lá fora está chovendo

Um dia ela me disse que eu poderia ouvir estrelas. Perdeu o senso, decerto. Disse que eu poderia ouvir estrelas até de olhos abertos, como quando nasci, com a alma sedenta pelo mundo. Conversamos toda noite, mas não havia via láctea disposta a falar.

Lá fora choveu, teve uma tempestade de areia que cobriu várias moradas, a neve chegou, construímos iglus solitários que não aqueciam e depois de todo o gelo derreter nos afogamos pois nossos barcos foram construídos com pregos meio soltos.

Continuamos vivos, apesar das queimaduras! Está tudo bem, eu só fiquei mais longe. Tentei cozinhar, fiz uma sopa quentinha com batatas e cenouras. Abri a geladeira e entendi que organizar os ingredientes antes de começar faz mais sentido, fica menos sujo, fica mais bonito.

Limpei o quarto, tinha tanto pó! Aqui passa bastante ônibus, sabe, não é como aí. Depois do pano no chão, entendi que organizar os sapatos em caixas também é bom. É como uma loja onde você bate o olho e sabe onde está. É como um arquivo na memória que te mostra qual você precisa limpar porque usou no casamento da Maria e está cheio de grudes.

Paguei a conta do aluguel e entendi, nessa onda de entendimentos, que as pastas são muito boas. Cada uma com um nome: documentos do carro, documentos do apto, documentos de trabalho, documentos da vida. Fica tudo ali, certinho. Tem o passaporte e a foto de quando eu tinha 5 anos e queria tocar piano. Tem até o boletim do inglês com notas medianas (que deram muito trabalho para serem medianas), aquele que eu não gostava mas ela me fazia ir.

Conversei sobre como organizar os outros cômodos e tirei umas camisas perdidas pela sala que o Valdir precisa passar. Lembrei que é preciso ter muita paciência para viver em companhia, falar bastante e ouvir ainda mais. E respirar. Sempre respirar, de preferência com o abdômen, ajuda mais para acalmar. Ajuda a falar em público. Ajuda a cantar, quase sempre no chuveiro. Menos agora porque estou rouca e nem no chuveiro dá para aguentar, mas isso não importa muito. Entendi porque ela me disse isso um dia, mas nem precisava dizer: a companhia dela já dura quase 30 anos. É uma apostila sobre paciência que vive.

Sempre quis saber como ela sabia que as estrelas podiam falar. Será que já foi até elas? Ou elas vieram até aqui? Nem céu limpo a gente tem, nem enxergo quantas existem. Mas eu ouvi. Antes de dormir, no limiar do olho que abre querendo fechar, na fresta que fica entre a pálpebra, eu ouvi. Amei para entender e fui capaz de amar. As estrelas e ela, ainda mais que antes. Amei porque ela, que é uma estrela por si só, cintilante nos olhos cor de mar, disse que eu só precisava acreditar, em mim mais do que em qualquer outra coisa.

Eu, que para ela sempre fui o Galileu do livro de capa dura, cheio de estrelas no olhar e diferente das outras crianças em toda a Itália, ouvi que a maior estrela do céu está na geladeira, na caixa de sapato, nas pastas de documento, na mesa do trabalho, na camisa passada, no chão limpo e no chão sujo, na água de garrafa, no suco orgânico de tangerina e no filme do domingo à noite.

Lá fora está chovendo, a água cai com o cheiro dela, é bom. O perfume que aconchega da chuva, que molha e hidrata, é como pele de bebê. Macia. Até a chuva brilha, acho que de felicidade por amar ter ouvido. Acho que de amor, por simplesmente amar ainda mais.

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