Hoje eu passei por uma experiência de quase-morte. E o que eu aprendi com ela? Nada.

Nenhum daqueles clichês veio à minha mente, eu não vi minha vida inteira passar diante dos meus olhos como imaginava e não pensei na minha família enquanto o carro freava e ao mesmo tempo continuava correndo em direção ao ônibus sem fim.

Na realidade, pensei em como o céu é infinito, em como aquela estrela, a mesma que vinha me acompanhando na longa viagem desde São Paulo, estava brilhante naquela noite em especial, e também em todos os dilemas e segredos dos quais não tive tempo e oportunidade de descobrir. Pensei nas maritacas e corujas que ficam piando do lado de casa nos fins de semana, e em todos os animais que eu deixaria de ajudar morrendo naquela noite ao invés de viver até os oitenta anos.

E sobre sentir falta. É possível sentir falta de si mesmo ao morrer? Ou você já está tão acostumado à sua presença incessante que já não pensa mais nisso de fato? De qualquer modo, imagino que sentiria falta de uma porção de coisas.

Nada nos prepara para a perda. Por mais que ouçamos falar sobre isso diariamente, quando enfrentamos a morte de alguém, principalmente a de um ente querido, é que percebemos a verdadeira incógnita que ela significa e o nó que provoca em nossa mente.

Tempo e eternidade, duas concepções paradoxais: de que vale viver muito se não se vive bem? As pessoas passam seus dias na expectativa de que algo faça sentido. Vivem para deixar sua marca no mundo de alguma forma, e para que sua história e feitos sejam lembrados por aqueles que permanecem na Terra

E afinal, o que eu realmente acho da morte?

Creio que chegará o dia em que o homem, na frente do túmulo de alguém que partiu, sorrirá exultante, e apesar da perda recente, comemorará o fato de que seu ente querido está em um lugar bem melhor do que ele mesmo habita no momento.

E apesar da saudade e de não ter a presença física por perto, saberá que, onde quer que esteja, aquele que se foi está bem, e que um dia ambos se reencontrarão, mesmo que em sonhos.

E chegará o momento em que o mesmo homem, observando pelo vidro da maternidade o bebê que acabou de chegar à Terra, chorará constantemente, não de emoção, mas de tristeza e pesar, por colocar uma criatura tão frágil e ingênua em um mundo excessivamente injusto e cruel. E assim a morte será mais valorizada do que a nova vida que se aproxima.

E então, naquele momento em que tudo isso se passava pela minha mente, um novo pensamento me atingiu: é uma linda noite para se morrer. E talvez tenha sido isso que tenha me impulsionado a pisar no freio até o fim, fazendo com que o carro fosse parando aos poucos, momentos antes de atingir o ônibus incessante, aquele mesmo que me levaria em direção à morte certeira.

Como diz Woody Alen, “não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora em que isso acontecer.”