Sobre a importância dos detalhes

Doodle do Google sobre o Solstício de Verão de 2016

Os fatos ocorridos ao longo do ano de 2016 demonstraram o desprezo aos detalhes por parte dos jornalistas, políticos e estudantes. A vontade de alcançar os próprios objetivos os cegou para o fato de que as circunstâncias destoam do que era imaginado. O doodle do Google criado para comemorar o Solstício de Verão de 2016 é para mim uma ótima forma de tecer uma crítica aos grupos que em 2016 ignoraram certos detalhes e se surpreenderam com o resultado da eleição para presidente nos Estados Unidos e as eleições para prefeito no Brasil.

O doodle apresenta uma bela paisagem com várias rochas, plantas, um morango e uma árvore. Desta última surge um esquilo que ao avistar a fruta vermelha ignora o mundo ao seu redor e vê apenas o objeto desejado. Ao fazer isto o esquilo não percebe que as rochas possuem vida e corre freneticamente até o morango e quando este é alcançado o pequeno animal se enche de alegria, mas tal momento de júbilo termina quando percebe que a rocha na frente dele está viva. Então, o roedor corre de volta para a árvore e esquece-se de levar consigo o morango. Esta cena servirá para criticar três eventos ao longo do texto: a reação dos jornalistas da Rede Globo diante da vitória de Trump, a tentativa por parte da mídia de convencer quem deveria ser eleito nas eleições municipais de 2016 e as ocupações de escolas e universidades como forma de impedir a aprovação da PEC 55.

Durante toda a eleição para presidente dos Estados Unidos a Globo fez várias matérias jornalísticas para mostrar como Trump era a pior escolha para o mundo. Ao longo de várias reportagens os podres dele foram escrutinados para passar aos telespectadores a imagem de que o candidato republicano é impulsivo, ou seja, alguém que ninguém desejaria que tivesse posse das ogivas nucleares. Para isto o Jornal Nacional mostrou uma reportagem que mostrava Donald Trump da infância até o momento em que se candidatou para o cargo de presidente dos EUA. Na reportagem o telespectador viu como Trump não tem qualquer experiência política e está envolvido em escândalos sexuais. Além disto, ele era uma criança rebelde que certo dia jogou bolo em várias pessoas. Houve muito foco na promessa de campanha de criar um muro na fronteira Estados Unidos-México, mas pouco na de fazer a economia crescer novamente. Já Hillary Clinton foi apresentada como a candidata certa por ter sido primeira-dama, senadora e secretária de Estado. Todavia, os comentaristas da Globo não perceberam que os candidatos que se apresentam como gestores ganham vantagem entre os eleitores do que os políticos tradicionais. No doodle o esquilo perde a noção sobre o resto do mundo ao ver o morango, pois ele não nota o simples detalhe de que as pedras estão vivas. A Rede Globo agiu da mesma forma, pois desejou tanto que Hillary fosse eleita que ignorou o fato de que o discurso de Trump era muito mais condizente com os anseios de uma parcela significativa da população estadunidense do que o da candidata democrata vista como belicista e adepta da guerra como solução diplomática. A reação dos comentaristas da empresa fundada por Roberto Marinho foi igual ao do esquilo quando percebeu que uma rocha estava viva, ou seja, choque e espanto. Após aceitarem a vitória os repórteres da Globo foram tomados pela síndrome do PSDB (tentativa de chegar ao poder por outros meios após ter perdido uma eleição presidencial), ou seja, buscaram invalidar o resultado ao noticiar a suposta ação de russos para favorecer o bilionário. No entanto, o Colégio eleitoral dos Estados Unidos oficializou a vitória de Trump.

No mesmo mês da eleição presidencial nos EUA ocorreram as eleições municipais no Brasil em que a revista Veja e a Globo apoiaram o candidato Marcelo Freixo (PSOL) e noticiaram reportagens que mostravam o candidato Marcelo Crivella (PRB) como intolerante religioso e homofóbico. A Veja até publicou uma foto deste último na prisão para minar a possível vitória dele, mas Crivella ganhou. Após a constatação de que as eleições municipais resultaram numa derrota acachapante do PT, a revista CartaCapital publicou a seguinte capa:

2016 ensinou que todos gostam da democracia se o candidato eleito não for o do outro.

