Lolita: para você que foi abusada

Ontem eu conheci uma menina que me fez querer escrever sobre o pior assunto que eu poderia querer escrever. E isso é bom.

O nome dela é Lolita. Você já deve ter ouvido esse nome no romance de Vladimir Nabokov (1955), nos filmes de Stanley Kubrick (1962) e Adrian Lyne (1997) e possivelmente em inúmeras adaptações para os palcos como óperas, balés e musicais.

No romance original de Nabokov, a história é narrada por Humbert Humbert, um homem de meia idade que aluga um quarto na casa de Charlotte e Dolores Haze, de 12 anos. Após casar-se com Charlotte e ela morrer, Humbert e Dolores passam a viver como pai e enteada. No entanto, ele descreve em seu diário uma obsessão por Dolores, quem passa a chamar de Lolita e com quem mantém uma relação conturbada por 2 anos.

Fazendo uma pesquisa rápida pelo google em busca de análises da obra, encontro: “Polêmico, irônico, tocante, a obra narra o amor obsessivo de Humbert Humbert, um cínico intelectual de meia-idade, por Dolores Haze, Lolita, 12 anos, uma ninfeta que inflama suas loucuras e seus desejos mais agudos.”

Mas a Lolita que eu conheci ontem, você talvez não conheça ainda. Ela não é a Lolita-ninfeta-sensual-provocadora representada no romance original e nas adaptações em todo o mundo. Quem eu conheci é a Lolita-criança de 12 anos-estuprada-fetichizada-vítima de um pedófilo em uma relação abusiva. E isso muda MUITA coisa.

Essa nova Lolita estava na peça de teatro de mesmo nome, escrita e dirigida por Heloísa Cardoso, do Grupo Sensório-Cena. O objetivo do grupo é problematizar as inúmeras representações fetichizadas, que dão muito mais importância para os sentimentos do padrasto do que para a questão do abuso e da violência que Lolita sofre. Depois de 70 minutos de uma atuação foda (Cris Lozano como Charlotte, Gabriela Barretto como Lolita e Laerte Mello como Humbert) lágrimas e angústia, devo dizer que o grupo conseguiu realizar essa proposta com excelência e muitos socos no estômago do público, que ora e outra sai passando mal.

Cartaz da peça Lolita

Por que um grupo composto apenas por mulheres (exceto o ator que interpreta Humbert Humbert) dedicou-se a produzir uma releitura de um clássico tão pouco questionado? Por que tantas mulheres saíram chorando aos soluços dessa experiência? Por que esse assunto e abordagem me tocaram tanto a ponto deu dedicar horas do meu dia para escrever um texto?

Posso responder por mim: eu vi mulheres corajosas envolvidas com esse projeto botando o tabu na mesa. Eu vi mulheres corajosas na plateia. Eu vejo mulheres corajosas no mundo. Eu me vejo, só agora, como uma mulher corajosa, lidando com traumas que não escolhi e com memórias que não queria ter. Todas nós mulheres vivemos todos os dias de nossas vidas com conflitos que são impostos a nós porque simplesmente somos o que somos. Mulheres.

Eu escuto muitos homens e mulheres dizendo que a violência e o abuso sexual contra mulheres não acontece perto: É sempre “lá”, nunca “aqui”. Infelizmente, eu te garanto: VOCÊ CONHECE UMA VÍTIMA. Ela pode trabalhar com você, ser sua amiga, prima, irmã, filha, colega, amiga de amiga… Mas você conhece. Você só não sabe porque a gente não sai por aí dizendo “Olha, galera, há 2 anos um cara x me estuprou.” É imensamente dolorido admitir que você é parte de uma estatística que diz que uma mulher é violentada a cada 11 minutos no Brasil.

POR FIM!

Primeira conclusão: Cara, o mundo é muito escroto.

Segunda conclusão: PORÉM nesse mundo escroto tem uma peça que me mudou e me deu muito mais coragem para viver. Nesse mundo também tem plataformas que me permitem conversar com você, que está lendo aí, e eu nem conheço. Nesse mundo a gente compartilha experiências, se abraça e se ajuda. Para você, que já foi abusada, eu queria dar um abraço bem apertado e dizer bem baixinho: “Vai ficar tudo bem, você é mais forte do que imagina.”

Terceira conclusão, que é mais um monte de dica: Se você puder assistir à essa peça, vá. Se você puder ler o livro, leia. E se você puder compreender esse problema social, cultural e de gênero, tenha empatia. A gente precisa dela.