SOBRE OS EFEITOS E A LEGITIMIDADE DA MANIPULAÇÃO EM MASSA DE DADOS DE NAVEGAÇÃO
A interação social na internet faz parte da realidade de milhares de pessoas que, numa base diária, acessam sites, redes sociais, aplicativos e portais, e lá passam várias horas acompanhando seus feeds enquanto reagem e se posicionam em relação aos conteúdos que circulam por lá e toda essa atividade intensa gera muito mais do que likes e compartilhamentos, mesmo que nem todo mundo saiba disso.
Todos os passos e interações das pessoas navegando em ambientes online são rastreados — com ou sem o consentimento destes usuários, e a captura desses dados pode ser o motivo deles tomarem algumas de suas decisões, como o que comprar e a quem apoiar em uma disputa polarizada. Tais dados são cruzados, torcidos e manipulados em quantidades extraordinárias em busca de padrões de comportamento, preferencias, e personas. Um simples usuário em meio a todo esse caos orquestrado, é então clusterizado, ou alocado, junto a outras pessoas similares a ele. Não trata-se mais de uma mera segmentação geo ou demográfica, e sim algo muito mais profundo e que foge à percepção humana. Este é o Big Data.
Em meio à tudo isso, um ponto cada vez mais abordado e discutido é o dos limites éticos que existem, se é que existem, e o que pode ser considerado uma quebra da privacidade do individuo. Segundo Sara Downey, advogada conselheira da Abine citada por Alexandre Rodrigues e Priscilla Santos em um artigo da revista Galileu, “a falta de privacidade online é um grande problema, e só tende a piorar”. É comum encontrar serviços que são, teoricamente, gratuitos na internet, que em troca de algo, por menor que seja, querem acesso total e indiscriminado dos seus dados de navegação, históricos, lista de contatos, fotos, e muito mais.

As discussões giram principalmente em torno de o que é certo e errado e há uma linha tênue entre legalidade e moralidade e discute-se sobre o mal que algumas pessoas podem sofrer por conta deste tipo de estratégia agressiva. De um lado, empresários e cientistas de dados defendem que suas atividades são legais, e que os usuários concordaram em ceder seus dados, seja direta ou indiretamente. Do outro, ativistas, e a sociedade como um todo, se sentem invadidos e desrespeitados.
Enquanto uma solução não é encontrada o debate se estende e os usuários ficam nessa zona cinza. Cabe às pessoas usarem do bom senso e se manterem em uma zona segura. Tomando algumas medidas de segurança básicas, como ler os termos de contrato e navegar no modo anônimo já é possível se preservar, ao menos um pouco.