Ele Volta

Seu irmão a olha de cabeça a baixo. “Mas onde você vai dormir?” Ela para e num suspiro se cansa de pensar. Fumou escondida apenas uma hora antes de chegarem. Estava levemente fora de si. “Não sei, casa de alguma amiga. Assim vocês tem mais espaço e ninguém precisa dormir no chão frio de novo.” Destranca a porta. “Aproveitem o apê, mas por favor não destruam minha casa! Vejo vocês amanhã na Liberdade.”

Ela segue pelo canto escuro de sua rua. Shorts, cabelo atiçado, meia calça e coturno. Tudo preto e na boca o batom roxo. Chovia pouco e frio quando já virou para subir a Consolação. Poucas quadras dali estavam alguns novos amigos, uma delas a garota interessante da semana anterior. Cachaça e karaoke. Invenção dela, o Karaoke Pirigótico reunia desde os clássicos de Amor & Sexo assim como as baladas tão conhecidas de nossa adolescência. Da qual havia participado, nem sempre por completo, no início dos anos 2000. Evangélica e extremamente curiosa. Fora da norma desde pequena fingindo seguir as rédeas curtas de tanta opressão. Experimentou pouco e quando sim, engoliu mais um shot de Seco. Aos 17 anos bebia tequila de um dólar no único bar underground da cidade.

Ouvia o garoto esqueleto enquanto pensava nos sonhos de Paris. No dia anterior havia fumado e bem no meio da mesma música resolveu se sentar e escrever. Não durou cinco minutos. Pensou na pílula azul e resolveu reorganizar seu apartamento. De novo. Desta vez criou uma parede falsa, com um cabideiro e pilhas de livros ao redor. Em cima da estante uma única planta, habitada pela joaninha vermelha e branca.

Subiu por mais uma quadra, parando apenas para esconder melhor seus pertences no corpo. Havia sido assaltada antes e agora carregava tudo bem próximo de si. Três meses de São Paulo e apenas depois do segundo assalto viria a perceber que carregar uma bolsa ainda é mais seguro. Entrou, cumprimentou a poucos e pediu um copo. Cantou algo fácil, ensaiado em muitas idas aos karaokes coreanos de Los Angeles com estudantes de engenharia da UCLA e várias garrafas de Jameson. Bebeu mais. Queria muito beijá-la, mas tinha medo. Da dúvida talvez? Dançou de olhos fechados com ela. E com todos. Cantou um pouco mais, algo sobre chuva, sexo e um porão. Já não lembrava tão bem.

Bebeu um pouco mais. Olhou pra ela. Já queria tanto ir embora, assim como da última vez. A idéia de beijá-la era linda, digna de um bom filme Chileno. Aquele da igreja e morangos flamejantes. Aquele que assistiu quase tanto quanto Bonsai. Lembrou do idiota que quase estragou seu filme predileto. Queria beijá-la, mas foi embora. Pra casa dele. O dos vídeos. Fotógrafo, quietinho e ariano, seja o que isso significa. Meio stalker mais bonitinho? Depois de um ano, ela queria muito. Havia imaginado seu rosto, seu corpo e os posters de seu quarto. Quais eram suas músicas preferidas, se seria muito tímido. Não sabia muito. O encontrou na rua e seu coração batia forte, mas era de ansiedade mais que tudo. Lembrou de Richard, seu primeiro namorado.

Panamenho de passaporte e sobrenome americano. Nascido na restrita Canal Zone no final dos anos 80. Seu relacionamento com o mundo era introvertido e com sua família, bastante complicado. O dela havia sido a pouco, mas já não mais. Dançou em cima da mesa e se rebelou em plena Calle Uruguay. Tinha mais de cinco anos de inexperiência para recuperar antes de completar dezoito. Richard pouco sabia, mas estava disposto a aprender. Uma vez no carro em movimento, outra na biblioteca onde trabalhava. Era bom, mas apenas um curto gozo adolescente.

Ela cansou, mudou de país uma e outra vez. E aqui estava, ouvindo Peter Bjorn and John no iPod antigo dos tempos em que ainda amava Leo. Pensou em como seria bom ser adolescente de novo. Aos dezenove anos. Riu. Estavam no meio do beijo quando o pensamento lhe veio a cabeça e não conseguia parar de rir. “O que aconteceu?” Ele perguntou. E ela pensou o mesmo. Como que chegaram a este ponto? Estava ao seu lado no sofá, envergonhada como sempre. Se soltara aos poucos mas o não suficiente para beijá-lo assim, desse jeito. Estava em seu colo no sofá quando ele a levantou de uma vez e ela caiu. Riu mais e puxou ele pro chão. Que música seria essa? Desviou e foi procurar o celular. Ele não deixou.

Foram pra cama quase que de imediato e logo descobriu que de quieto ele não tinha nada. Era um pouco envergonhado sim. Carinhoso, a surpreendeu em alguns momentos. Os brasileiros eram mesmo bons. Estava a quase um ano sem sexo, mas pouco antes da seca começou a praticar pompoarismo. Gozou pela primeira vez desde muito antes do último carnaval. Por tempos inclusive pensou que poderia ser assexuada, pelo menos em algum nível. Estava pesquisando demais por conta de seu primo, mas logo a idéia lhe fugiu da cabeça. Ainda não sabia porque tinha tanto medo. Observaram mais um passarinho juntos e dormiu em seus braços.

Acordou perdida nas horas. “São 9:15, um pouco cedo. Não quer dormir mais?” “Não” respondeu de cara fechada. Ele abraçou sua lateral e ela não pode resistir. Afinal, já fazia um ano. Estava bem agora mas não em posição de rejeitar um pouco mais. Ele haviam conversado por meses mas se conheciam a pouco, e ela gostava dele apesar de tudo. Ouviu a chuva cair e com ela vieram mais algumas horas na cama. Quando já finalmente se levantou, o sol havia saído e seu irmão já estava na Liberdade. Assim como duas amigas que não via há anos, tinha que ir. Aumentou o som. “Acho que a mesa fica” disse pra si mesma assim que abriu a porta de casa. Estava uma bagunça mas ela nem se importou, afinal a noite tinha sido diferente.

Ele havia oferecido um café mas o que ela queria mesmo era um bolinho cremoso de camarão. Saco, se esqueceu que agora era vegetariana. Pensou nas várias vezes em que ele disse que era doce, e desistiu do camarão. Saiu da estação e subiu a escadaria baixo a chuva fina. Encontrou seu irmão e os amigos, tomou um chá e passou alguns momentos convencendo uma senhorinha japonesa de lhe fazer um bolinho sem carne.

Se despediu dele primeiro, e depois dos amigos de seu irmão. Pouco se viram desta vez, mas o abraçou com muito mais força que antes. Era difícil estar longe, mas ao mesmo tempo tão fácil. Pensou na conversa que teve alguns meses antes com sua mãe. “Vou escrever mais, prometo.” Se despediu e desceu a rua. Comprava cogumelos no mercado da esquina quando ele lhe escreveu. “Está em casa? Quero te ver de novo.” Ela riu, já não precisava mais tanto mas não estava em posição de rejeitar um pouco mais.