“Desafio da mulher que se ama.”

“Desafio da mulher que se ama.” É, foi o que bombou nas redes sociais essa semana. Será real? Do nada milhares de mulheres passaram a se amar? Ou somente seguem uma corrente de postagens, em que a “foto que me acha linda”, na realidade, traduz-se em “estou postando porque desafiaram-me”, e até mesmo “não me amo tanto quanto minha postagem diz”? O desafio mascara um enorme problema vivenciado por todas nós: a auto-aceitação.

Certo dia, em uma dinâmica, disseram-me: “escreva o seu maior sonho”, e eu escrevi. Perguntei ao líder: “e se meu sonho for impossível”, respondeu-me, pois, “escreva”. Em meu papel dobrado coloquei o que me passava pela cabeça durante um tempo indeterminado: “ser bonita”. Se a dinâmica prosseguisse em um “escreva os meios de realizar”, já era fato que deixaria papéis em branco. Não sabia por onde começar e minha única certeza era/é que se existisse algum Deus que me criou, ele me odeia(e muito!) Os meus porquês eram a corda para o meu enforcamento. “Por que me fizeste assim?”

Eu realmente batalharia em busca de qualquer meio que me direcionasse a essa resposta que não fosse alguma passagem religiosa. Descobri algo chamado "genética". E, bom, caro Mendel, agradeço por esclarecer.

Cara mulher, sei que por trás desse seu sorriso nas tais cinco fotos esconde um poço de insatisfações enorme. Afinal, todos os dias um padrão nos é relembrado. Ou melhor, uma marca utiliza de nossa baixa-estima para obter lucro, vender seus produtos. Ou até mesmo, a blogueira jogar na sua cara o corpão MARKETING que ela tem. Além do mais, vivemos no Brasil. Brasil é o que eu defino de “país da cultura da bunda”.

Nada disso é novidade. E eu começar com frases clichês dizendo que você é linda, estarei sendo hipócrita. Afinal, eu não levo comigo as minhas publicações de empoderamento feminino referente a estética. Sim, pode me chamar de falsa. Cara leitora, sei que independente do que eu leia, acredite ou veja, absolutamente nada mudará o conceito que eu construí sobre minha própria figura. E muito menos impedirão que eu me olhe no espelho ao acordar e me odeie, me olhe novamente à tarde e me odeie, e quando chega a noite, olhe-me novamente e posso chorar à vontade, pois sei que não tenho "cura".
Em meio a questionamentos irrespondíveis e inesclarecíveis, pude concluir que a única saída seria a minha auto-aceitação. E não, eu não sei como fazer isso. Não sei não ficar abalada quando dizem que para ser bonita é necessário ser loira, branca, dos olhos claros, ter cintura fina, barriga retinha, seios fartos, nariz fininho, e etc. Definitivamente ser uma européia. E, bom, eu não sou. Mendel pôde me esclarecer isso. Chama-se genética.

Sim, as coisas mudaram. Os ideais de beleza mudaram. Mas agora há o conceito da "preta de verdade". E eu estou fora dele. Afinal, para enquadrar-me, meu cabelo precisava ser mais crespo, mais armado (o que é meu sonho). Sei que não posso me mudar, e tenho que ouvir de fulaninho: "você é bem mais ou menos". Minha única resposta é abaixar a cabeça e aceitar.

Desde pequenas fomos ensinadas que o mundo feminino é formado por competições. Estamos em um concurso em que a mais bonita é eleita pelo príncipe. E, assim, foi colocado na nossa cabeça que temos que passar na frente das "oponentes" para conseguir o tal príncipe. O que jamais foi ensinado para os meninos. Ou seja, passar por frustrações quando um garoto não te quer é muito mais doído do que quando uma garota não quer um menino. Afinal, eles geralmente aceitam numa boa. Quando vamos em uma festa e recebemos um “não” na hora de um flerte, a primeira pergunta que nos vem a mente é: “O que tem de errado comigo?” “Eu sou tão feia assim?”. Esquecemos que talvez o outro só não estava afim mesmo. Aprendemos que a culpa é nossa. E, se não nos querem, a culpa é da aparência.

Mas a questão aqui é auto-estima, auto-aceitação. Em meio a essa moda de fotos com legenda “Somos lindas e fortes independentes do que acham de nós”, há o encobrimento de inúmeros problemas. Que, com toda a certeza, inúmeras pessoas intitulam-no “frescura”. Caro amigo, se fosse frescura, não existiria doenças como anorexia, bulimia e depressão. Todos os dias o número só aumenta. Quem sabe por trás de um “eu tô gorda” que sua colega de serviço diz, há um apelo dizendo “eu tenho bulimia, ajude-me antes que seja tarde”. Por trás do seu sorriso nas fotos e a legenda empoderadora, sei, como ninguém, que há uma mulher frágil, que ao se olhar no espelho nunca encontra aquilo que deseja ver; e, assim, desaba-se em choros longos.

Não, não sou contra o desafio do Facebook. Só quero dizer, com esse texto, que eu sei que nada é tão belo e feliz como nas fotos. Sei muito bem. Moça, você é linda. E não há padrão nenhum que dite a você regras que tem que ser cumpridas para você se tornar “desejável” para um homem. Sim, estou sendo hipócrita. Sim, estou sendo clichê. Sei que daqui há algumas horas deitarei na cama e chorarei em busca de respostas de porque nasci/sou assim. Sei também que todos os dias da semana não vou me amar, e isso é em prazo indeterminado. E se achas isso frescura da minha parte, tudo bem; sua opinião não interfere em nada. Mas, mesmo assim, através desse texto busco fazer um apelo para as mulheres que o lerem: amem seus corpos, amem seus defeitos, amem seus cabelos, se amem. Se amem porque se vocês não se amarem, ninguém irá amar. Se amem por mim. Se eu não consigo me amar, espero que você se ame. Quero que você se ame. Eu não sei quem você é, de onde você é, como você é; mas eu sei que você é muito linda, porque não existe um padrão de beleza que defina como uma mulher tem que ser.

Tornar essa minha dificuldade algo público é difícil. É escancarar o que sinto todos os dias. É mostrar o elefante que carrego em minhas costas todos os dias e ninguém percebe; e se percebe é uma simples “frescura”.

Voltando à dinâmica do início do texto::: ainda não obtive respostas de como realizar esse sonho, e uma das minhas certezas é que jamais descobrirei até “realizá-lo”. Aquele papel em que escrevi foi para o lixo. Mas meu “sonho” ainda insiste em fazer-me lembrar-se dele todas as vezes que acordo e todas as vezes que me deito. E isso continuará acontecendo por prazo indeterminado. Meu texto não tem um fim, porque tudo isso em minha vida, por enquanto (espero), não teve.