O sofrimento no filme Corações de Ferro

O filme Corações de Ferro retrata de forma crua os horrores da guerra de uma forma que choca as pessoas que assistem a filmes sobre guerra em que esta é mostrada como algo heroico. Nesta película o telespectador vê a investida norte-americana em território alemão em abril de 1945 e foca em cinco homens num tanque M4 Sherman de nome Fúria lutando contra os nazistas bem como seus dramas psicológicos e a forma como cada um dos soldados analisados no texto se comporta diante dos sofrimentos causados pelo conflito.
Os soldados que estrelam o filme são o sargento Don Collier, o motorista Trini Garcia, o assistente de motorista e atirador Norman Ellison, o carregador de munição Grady Travis e o atirador Boyd Swan. O primeiro a ser analisado é o mexicano Trini Garcia. Este de vez em quando sofre preconceito por causa do idioma e da nacionalidade, mas por se tratar de uma guerra as diferenças étnicas são postas de lado. Garcia foge do sofrimento através do roubo: roubar comida; joias e roupas dos alemães. Como se pode ver os personagens não são tão profundos de modo que muito pouco a se falar de cada um, mas isto ocorre pelo da guerra tornar as pessoas rasas ao esvaziá-la de toda sua profundidade psicológica e colocar em sua mente uma única diretriz: matar para não ser morto.
O segundo é Grady Travis que trabalha no Fúria como carregador de armas, ele é impulsivo e de todos os cinco é o que mais fica feliz ao matar alemães principalmente se forem da Waffen-SS, exército da organização nazista paramilitar SS, que era a tropa de elite da Alemanha Nazista e que massacrava alemães que ajudavam os Aliados. Travis tenta fugir dos horrores da guerra através da bebida; do envolvimento com prostitutas; mas principalmente através da humilhação dos alemães com enfoque nas mulheres.
O atirador Boyd Swan é o mais calmo do grupo, apesar de quando é hora de apertar o gatilho ele fica bem nervoso. Boyd busca conforto na leitura da Bíblia e por causa de sua fé ele se abstém de prostitutas, apesar de julgar os outros. Boyd de vez em quando lê versículos bíblicos que trazem um significado para ele e seus amigos. Tais passagens servem às vezes para aumentar o ânimo dos seus companheiros de luta, pois em certas cenas ele fala que Deus está do lado dos Aliados e que eles são instrumentos divinos para destruir o mal no mundo. Assim, Boyd lida com o sofrimento através da religião e tenta dar significado para a situação que estão vivenciando e pregar a esperança em dias melhores. Todavia, nada disto adianta visto que ao final do filme ele morre com aquele olhar próprio de alguém que morre sem fé de que ao fechar os olhos irá despertar num lugar bom.
O sargento Don Collier lida com o sofrimento através da morte dos nazistas; ele transfere toda sua dor e sofrimento para as mães; esposas e filhas dos homens que ele mata. Collier sente-se responsável pelos subalternos de tal modo que busca sempre fazer o melhor para que todos os tripulantes do tanque sobrevivam aos momentos finais da invasão da Alemanha. Ele é governado pelo sentido de dever mesmo que este o leve para a morte; o que de fato acontece. Para ele o sofrimento cessará de um modo ou de outro quando da vitória aliada.
Norman é o mais novo de todos e havia sido treinado para ser um datilógrafo, mas foi mandado para frente de batalha pelos seus superiores. Num primeiro momento ele tenta ser amigo dos quatro soldados anteriormente analisados, mas estes o rechaçam por ser muito novo e medroso. Ao longo do filme ele tenta preservar sua vivacidade, mas quando a mulher que gostava e seus amigos são mortos ele se torna um soldado e mata todos os nazistas ao seu redor e depois desmaia. O filme termina com Norman sendo chamado pelos médicos de herói e entrando na ambulância para ser transportado para um local seguro, enquanto o telespectador assiste centenas de corpos ao redor do tanque Fúria.
O filme mostra como cada pessoa lida com uma situação de dor intensa e traumas psicológicos. Uns leem a Bíblia, outros se confortam entre as pernas de uma mulher, alguns na bebida ou matando o máximo de inimigos possíveis. Corações de Ferro retrata a guerra em toda sua crueza; o que é muito bom visto que retira dos conflitos armados o véu de heroísmo e ato nobre. Norman perdeu Emma e quatro amigos; nenhuma medalha fará essas pessoas reviverem ou retirar de sua mente os traumas que adquiriu e as cenas que viu. A guerra é a forma mais primitiva e estúpida de alcançar objetivos.
Texto escrito por Mário Pereira Gomes
