Resenha do livro Como funciona o fascismo: A política do “nós” e “eles”

Mario Gomes
Jan 26 · 7 min read
Crédito na imagem.

O filósofo Jason Stanley é um estudioso do neofascismo que no ano passado publicou a obra Como funciona o fascismo: A política do “nós” e “eles”; ao longo da obra o autor descreve as estratégias utilizadas pela política fascista para tomar o poder. O que se fará neste texto é listar cada estratégia e fazer uma breve descrição delas tendo como exemplo a realidade brasileira. O autor define fascismo como “qualquer tipo de ultranacionalismo (étnico, religioso, cultural), no qual a nação é representada na figura de um líder autoritário que fala em seu nome”. É esta definição que será utilizada aqui no texto para falar sobre a situação brasileira atual tendo em mente que tal definição é criticada por outros estudiosos do fascismo pelo simples fato de que é assim que ocorre quando se trata de ciência. O pensamento monolítico não é condizente com a produção acadêmica.

Antes de mais nada é importante perceber que ao falar de fascismo muitos se lembram da Alemanha de Hitler e da guerra mundial por ele começada, mas deve-se ter em mente que o fascismo não é algo estanque. Ele se modifica ao longo do tempo de modo que o fascismo nos tempos de hoje não é o mesmo das décadas de 1930 e 1940. Esquece-se que a Espanha de Franco e Portugal durante o governo Salazar eram Estados fascistas. Abaixo segue as 10 estratégias da política fascista para tomar o poder:

I - O passado mítico: Trata-se da estratégia mais importante da política fascista da qual depende todas as outras; daí o fato de quererem controlar a História através da educação. A partir dessa estratégia a política fascista busca incutir na população a ideia de que houve uma época no passado em que tudo era melhor do que no presente; esta temporalidade é tida pelo fascismo como uma época ruim. Tal “Era de Ouro” se caracteriza por ser um período no qual a vida rural era muito mais importante do que a urbana, as divisões sociais eram mais claras e rígidas e com papeis de gênero bastante definidos. No Brasil a época considerada melhor que todas as outras é o período da ditadura civil-militar (1964–1985); tal regime é tido por muitos como o momento em que a nação brasileira era próspera economicamente, segura e acima de tudo moralizada.

II - Propaganda: A comunicação ocorre no instante em que se fala; o que a política fascista busca fazer é substituir a relação dialógica pela propaganda na qual impera palavras de ordem, imagens e vídeos que apelam aos sentimentos humanos. A palavra “parlamento” deriva do francês antigo parler (falar); local de discussão e debate em que as decisões são tomadas através de uma relação dialógica. O que o fascismo faz é apresentar a discussão e o debate como algo inútil para o bom funcionamento da sociedade; políticos fascistas não são homens que pensam, mas que agem. Isto ocorre após uma desilusão da população com a classe política que discute bastante no Parlamento, enquanto o cidadão se encontra desempregado ou em alguma situação de humilhação diária. O fascismo substitui o debate necessário para o estabelecimento de políticas públicas por decretos; o que culmina num Estado centralizado com um poder executivo hipertrofiado.

III - Anti-intelectualismo: A política fascista passa a propugnar a ideia de que os centros acadêmicos disseminam apenas mentiras e que se você quiser se tornar alguém inteligente deve rejeitar todo o conhecimento produzido pelas universidades. No caso brasileiro se aproveita da incultura da população que lê muito pouco e de que apenas uma minoria ingressa no mundo universitário para disseminar tal ideia; daí o fato de que muitos jovens buscam conhecimento com influenciadores digitais que não são especialistas nas áreas sobre as quais falam como História, Biologia e Física. Ao colocar os centros universitários como locais a serem evitados a política fascista afasta os jovens do conhecimento que poderia ajudar-lhes a não só melhorar a própria vida, mas adquirir uma visão de mundo oposta ao fascismo.

IV - Irrealidade: A política fascista cria um mundo que guarda pouca semelhança com a realidade compartilhada pelo resto da população. Esta estratégia engloba as anteriores; a “Era de Ouro” reescreve toda a história não só da nação como do mundo inteiro. A marginalização do pensamento racional e a substituição da relação dialógica pela propaganda faz com que a população seja guiada unicamente pelos sentimentos; algo muito mais fácil de manipular do que a razão. Os fatos históricos são substituídos pelas teorias da conspiração. Um exemplo de irrealidade foram as mentiras propagadas no ciberespaço durante as eleições presidenciais do ano passado. Outro exemplo é o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que coloca a Hungria como a nação que salvou a Europa do Império Otomano. Ele ignora o fato de que muitos húngaros, romenos, gregos e sérvios lutaram no exército dos sultões.

