A Arte na Política e a Política da Arte
A arte, ao longo de sua história, se mostrou, muitas vezes, um meio de expressão de opiniões políticas e lutas por valores sociais para os artistas. Um exemplo disso são as vanguardas, como o Tropicalismo, por exemplo, que utilizam da expressão artística como vazão para suas manifestações e protestos. O que não muito frequentemente acontece é o contrário: um artista frustrado encontrar na política uma forma de se manifestar artisticamente. Aconteceu com Adolf Hitler. E é sobre o que fala A Arquitetura da Destruição.
O Hitler artista sonhava em entrar para a Academia de Artes de Viena e ser consagrado como pintor e arquiteto. Mas foi recusado. Durante muitos anos seguiu buscando o sucesso como pintor. Participou de mostras e pretendia escrever uma opera com seu amigo. Foi quando se encontrou na política e viu nela uma forma de levar sua arte ao mundo e, assim, melhorá-lo.
É a partir dessa reflexão que inicio esse ensaio. A importância da arte para o mundo e como os diferentes modos de ver as coisas podem distorcer a realidade. Começo, então, apontando um fato inegável: Hoje, é consensual que Hitler foi um assassino em massa, um dizimador de populações inteiras e o mais ambicioso dos nacionalistas europeus.
Mas será que se assistíssemos a essa história pelo lado de Hitler e dos nazistas, todos continuaríamos com essa visão dos mesmos? Não defendendo Hitler. Longe disso. Não há nada que justifique genocídio, preconceito, escravidão, infanticídio e/ou racismo. O que se propõe a partir deste texto é uma discussão acerca do poder da persuasão, do convencimento. E sobre como somos convencidos de diversas teorias e convertidos a todo tempo, a ponto de não aceitarmos a visão do outro como verdade também.
O Nazismo proposto por Hitler tinha como principais objetivos a criação de uma Nação unificada, um Estado mais controlador e unificado e uma capital esteticamente mais bela, limpa e organizada. Para concretizar esses sonhos, era necessário acabar com todos o que empatava sua realização, isso incluía cidadãos pertencentes a grupos “impuros”, como judeus, homossexuais, negros, deficientes físicos, mas principalmente mentais e todos aqueles que se postavam contra e atrapalhavam o andar dos seus planejamentos políticos, dentre os quais, artistas vanguardistas e modernos, de cuja arte Hitler achava horrível, a própria representação da imundície em que viviam aqueles que a apreciavam.
Qualquer pessoa que leia tais propostas, em sã consciência, hoje, as veria como absurdas, insensatas e cruéis. Vemos apenas esta face de Hitler. Apenas o homem mau, que assassinou milhões e destruiu civilizações inteiras. Isso pode ser justificado pela teoria apresentada por Chimamanda Adichie em sua palestra para o TEDx, O Perigo de uma História Única. Segundo ela, julgamos tudo e a todos a todo o momento com base em uma história única de temos, uma única visão de todas as coisas. Assim fazemos com Adolf. Nos recusamos a ver em sua imagem o bem, o homem bom e as ideias que, para ele, justificavam toda a sua perfídia.
A grande maioria das pessoas acredita que suas ações tem efeito unicamente benigno e buscam sempre agir da forma mais benéfica possível. Há quem acredita que pena de morte seria a solução para o fim dos crimes, acredita, assim, que assinar um assassino é justo pelo simples fato de ele tê-lo feito primeiro, ou por ele ter matado algum ‘inocente’. Sempre nos preocupamos em fazer o bem, mas não pensamos que, às vezes o nosso bem causa o mal pra outro alguém, e achamos que tudo o que nos fazem de ruim, foi motivado por maldade de uma pessoa inteiramente e unicamente má. Isso ocorre por motivações de uma sociedade essencialmente maniqueísta.
O fato de termos tido acesso à história de Hitler por suas vítimas faz com que tenhamos essa visão unilateral. O que demonstra o poder da argumentação, da narração e da importância do acesso às várias facetas de uma mesma história. Hitler realmente acreditava que o que estava fazendo era certo, justo e bom. Acreditava que ele seria o salvador que estava à disposição da população para ouvir seus anseios, como pode ser observado no pronunciamento de Hans-Friedrik Blunk, Presidente da Câmara de Literatura do Reich:
. Esse governo, nascido em oposição ao racionalismo, conhece o desejo do povo e seus maiores sonhos que somente um artista pode dar forma.
A História de Hitler dá margem, ainda, para se traçar um paralelo entre suas políticas na reconstrução de Berlim durante o III Reich com a política de higienização proposta pelo Prefeito de São Paulo, João Dória, este ano. Hitler examinou as obras de arte produzidas na época e selecionou para exposição apenas aquelas que retratavam uma sociedade que se encaixasse em seus ideais tipicamente europeus, elitistas e católicos, eliminando assim todas as artes modernas, que não mais se preocupavam com a forma e nem a beleza, mas com uma arte livre e de cunho político, que, para ele, não categorizava arte e interferiam na estética por ele prezada. Adolf, ainda, condenou à morte, diversos deficientes físicos e mentais, as crianças assim nascidas e os já crescidos também, pelo simples fato de o serem, e, assim, interferirem na existência do seu Estado Novo, limpo e perfeito sob os seus modos.
O que o prefeito Dória fez foi, pelos mesmos motivos estéticos e higiênicos de Hitler, apagar todos os grafites, arte contemporânea e por vezes incompreendida, espalhados pelos muros da cidade de São Paulo, arte tal que não só a embelezava e tornavam-na única, como serviam como forma de protesto e manifestações por direitos sociais, políticos e econômicos, e pintar os muros de cinza. Além de ter destruído a alocação de diversos usuários de crack (entre outras drogas), a chamada Cracolândia, e dividi-la, espalhando os usuários por toda a cidade, João propôs, ainda, a internação compulsória dessas vítimas das drogas, marginalizadas e tidas, muitas vezes como delinquentes e criminosos invisíveis à sociedade.
O que se pode observar acerca desse paralelo é a visão tida do Holocausto como tão distante da atualidade, tanto cronológica, como ideologicamente, que nos parece impossível que algo parecido venha a acontecer novamente. Achamos que Hitler ficou preso ao passado e que nunca tivemos e nunca mais teremos outro alguém capaz de cometer tamanha atrocidade. Em todas as épocas se observou uma imagem “Hitleriana”, mas que, por uma pequena diferenciação de sucesso de seus feitos, não foram assim vistos ou tão “demonizados”. Muitos se recusam a ver a existência desse paralelo, e ainda chegam a idolatrar a figura desses líderes, dentre os quais, Dória, e renegar a de Hitler, ignorando a relação tão alarmante e aparente dessa relação entre esses.
Estamos tão acostumados a taxar Hitler de monstro cruel e irreverente, que nos esquecemos de olhar para nós mesmos e para a crueldade que a todo o momento praticamos e para nossos líderes políticos, que com seu poder acabam, aos poucos, com nossa liberdade. Preocupamo-nos tanto em vigiar a vida dos outros e em condenar a maldade de terceiros, que não olhamos o mal que fazemos, não só para outros, mas, às vezes, para nós mesmos, o que nos consome internamente e prejudica a sociedade por inteiro. É importante levar em conta que estamos, a todo o momento suscetíveis à praticar maldades e à condenação por parte de todos ao nosso redor.