A denegação lulopetista

Foto: Pixabay/ CC0 Public Domain

Os que ainda defendem o lulopetismo estão acometidos por um sintoma chamado denegação. Recusam-se a ver a camada factual da realidade e torcem o mundo para que ele se encaixe em sua construção discursiva patafísica. Portanto, quando se analisa o interdiscurso lulopetista, há que se considerar as estratégias de defesa que ocorrem nos níveis individual e coletivo.

Fala-se de dispositivos desenvolvidos pelos sujeitos com objetivo de enfrentar o “conflito estrutural entre o desejo e os limites impostos pela realidade, no qual o psiquismo busca o prazer e evita o sofrimento” (MORAES, 2013). A recusa da percepção dos fatores negativos gera uma eufemização do sofrimento, capaz de viabilizar um estado de normalidade onde deveria prevalecer a doença. Essas defesas são vividas subjetiva e intersubjetivamente, de modo que se ideologizam e engendram formações discursivas que perpassam as conversações, âmbito em que acabam emergindo as contradições não colocadas explicitamente.

A literatura pesquisada não converge — intra ou intertextualmente — em termos da categorização das estratégias de defesa, sendo que predominam os cortes feitos por Dejours e pela teoria Freudiana, sobretudo, neste caso último, via a obra de Enriquez (MENDES, 2007 MORAES, 2013 LAPLANCHE E PONTALIS, 2010 BARUS-MICHEL, 2006). As análises que fiz consideram as duas vertentes, com subdivisão entre estratégias individuais e coletivas. Certos conteúdos das primeiras se vêm, contudo, fluindo nas segundas como interdiscurso.

Estratégias coletivas são aquelas que pressupõem concordância no âmbito dos grupos, consistindo “em opor ao sofrimento de ter que praticar ‘baixezas’ uma negação coletiva” (DEJOURS, 2008, p. 88). Há consentimentos mútuos, uma fundação do coletivo, uma conspiração, enfim, como proposto por Enriquez (1990). Dois tipos são comumente encontrados. Primeiramente, o cinismo viril, que viabiliza a persistência da violência tipicamente masculina. A virilidade em questão não é atributo exclusivo dos homens, mas diz da capacidade de se infligir sofrimento ou dor a outrem. Vemos exemplos dessa estratégia em momentos de justificativa e defesa de ações violentas por parte de grupos organizados, sejam aparatos de Estado, como no caso da polícia, ou da sociedade civil, incitados e bancados, por exemplo, por sindicatos e partidos. O cinismo viril pode ser visto em ação quando os lulopetistas — e o inverso também ocorreu — vêem a público dizer que Lula “acabou com” ou “esmagou” Moro no depoimento de 10 de maio.

Uma charge que circulou como tentativa de meme no dia seguinte ao depoimento.

Depois, com maior ocorrência, vem o discurso do realismo econômico, que permite substituir o cinismo por proposições apelativas como o senso cívico, interesses supra-individuais e responsabilidades coletivas.

As estratégias individuais são, apesar do caráter especular do sujeito, intra-subjetivas.

O recalque ocorre quando a pessoa, ainda que não negue a realidade ou aspectos dos elementos causadores do sofrimento, joga-os para escanteio, protelando alguma ação mais assertiva. Trata-se de um contra-investimento do sujeito em um determinado conteúdo, visando a retirá-lo do nível consciente (LAPLANCHE E PONTALIS, 2010). É o famoso “jogar a sujeira para debaixo do tapete”. Meus amigos lulopetistas, ao contrário daquele conjunto amorfo e heterogêneo que chamam de “outro lado”, discutirão os defeitos de seu grupo num âmbito fechado, mas não o farão no espaço público, onde a política democrática deveria acontecer.

Enriquez (1991, p.126) hipotetiza que “toda mudança social, criando uma certa realidade social, comporta um recalque de certos atos, de certa maneira de pensar, considerada incongruente ou perigosa”. Ele fala de conteúdos que podem nunca voltar ou “retornar como fragmentos ou formas estranhas”. Vejo a comunicação ruidosa nas redes sociais, por exemplo, como emergências desses epifenômenos.
 
Já a clivagem é um tipo de defesa que pressupõe recalque dos aspectos negativos de alguma situação ou objeto de interesse. Num movimento de bifurcação, esconde-se o lado ruim e a vida segue com o que se entende como positivo na relação. A clivagem é possível porque, sendo o ideal do Ego captado pela organização — no caso o partido — , ocorre o que Pagès (2008, p.160) chama de “dissolução da instância crítica”. Dizem os lulopetistas: “mas Lula ajudou os pobres”, “mas Dilma foi a primeira mulher a assumir a presidência”, e assim por diante. Disse Pagès (2008, p.160):

Reativando um antigo desejo profundamente enraizado de união entre o Ego e o ideal de onipotência e perfeição, a organização favorece uma regressão coletiva ao narcisismo primário e provoca o desaparecimento do Superego. Este não desemprenha mais seu papel, enquanto instância crítica, de ser o guardião da moral do indivíduo.