Como sempre a “Grande Mídia” foi acusada de manipular a população brasileira para votar nos candidatos defensores dos banqueiros de Wall Street. Ironicamente, Freixo foi apoiado pela Veja e a Globo o que não resultou em vitória. Mais uma vez a intelligentsia brasileira focou demais no morango (a vontade de que Hillary e Freixo fossem eleitos) e não percebeu o detalhe (as rochas) de que agora o algoritmo da política é outro. Nesta primeira década do século XXI a política se faz mais através das redes sociais e manifestações do que os palanques políticos. Todavia, certos protestos se mostraram mais efetivos que outros como se pode ver nas ocupações de escolas públicas por pessoas contrárias à PEC 55 e os que se vestem com a camisa da seleção brasileira e protestaram contra Renan Calheiros por este ter tentado barrar o trabalho de juízes e procuradores da operação Lava-Jato.

As ocupações de universidades federais e escolas públicas são realizadas por pessoas que acreditam que a chamada “PEC do teto dos gastos” irá arruinar a educação e saúde do Brasil. Tal ação visou impedir que tal projeto fosse aprovado pelo Congresso, mas o que se viu foi mais de 100 mil estudantes prejudicados pelas ocupações e tendo que fazer o Enem no mês de dezembro e a vitória da PEC 55 no dia 13/12. Neste mesmo dia manifestações violentas ocorreram por todo país, vários bancos tiveram as vidraças destruídas em Recife e pneus foram queimados em frente ao Hospital das Clínicas. Os defensores da destruição dizem que se trata de uma violência simbólica e de que estão lutando pelas pessoas, mas estas observam que os que se vestem de verde-amarelo fazem manifestações no final de semana e nada é destruído. Além disto, eles conseguem fazer com que as próprias reivindicações sejam atendidas pela classe política. Deste modo, a direita aproveita melhor os mecanismos da democracia e se mostra como mais favorável aos pobres do que a esquerda que apenas olha o objetivo sem qualquer reflexão sobre os meios que devem ser tomados e se encontra politicamente delimitada pelos muros das universidades e escolas que ocuparam. Assim, a direita brasileira quando se trata de manifestação é um esquilo que antes de pegar o morango olha a paisagem ao seu redor e vê qual a melhor forma de alcançar o que deseja com a máxima descrição e o mínimo prejuízo para si mesmo. Já a esquerda é o esquilo que ao ver a fruta corre para esta, não presta atenção em que está pisando e se surpreende com o óbvio seja isto a eleição de Trump, a derrota do PT nas urnas, o fato das ocupações serem politicamente inócuas ou simplesmente o fato das rochas estarem vivas.

O doodle feito para homenagear o Solstício de Verão de 2016 foi para mim um belo insight que representa muito bem o ano de 2016. É preciso ser inteligente para saber quando agir rápido é mais sensato do que pensar demoradamente, mas quando se trata de eleição (um evento que demora anos para acontecer) o melhor é refletir sobre os prós e contras de cada candidato, ver a proposta de cada um e quais promessas são impossíveis de serem realizadas. Então, a partir deste ano de 2017 espero que sejas um esquilo que antes de comer o morango olhe para o local em que se encontra e preste atenção nos detalhes, pois estes podem lhe ajudar muito na tomada de decisões importantes.

Texto escrito por Mário Pereira Gomes

Bibliografia:

“A esquerda abriu espaço e legitimou os evangélicos na política”. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/31/politica/1477940246_927730.html

Devido a ocupações, 191 mil estudantes farão o Enem em 3 e 4 de dezembro. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2016/11/1828431-devido-a-ocupacoes-191-mil-estudantes-farao-o-enem-em-3-e-4-de-dezembro.shtml

Donald Trump: conheça sua trajetória e suas propostas. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/donald-trump-conheca-sua-trajetoria-e-suas-propostas.html

Em livro, Crivella ataca religiões e homossexualidade: ‘terrível mal’. Disponível em: http://oglobo.globo.com/brasil/em-livro-crivella-ataca-religioes-homossexualidade-terrivel-mal-20296731

Hillary Clinton: conheça sua trajetória e suas propostas. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/hillary-clinton-conheca-sua-trajetoria-e-suas-propostas.html

Manifestantes fazem protestos no país contra a PEC dos gastos. Disponível em: http://g1.globo.com/economia/noticia/manifestantes-fazem-protestos-no-pais-contra-a-pec-dos-gastos.ghtml

O algoritmo da política mudou. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/12/04/opinion/1480858759_359019.html

Renan diz que as manifestações são legítimas. Disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/renan-calheiros-diz-que-manifestacoes-sao-legitimas.ghtml

Revista publica fotos da prisão de Crivella há 26 anos no Rio; ele nega. Disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/noticia/2016/10/revista-publica-fotos-que-seriam-da-prisao-de-crivella-ha-26-anos-ele-nega.html

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