mútuo não aconteceu e diante do impasse e da recusa do presidente iraniano de tomar um café da manhã por considerar algo muito simples para ele o almoço foi cancelado e os dois chefes de Estado foram falar sobre negócios lucrativos algo que lembra Voltaire ao dizer que: “Quando se trata de dinheiro, todos têm a mesma religião”. O governo da França não se dobrou à vontade iraniana como na Itália e já que não se chegou a uma solução que favorecesse ambas as partes decidiu-se por acabar com a causa do problema. Assim, o Irã mostrou que não aceita sequer que os outros bebam álcool e a França demonstrou que a relação entre os países deve ser baseada no mútuo respeito.

O único chefe de Estado com o qual o presidente do Irã teve uma relação harmônica foi o papa Francisco. Os dois conversaram agradavelmente durante 40 minutos e durante este tempo não houve animosidades por causa de vinho ou esculturas de mármore. Rohani não pediu que o pontífice escondesse o crucifixo que traz sobre o peito e o bispo de Roma não requisitou que o presidente iraniano retirasse o turbante, ou seja, os dois se respeitaram e se trataram como iguais. O papa Francisco pediu para que o Irã desempenhe um papel ativo no Oriente Médio para impedir o tráfico de armas e a proliferação do terrorismo. Como de praxe houve a troca de presentes entre os dois, Francisco entregou o medalhão de San Martín de Tours, padroeiro de Buenos Aires, e a encíclica “Laudato Si”. Por sua vez, Rohani deu de presente para o pontífice um tapete artesanal em tons avermelhados feito em Qom no Irã e um livro com miniaturas. Por fim, Rohani pediu que Francisco rezasse por ele e disse que foi um prazer conversar com o Francisco.

As atitudes dos chefes de Estado mostraram muito mais que suas palavras e revelaram um pouco de suas ideias e seu caráter. O governo italiano aceitou as exigências do visitante talvez pela ânsia de firmar acordos comerciais, por outro lado o governo francês tentou encontrar uma solução que agradasse a visita e respeitasse os próprios valores o que não ocorreu. Já a delegação iraniana mostrou que quer se abrir para o Ocidente, mas sem abandonar seus princípios e que em certos casos deseja obrigar o outro a seguir certos preceitos como a não ingestão de bebida alcoólica. O papa Francisco foi de todos os chefes de Estado o mais exemplar, pois teve uma conversa pacífica com Rohani e os dois por se respeitarem puderam dialogar como bons amigos. O tapete com o qual o pontífice foi presenteado é um lembrete de que a humanidade é formada por distintas cores que unidas de forma harmoniosa irão gerar uma bela obra de arte.

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