As defesas geralmente requerem torção da realidade para que se possa viabilizar os processos de racionalização necessários. Morin (2005) distingue racionalidade e racionalização como duas funções, não claramente dissociáveis, que funcionariam como ferramentas capazes de dar credibilidade à assimilação do sujeito, como observador, no processo de observação. A racionalidade seria o jogo, o diálogo incessante que articula a mente e o mundo real. Já a racionalização seria tentativa de se “prender a realidade num sistema coerente” (MORIN, 2005, p.70).
 
Um tipo frequente de racionalização é o discurso teleológico, que parte do pressuposto que tudo teria uma explicação racional, em cadeia de causas e efeitos. Buscam-se, com ele, formas de se forçar o estabelecimento de relação entre fatos e suas consequências. A teleologia mais comumente vista no mundo hipermoderno é a da necessidade de adaptação, a qualquer custo, para viabilização da sobrevivência. O interdiscurso subjacente tem a ver com ideias tais como“se dançar conforme a música”, “fazer o jogo” e “temos que seguir colocando o pão na mesa”.

A racionalidade substantiva também é invocada na construção dos teleologismos. A busca por sentido passa pela conexão do que se fala e faz com os valores pessoais, que são um importante fator de definição de escolhas, relacionados a metas desejáveis e abstratas que transcendem situações específicas (SCHWARTZ, 1992). Amigos lulopetistas escrevem, não raramente, algo como “se o PT não tivesse assumido o modus operandi da direita, não teria conseguido o poder para realizar seu projeto progressista”. Ou, em variações sobre a mesma teleologia, “sem caixa dois ninguém se elege” e “todo mundo faz”.

Contudo, para tal manipulação simbólica, devem-se antropomorfizar os objetos do afeto e do que se entende como campo restrito ao “ser do bem”. A relação estabelecida é abstrata e marcadamente discursiva. Se, por um lado, esse fato pode levar o sujeito a enfrentar certas ambiguidades — a méconnaissance levantada por Enriquez (2001) -, por outro demonstra o enorme grau de sofisticação cognitiva requerido para a confecção dos mencionados mecanismos de defesa.

Mas os processos de racionalização terão que ter, em algum tempo, seu fechamento, e o novo há de vir, seja ele o que for. A clivagem tem como limite o momento em que se torna impossível manter o recalque dos conteúdos causadores de sofrimento e que contrariam uma certa exigência pulsional (ENRIQUEZ, 1990 LAPLANCHE E PONTALIS, 2010). Enriquez (1991, p.126) elabora essa questão magistralmente em seu livro Da Horda ao Estado, em trecho com o qual fecho estas reflexões:

O recalque desaparece quando condições históricas precisas (crise, mutação, nascimento de novos movimentos sociais) criam um vazio no campo social, vazio que só pode ser preenchido pelo reaparecimento daquilo que estava escondido e que nesse momento assume a forma de um referente absoluto, constituindo-se, paradoxalmente, como guardião da novidade.

Referências

MORAES, R. D. D. Estratégias Defensivas. In: VIEIRA, F. D. O.;MENDES, A. M., et al (Ed.). Dicionário Crítico de Gestão e Psicodinâmica do Trabalho. Curitiba: Juruá, 2013.

MORIN, E. Introdução ao Pensamento Complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.

MENDES, A. M. Psicodinâmica do trabalho: teoria, método e pesquisas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.

LAPLANCHE PONTALIS. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

BARUS-MICHEL, J. ENRIQUEZ, E. LÉVY, A. Vocabulaire de Psychosociologie — Positions e références. Ramonville Saint-Agne: Érès 2006.

DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 2008.

ENRIQUEZ, E. Da Horda ao Estado — Psicanálise do Vínculo Social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

PAGÈS, M. et al. O poder das organizações. São Paulo: Atlas, 2008.

SCHWARTZ, S. H. Universals in the content and structure of values: theoretical advances and empirical tests in 20 countries. Advances in Experimental Social Psychology, v. 25, n. -, p. 1–65, 1992.

ENRIQUEZ, E. O papel do sujeito humano na dinâmica social. In: (Ed.). Psicossociologia- Análise Social e Intervenção. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

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