Poderes sob controle

E há esse poder, muitíssimo disfarçado, de ditar o que somos por meio das classificações subalternas ou dos rótulos variados da desinteligência. Seria até muito feliz se esse processo classificatório fosse exclusivo dos grupos opressores, das instâncias de poder constituído — porque teríamos o alvo claro, a fonte da vontade de combate. Mas é que ele converte-se também como parte dos poderes em construção, dos contrapoderes que se querem emancipatórios; espécie de mecanismo cambiante da contradição, que antecipa os opositores, os bloqueios à hegemonia em andamento, e os tenta pôr em subterrâneo, tirando deles o potencial de inteligência, o recurso à análise.

E é assim, sob o rastejar das intelectualidades dominantes dentro dos dominados, que projetos de re-poder se convertem em novas hierarquias de palavra — que determinam os projetos válidos, os projetos importantes -, tudo em nome da “união de forças sociais”. É o aceite da atribulação “inescapável” dos dissidentes, das identidades dissonantes da pauta colada, dos de pouca voz ou daqueles cuja voz foi transformada em ridículo; são os sacrifícios permitidos. É um ciclo? Estamos condenados à naturalização desse processo, como substituto das naturalizações usuais que dizem que a desigualdade é parte do jogo? O escrutínio dos contra-projetos, das reflexões e dos recortes que fogem ao sumário estabelecido pelos dominantes entre os dominados constitui o maquinário inquestionável deste despojo de lugar para os que não querem simplesmente a órbita?

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