Futon

Perdi a conta de quantas flores te dediquei. Via uma na rua e queria dar pra ti, queria enfeitar sua cabeleira toda de girassol. Conta nunca soube fazer mesmo, muito menos achar caminho. Não sei há quantos dias te conheço, esqueci as datas que já tivemos e rejeitei mais essa, tão cheia de aritmética que não faria sentido.

Só me importa que do lado da janela as cores meio turquesa meio laranja balançam com a fumaça do forno a lenha. E que a rede faz cafuné quando não dá pra dormir, tipo de foto mesmo, aquelas bem bonitas. É uma explosão tão sossegada que explode em câmera lenta, preto e branco como Hiroshima no cinema com a atriz francesa falando o texto mais lindo que uma atriz já falou. E quantas atrizes já falaram, não sei dizer.

Só sei que um jardim inteiro foi colocado aqui, consegue ver? É tanta flor que cai no meu olho e eu choro. Você conseguiu contar quantas vezes eu chorei? Pois acho que você também é ruim de conta e fica só rindo de mim pra eu rir junto de volta, fingindo que consegue contar rapidinho o troco que a moça do metrô dá.

Foi assim que eu pensei que ficaria no mundo, atrapalhando as filas e acumulando pólen. Você, que chegou na vida tão lotada e barulhenta, trouxe tudo que eu gostaria de oferecer. Assim eu entendi que posso ser um monte de coisa ao mesmo tempo, inclusive a companheira dos vasos que ainda não foram plantados. Pega as suas coisas que a pá eu já comprei.

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