mousse de chocolate

Perto de onde eu trabalho tem um mousse de chocolate com três camadas: chocolate amargo — chocolate branco — chocolate ao leite. É um potinho pequeno que custa sete reais. Eu sei, um absurdo, mas ele é o melhor mousse de chocolate do meu mundo. Como ele por camadas e cada camada basta por si só, embora sempre coma uma esperando a próxima, sentindo o sabor que está na minha boca de fato e o sabor que ainda não está na boca, mas que eu já conheço e sei como será. Então elas se misturam sem misturar, compreende? Eu como assim, mas a Natália não. Ela come todas as camadas juntas, enfiando a colher até o fundo, pegando as três. As camadas se misturam na boca dela e na minha, do mesmo jeito, só que um pouco diferente.

Já que me perco, tenho que parar várias vezes no posto de gasolina para perguntar o caminho. Tem o waze, tem o google, tem tudo, mas eu me perco mesmo assim e de um jeito bem tonto ainda duvido do aplicativo. É que uma vez ele me levou para uma estrada de terra perto da Cidade Tiradentes, em plena noite. Acho que o waze me traiu. O posto de gasolina sim é alguém bom. Aliás, eu acho que deveriam transformar o posto de gasolina em um radar global que guia o mundo todo. Se bem que nesse caso eu não teria que perguntar e é bem aí aonde quero chegar.

O jeito como uma pergunta é feita diz muito sobre a pessoa que está perguntando. Nas minhas tão comuns paradas nos postos de gasolina, vem o moço de boné indicando onde parar para abastecer. Eu nunca quero abastecer e de vez em quando eles ficam bravos, mas eu só quero perguntar. Sempre é um homem, aliás, nunca é uma mulher, isso me incomoda bastante porque eu pressuponho que mulheres serão mais simpáticas e provavelmente não vão olhar pelo vidro semi aberto procurando pelas minhas pernas que estão cobertas por vestidos ou saias, o que torna tudo mais constrangedor. Constrangedor é o olhar, não o pano.

Voltemos às perguntas: contextualizo as perguntas. Quero ir para Santo André, via Anchieta. Não pergunto simplesmente como pego a Anchieta, explico que meus pais moram em Santo André e por isso preciso pegar a Anchieta tão cedo para chegar a tempo de almoçar. Então o moço de boné não pode me mostrar o caminho errado porque eu acredito que ele ficará sensibilizado com o risoto de açafrão que meu pai fez com tanto sacrifício. Há dois meses ele não sabia a diferença entre cebolinha e manjericão!

O Valdir não pergunta assim, ele é muito mais direto. Ele não contextualiza e as pessoas entendem do mesmo jeito: Onde fica a Anchieta? Obrigado. Tudo tem a sua graça, mas convenhamos que isso tem menos graça do que uma história contada sem querer. Não estou ali para contar nada, mas a história sai e por isso mesmo ela fica mais interessante. Imagina quantas possibilidades podem surgir de um risoto quentinho coberto de queijo? Vai que eu descubra uma receita melhor ainda e esse vire o prato da família pelos próximos cem anos? Quantas gerações são isso? Se Valdir ainda não estivesse dividindo tantos vasos comigo, a pessoa que me responde de forma tão simpática poderia ser meu namorado. Poderia ser o amor da minha vida por causa da grande rua que leva à praia. Suco de tangerina. Pergunte se tem suco de tangerina e as pessoas vão se conhecer melhor do que eu e meu mousse de chocolate.

Na parede da sala tem dois quadros, alguns meninos jogando bola de branco e preto tirados das praias do Rio de Janeiro. O sol em contraste, a silhueta em destaque, aquele tipo de foto que vai ficar bonita mesmo se a intenção é não ficar. E porque diachos alguém teria a intenção de não ficar, eu não sei. Em companhia desses quadros, em cima da mesa, tem outra foto: um menino de algum lugar que dizem ser bem pobre com uma camisa branca e azul. Seria comum se a camisa não fosse feita com sacolinha plástica de supermercado e se o nome do Messi não estivesse escrito atrás. Seria, mas não é e parece que toda a gente já viu a foto. Até o Messi viu e foi lá no lugar distante tirar foto com o menino. Isso me contaram, não fui lá não. O que me deixou realmente intrigada foi o jeito que ele descreveu a foto: o menino foi ao supermercado, pegou a sacolinha, transformou em camiseta de futebol, depois pegou uma tinta branca e pintou o nome do Messi. E se não foi ele, foi a mãe dele? Ou ele não tem mãe e ele roubou a camiseta-sacola que o amiguinho fez? E se o Messi deu pra ele para fingir que é amado em todo o mundo e foi lá no lugar distante para parecer mais legal do que realmente é?

É só uma foto, mas também são várias ações imaginadas por quem não viveu o momento do clique. Então a foto pode ser um dicionário de verbos e cada pessoa na face da terra acha que são tipos de verbos diferentes. Muda contar a história se essa camiseta-sacola já existe há 15 anos e o menino achou na caixa da casa dele? Talvez ele nem tenha casa porque me falaram que esse lugar é tão tão pobre.

O Carter se matou depois de fazer a foto com a criança e o urubu. Está no livro que ele vai ler, em cima da mesa. Será que a história da foto fica depois da foto ser tirada? A morte do Carter faz parte da foto, é como se uma legenda estivesse ali para sempre, não dá para apagar mais. A história da criança com fome e ossinhos magros também está ali bem antes do Carter ir para a África com seus amigos acompanhar a guerra. Palavras podem ser fotos também? Se forem, tudo que escrevo são microcosmos de uma fotografia que diz sobre mim, sobre o computador do andar vazio e sobre como as pessoas tiram selfies sem querer até na maneira como devoram o mousse de três chocolates.

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