A cegueira do poder

Quando nos dias atuais levantamos o tema sobre poder logo associamos com a crise política que estamos vivenciando no Brasil. Claro que faz muito sentido falarmos sobre a busca incessante dos políticos em comandarem a vida de muitos a fim de exclusivamente se beneficiarem . Porém, peço a licença para trazermos esse tema para as nossas vidas: "Como a sensação de termos mais poder que os outros pode nos cegar em nossas relações amorosas, no trabalho, com os filhos e no dia a dia?"

O poder está intimamente ligado ao controle. Quando me sinto acima de alguém, acredito que só o que eu falo e faço é o certo, e assim, exijo que essa pessoa siga o meu modelo. Com um parceiro de vida isso se evidencia quando há um desejo de que o outro fique apenas na redoma do lar: sem sair com os amigos, sem se destacar demais no trabalho (isso quando trabalhar "é permitido") e sem poder se apropriar de sua individualidade. Tudo tem que ser contido. Para que nada saia do domínio.

Já no trabalho sabe aquela ideia de que estagiário só serve para tirar xerox? Você que está lendo esse texto, acredita mesmo que um subordinado precisa baixar a cabeça e apenas obedecer? Que tipo de relação estamos criando em nossas empresas e parcerias? A opressão, o medo e a falta de reconhecimento só deixam as relações mais frágeis e sem sustentação alguma. Aquele tipo de chefe que só tem consideração e é simpático com quem está acima dele é um ótimo exemplo de que o uso negativo do poder não está apenas entre os políticos, não é mesmo? Quem é você no ambiente de trabalho? Puxar o tapete, "puxar o saco", fazer de tudo para ser promovido, é esse o tal "jogo corporativo" que devemos jogar? É saudável? Até quando?

Outro aspecto danoso desse tema é com as crianças. Pais que fazem uso da autoridade para conseguirem, muitas vezes por capricho, o que querem criam filhos temerosos. "Você está aqui para me obedecer! Eu te dei tudo e sacrifiquei a minha vida por você. Faça o que eu estou mandando, você não pode fazer só o que quer." Esse é um pai ou uma mãe que dificilmente leva a vida que gostaria. Se dominar o "mais fraco" é tão importante, é porque há um vazio ou então vontades reprimidas que acabam sendo extravasadas em cima dos filhos.

E assim segue essa sede de dominar o outro no dia a dia quando vamos a um restaurante e não olhamos na cara do garçom ao fazer o pedido, quando não cumprimentamos os funcionários do prédio, quando perdemos a capacidade de escutar ativamente o outro. O pior de tudo isso: quando nem percebemos que estamos agindo dessa maneira, essas atitudes se tornam naturais para nós.

Ao se tornar normal o nosso uso do poder em todos os aspectos da vida sem notarmos, é porque estamos num estágio profundo de automatismo. Vamos nos habituando à isso para nos protegermos dos nossos incômodos, das nossas dores e das nossas frustrações. Como é desagradável quando alguém não quer fazer o que pedimos, não é? Como é sedutor nos sentirmos importantes! Como é prazeroso saber que alguém depende de nós emocionalmente, financeiramente ou intelectualmente!

Para sair do vício do sentimento de poder não há outro remédio a não ser olhar para nós mesmos e entendermos qual é a nossa necessidade reprimida. O que me leva a querer dominar, controlar e algumas vezes até humilhar quem de alguma forma se relaciona comigo? É preciso nos investigarmos! Sempre.

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