V - Hierarquia: O passado mítico não traz apenas a ideia de que determinado país já teve dias de glória, mas de que tais dias acabaram por não se ter respeitado a hierarquia que vigorava na “Era de Ouro”. Assim, para Hitler os arianos se tornaram fracos por não terem copulado com outros grupos étnicos; o que na mente do líder nazista era o mesmo que transgredir alguma lei natural. No Brasil a hierarquia, independente de governo, sempre fez parte. Um país no qual no topo da hierarquia se encontra o homem branco, hétero e rico e nos últimos a comunidade LGBTIQ+, negros, mulheres ou pessoas que englobam as três características acima citadas. A preservação da hierarquia é defendida pela política fascista como a condição sine qua non para a prosperidade do país.

VI - Vitimização: Dentro da mentalidade fascista a perseguição contra determinados grupos não é um ataque, mas uma reação contra uma ofensa que eles cometeram no passado. Se antes tudo era bom, mas o presente é ruim algo deu errado. A culpa recai justamente nos grupos tidos como estranhos ao “corpo social da nação” e a linguagem utilizada para se referir a tais pessoas é muito próxima daquela usada pelos médicos quando sobre bacilos, vírus e bactérias que provocam doenças no corpo humano. No Brasil a vitimização ocorre na relação entre as pessoas e o chamado politicamente correto. Muitos reclamam que não podem mais fazer uma piada sobre homossexuais, negros, mulheres entre outros grupos historicamente marginalizados. Parte da população brasileira se vê censurada pelo politicamente correto; não se nota que vivenciamos um momento no qual antigos privilégios, que de tão velhos são vistos como direitos, estão sendo contestados pelas pessoas que até recentemente não tinham voz. O fato de que o conjunto das forças armadas alemães durante o regime nazista recebeu o nome de Wehrmacht (termo alemão que significa “Força de Defesa”, e que pode ser entendido como “meios/poder de resistência”) é sintomático dessa estratégia de vitimização. Ninguém quer ser visto como o agressor; nem mesmo os fascistas.

VII - Lei e ordem: Esta estratégia está intimamente relacionada a quinta, pois coloca a preservação do status quo como algo de suma importância para que a sociedade seja como era na época áurea. Na verdade, tal estratégia tem como intuito impedir qualquer transformação que coloque em risco o fascismo após este chegar ao poder. Em terras tupiniquins tal estratégia é chamada de “Ordem e Progresso”. Vale destacar que tal frase faz parte do lema positivista que diz o seguinte: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim”. A omissão da palavra amor diz muito sobre o tipo de sociedade que desejam construir.

VIII - Ansiedade sexual: Parte da vitimização possui cunho sexual; certos homens reclamam que o assédio deles não é mais visto como flerte ou “cantada”. Além disto, a mulher nas sociedades contemporâneas ocidentais possui um domínio sobre o próprio corpo, por conta da pílula anticoncepcional e de outros avanços, que antes não existia. Agora ela não precisa viver sob a sombra do marido, do irmão mais velho ou do pai. As mulheres trabalham, podem decidir quando e se querem gerar um bebê e escolher com quem desejam ir para cama. Quando certos indivíduos afirmam que estão combatendo a ideologia de gênero é justamente as conquistas da comunidade LGBTIQ+ e das mulheres que eles desejam destruir.

IX- Apelos à noção de pátria: O que se dá nesta estratégia não é o amor pela pátria, mas a ideia de que esta é melhor que todas as outras. Isto aprisiona as pessoas dentro de uma sociedade monolítica na qual o diferente é logo obliterado. Tal estratégia busca reforçar as outras como a primeira, a quarta, a quinta e a sétima. Ela busca incutir nas pessoas de que os valores estão baseados no coração e que as cidades são decadentes ao contrário do campo; que o logo do novo governo pareça o símbolo de um programa televisivo sobre vida rural é um exemplo de tal estratégia.

X - Desarticulação da união e do bem-estar público: Esta estratégia afirma que só é digno de receber as benesses do Estado quem trabalha, enquanto que o grupo de fora é preguiçoso. Eles não são apenas criminosos; eles são vagabundos. Aqui nem preciso exemplificar a forma como tal estratégia aparece no atual governo.

O livro de Stanley é bem curto, pouco mais de 100 páginas na versão digital, e é importante em tempos de avanço pelo mundo do ultranacionalismo. No entanto, você deve após este texto buscar outras obras sobre o fascismo para que tenha uma compreensão mais acurada sobre tal ideologia. Espero que tenha gostado da leitura e até mais.

Texto escrito por Mário Pereira Gomes

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