O que eu aprendi na Rua Laboriosa, nº 89.

Pra começar, o que é (era) a Laboriosa89?

É o endereço de um espaço aberto para livre interação, para se fazer qualquer coisa sem impedir outras pessoas de fazerem o mesmo. Ponto.

De tão simples, dá nó na cabeça. Mas e quem cuida da casa? Quem paga as contas? Quem organiza os eventos? Quem me diz o que fazer? Eram as perguntas que vinham na sequência, de quem chegava curioso pra saber o que acontecia na casa e não tinha ouvido o que queria na primeira resposta.

Pra todas essas perguntas, a mesma resposta: Você. Por trás de todas elas, uma única: Quem eu vou poder responsabilizar pela minhas frustrações? Você.

Existe uma facilidade tentadora em terceirizarmos nossos problemas para indivíduos ou instituições, jogando nas costas de outros a culpa pelo que não deu certo para nós, pelo que não conseguimos fazer, pelo lixo que criamos, pelas dificuldades no caminho e todo o resto.

Compartilho deste sentimento porque foi justamente buscando o contrário que cheguei até lá. Buscava ser mais autônoma e livre. Queria responder mais pelos meus sucessos, fracassos e escolhas. Pela minha vida.

Por isso, acredito que o que pode ser dito de mais verdadeiro sobre a experiência da Laboriosa89 será sempre sobre o que ela foi pra cada um de nós e nada além disso. Pra mim, é impossível descrever de forma total ou que inclua todos os aprendizados individuais, uma experiência que é sobre criar a sua própria percepção e vivência de mundo.

Nessa linha de pensamento, decidi registrar os aprendizados que ficaram marcados em mim. Aproveitei para tirar alguns minutos para lembrar de momentos vividos e celebrar a importância disso tudo na minha vida.

Por lá, aprendi a importância de me conectar com quem compartilha visões de mundo comigo. Por mais malucas que elas pareçam para a maioria das pessoas, é importante encontrar quem as divida com você. Acredite, essas pessoas sempre existem.

Comecei a conhecer esse grupo de pessoas quando a iniciativa ainda se chamava Madalena80, existindo em outra casa. Eu ainda trabalhava com publicidade numa agência que ficava também na Vila Madalena, e não raro me via escapando para lá durante o dia para participar (mesmo que por poucos minutos) dos encontros que rolavam a tarde. Estava encantada.

Se existiam pessoas que estavam falando sobre o que realmente importava para elas às 3 da tarde de uma terça-feira, queria me juntar a elas. E mais: comecei a me perguntar porque enquanto isso acontecia, eu estava preenchendo power points irrelevantes há 10 minutos dali. Ou ainda, porque tinha sensação de que era preciso escapar de algo para estar lá? A quem (ou a o que) eu estava dedicando o meu tempo que não me permitia escolher com liberdade onde e com quem eu gostaria de passar minhas tardes?

A decisão de pedir demissão veio poucos meses depois, não só motivada pelo que eu estava descobrindo, mas com certeza feita de forma muito mais confiante depois de descobrir este universo novo para mim. Só que esta não é mais uma história de como pedir demissão é a coisa mais incrível que você pode fazer por você (nem sempre é) e sim sobre coisas muito mais importantes do que isso.

A verdade é que fui indo aos pouquinhos. Colocando a pontinha do pé pra sentir a temperatura antes de me jogar. Aprendi a respeitar o tempo das coisas. E o meu tempo. Descobri que existe o tempo certo para as coisas se tornem reais. Vi ideias saírem do papel e se tornarem experiências vivas em dias. Coisas que quando a gente tenta controlar/aprovar/mandar travam e com isso bloqueiam tudo no meio do caminho. Também vi coisas que, por mais incríveis que soassem, não se tornaram reais. E tudo bem.

Experimentei comidas novas, conheci coisas que eu nem imaginavam que existiam, me relacionei com pessoas que eu já mais me relacionaria se não estivesse em um ambiente de interação livre. Realizei muitas coisas. Experimentei sonhos que se tornaram reais e não eram tão legais quanto pareciam imaginados. E isso foi ótimo, pois dei espaço pra novos sonhos e suas respectivas realizações.

Aprendi a me conectar com a minha essência. E se só é possível estar em dupla quando somos bons ímpares, me tornei ímpar. Mais segura da minha capacidade de fazer escolhas e de mim. Onde é possível fazer o que faz sentido, o que você faz te coloca frente a frente com você mesmo. Me coloquei num nível de exposição de mim que até pouco tempo eu tentava evitar. Deixei de me identificar com um cargo ou profissão e passei a ser eu mesma.

E com tanto amor por mim transbordando, não foi por acaso que encontrei um companheiro pra vida também neste momento. Aprendi muito sobre o amor verdadeiro. Sobre como é importante, pra compartilhar um caminho, estarem os dois comprometidos com os seus próprios caminhos. Sobre como a admiração, o apoio mútuo, sonhos futuros comuns e o desejo enorme de estar por perto eram as bases de para uma relação que eu verdadeiramente queria pra minha vida. E que é tudo isso (e muito mais) o que eu sinto hoje pelo Dani (ou Larusso se prefrirem). ❤

Aprendi a confiar. Em mim, nas coisas e sobretudo passei a confiar ainda mais nas pessoas. Deixei uma bike à disposição por meses na casa e ela sempre voltou no fim do dia. Com isso me senti muito mais confiante para alugar meu carro, coisa que tenho experimentado mais recentemente. Moro em um apartamento onde o acordo é muito mais de cuidado mútuo e confiança do que locatário/ proprietário. Confio de que já temos o suficiente para todos e só precisamos nos abrir para interagir para teremos nossas necessidades satisfeitas. Isso porque nem vou falar sobre roupas aqui…

Aprendi a confiar principalmente no rumo que as coisas devem tomar. Foi assim que me dei conta de que o eu me propus a experimentar naquela casa, na Rua Laboriosa, nº 89, tinha tomado conta de toda a minha vida. Em um determinado momento eu não estava mais na casa com tanta frequência, mas esse modus operandi estava presente em tudo que eu fazia.

E agora, neste momento que muitos percebem como fim, pra mim fica a sensação de que todos esses aprendizados não se limitam ao que eu fazia naquele espaço físico e sim na minha vida como um todo. Hoje em dia enxergo em todas as casas e espaços a possibilidade de as chaves estarem na porta. Me sinto confiante para pedir a chave em alguns momentos. Identifico com mais clareza meus pares. Sei mais sobre mim e sobre meus sonhos.

Li um texto do Ronny sobre este assunto, questionando o por que de precisarmos ter um espaço dedicado a estabelecermos nossa confiança nas relações e por que estamos tendo um custo adicional para isso. E além de questionar, propondo que a gente comece a fazer dessa a realidade de nossas vidas. Concordo totalmente.

É uma pena que não tenhamos mais o espaço especificamente da Rua Laboriosa nº 89 para praticar isso? Sim e não. Confio na decisão particular do Fabio Novo de não disponibilizar mais o espaço que lhe pertence para a ocupação como estava acontecendo e agradeço imensamente pelo tempo que o fez. Também agradeço e muito a generosidade do Oswaldo de desobstruir isso tudo em mim, com a sua energia iniciadora.

Reconheço a importância de criarmos ambientes como o que existiu nesta casa, para facilitar para que mais pessoas aprendam tudo isso e o que mais quiserem. Mas até por isso o esforço que eu vejo que faz sentido para mim agora não é o de manter uma única estrutura física, mas incorporar o compromisso de abrir espaço para isso onde eu puder e estiver.

E este é o aprendizado que eu busco agora.