Espaço vazio

Tenho ensaiado escrever esse texto há algum tempo.

Facilitei ontem uma conversa bem interessante sobre o tema “resgate para um recomeço” em que foram discutidas as condições necessárias para nos permitirmos recomeçar: a vida, a carreira, a rotina; e resgatarmos o que tem de mais importante para cada um dos envolvidos. Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi que, para resgatar e para recomeçar é preciso ter pausas entre o antigo e o novo. Sem isso é muito difícil mudar a chave.

Lembro que quando trabalhei na Natura havia um espaço no jardim que não tinha nada plantado. A ideia era que a própria natureza se encarregasse do que iria nascer lá. Sempre me chamou a atenção. Como é importante o vazio, inclusive nos espaços físicos. Fico um pouco agoniada em casas lotadas de móveis, coisas e caixas. Será uma tentativa de preencher vazios não compreendidos? Se é isso não sei, mas desconfio que seja.

Uma anotação que eu havia feito para escrever sobre esse tema foi uma passagem do filme Tarja Branca que sempre me fascinou: a parte onde Domingos, que infelizmente faleceu, fala sobre a forma como educava os filhos. Quando eles viajavam juntos, ele os levava a lugares onde não havia nada para fazer. Sem estímulos, sem recreações. Crianças são essencialmente criativas e a partir do nada conseguem criar e imaginar as mais divertidas brincadeiras. É o famoso conceito revolucionário (sim, ainda hoje) de Domenico De Masi: o necessário ócio criativo. Para que preencher a infância com tantos brinquedos e “tios” pagos para anima-los? Dessa forma vamos nos tornando adultos que não conseguem ficar sem coisas para fazer. É preciso produzir, é valorizado o não ter tempo e estar estressado.

Um movimento atual que vai ao encontro do que Domenico propôs no ano 2.000, é o nadismo. A ideia é bem essa: não fazer nada como uma forma de reaprender a desacelerar e se conectar mais consigo mesmo. Escrevi há algumas semanas um texto aqui no Medium “Fazer, fazer e fazer” que pontuei o quanto o fazer em excesso indica uma fuga para a pessoa não entrar em contato com suas questões, medos e dúvidas preenchendo sua vida com atividades.

Todos esses princípios: espaços vazios, ócio criativo e nadismo são fundamentais para uma sociedade mais viva, pulsante e sadia. Tem gente que ainda considera tudo isso uma loucura, mas não ter tempo para o que mais importa é normal? Como bem disse Mozart: “a música não está nas notas, mas no silêncio entre elas”. É preciso pausas para sustentar o silêncio. Vale para a música, vale para a vida.

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