Foto: Dimitar Tzankov

Ademus

Ela estava diante do espelho, investigando os dentes. Movia a língua e sentia um longo pelo, preso a alguma coisa. Após certo esforço, conseguiu prender a ponta do fio entre o indicador e o polegar. Puxou. O cabelo não saiu, e agora ela sabia que ele estava fixo diretamente no centro do céu da sua boca. A situação inusitada acelerou seus batimentos. Enrolou o fio nos dedos de modo que a tensão quando puxasse o partisse. Fez força novamente, até que houve um estalo. Sua boca inteira rachou e se partiu como porcelana, mil pedaços de arcada dentária foram ao chão. Um mar de sangue invadiu sua garganta. Ao longe, um coro entoava uma nota muito grave. Não conseguia respirar.

Como que levada pela torrente vermelha evanescente, agora ela estava deitada na própria cama, os olhos abertos. Gritava mas não havia som, seu corpo estava totalmente imóvel. Sentiu um lento e longo calafrio. Havia alguém deitado atrás dela. Esta presença puxava seu cabelo, ao que ela só conseguia responder tendo mais arrepios.

E então ela viu. Flutuando perto ao teto, havia uma sombra, um fantasma. Algo com tentáculos cinzentos. Aterrorizada e impotente, sentia a vida abandonar seu corpo devagar, como uma densa fumaça. Lutou de volta, fazendo força para respirar. A sombra já não parecia sombra, e talvez fosse luz. Iluminação da rua desenhando formas. Inspirou… expirou… inspirou… expirou… Conseguiu mexer a cabeça, e logo em seguida todo o corpo. Deu-se conta de que estava sozinha no quarto, sempre esteve. Sentou-se na cama, atordoada.

“Paralisia do sono”. Havia ouvido falar, mas nunca tinha passado pela experiência. “O cérebro continua produzindo serotonina e enviando glicina e ácido gama-aminobutírico para os músculos, mesmo ao abrir os olhos.” O medo passou: ciência. “Uma mera alucinação.” Contudo, não custava acender a luz, só para checar se o quarto estava realmente vazio. Grogue, arduamente se levantou em direção ao interruptor.

Sua mão parou no caminho. Olhou-a e viu que uma sombra a segurava. Gritou, mas o som foi abafado por outra forma escura que tapava sua boca. “Por favor não grite.” disse uma voz calma e taciturna, que parecia vir do quarto inteiro. “Eu não vim lhe fazer mal.” Maíra tentava pensar em como diabos alguém conseguiu entrar na casa. “Pode acender a luz, mas por favor não grite.” As sombras a soltaram.

Ela pressionou o interruptor, causando muita dor a seus olhos com a iluminação brusca. Virou-se lentamente para trás, tirando uma foto panorâmica mental do ambiente. O quarto era pequeno, mal havia espaço para uma cama de solteiro, um ventilador de coluna, um armário e uma escrivaninha. Nesta, peças de roupa amontoadas, uma pequena bolsa, um notebook arranhado e descascado, uma fotocópia de um livro sobre toxicologia e um exemplar de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, sem marca página.

Nada. Ninguém. “Você terá medo de mim”, a voz quase cavernosa quebrou o silêncio traumaticamente, “ainda não quero aparecer.” Maíra encostou as costas no armário atrás de si e cruzou os braços encolhida. “Quem é você?”, perguntou, sem saber para onde olhar.

“Eu… Essa é uma pergunta difícil… Para você, acredito que eu possa dizer que sou um monstro.”

“Um monstro?” ela sorriu debilmente, segura de que estava delirando “Certo… E por que você está aqui?”

“Eu vim… apagar a sua memória…” pareceu pausar para engolir em seco “É meu trabalho.” justificou-se, “Mas esse não é o motivo de eu continuar aqui.”

“Apagar minha memória?! Por quê? ”

“Só um evento em particular. Você viu algo que vocês humanos considerariam ‘sobrenatural’. Mais especificamente um vampiro atacando uma pessoa. Sou pago para eliminar esse tipo de coisa.”

“Como assim? Eu não vi nenhum…”

“Exatamente.”

Maíra riu enquanto escorregou as costas pelo armário até estar sentada no chão. Este estava sendo um sonho muito inusitado, ou uma brincadeira muito sem graça.

“Certo, você apagou a minha memória. E aí?”

“Normalmente eu já teria ido embora, enquanto você estava paralisada. Você nunca saberia que estive aqui. Mas acabei vendo suas outras lembranças, e…” tentou escolher as palavras certas “…e eu sinto muito.”

O sorriso da estudante de Farmácia se dissolveu no ar. Memórias violentas acordaram de um longo sono. “Então você sabe que eu…”

“Você é como eu, deslocada. Um ‘monstro’, para muitos. Uma vítima, para outros tantos. Mas você venceu tudo isso. Você anda à luz do dia, enquanto eu me escondo na noite. E isso me… inspira.”

“Eu não sei o que dizer.”, Maíra estava se sentindo exposta. Fez-se um longo silêncio. “Você quer alguma coisa de mim?”

“Eu não sei. É só que eu nunca havia entrado na mente de alguém assim.”

“Assim como? Uma trans lésbica?”

“Mais do que isso. Alguém que conseguiu produzir tanta luz a partir de tantas trevas.”

Maíra sorriu e esfregou os olhos lentamente, cansada. “Ai, ai… Você parece meu ego falando. Provavelmente é.”

“Não, eu sou real. Mais real do que muita coisa em que você acredita.”

“Então prove, apareça.”

“Tudo bem.”

Saindo das sombras dos objetos do ambiente, uma fumaça rapidamente se concentrou no canto oposto do quarto e deu forma ao que de fato parecia um monstro, ainda que humanoide. O rosto estava virado para a parede. A pele era cinza, e a textura lembrava a de um mamífero sem pelos. Os cabelos lembravam gordas minhocas, e moviam-se como tal. A própria roupa, uma espécie de túnica preta, parecia ter tentáculos negros vivos.

“Este sou eu. Meu nome é Ademus. Eu nasci no que você chamaria de Inferno e trabalho como desmemoriador freelancer.” fez uma pausa “É assim que vocês se apresentam, não é?” Maíra estava boquiaberta “Ironicamente, a maior parte da minha memória foi apagada.” Virou-se, revelando seu rosto “Então nem adianta perguntar sobre as suturas.” Duas fendas eram seu nariz, os lábios tinham muitas rugas. Suas pálpebras estavam fechadas. Cirurgicamente fechadas. “Esta é a parte em que você desmaia de medo.”

“Bem… já vi coisas mais assustadoras.” brincou a estudante. Ademus se sentiu mais lisonjeado do que deveria.

“Não é exatamente a reação que eu esperava.” seus olhos estariam arregalados se estivessem abertos.

“Eu acho que você espera demais.” Maíra se levantou e limpou a poeira dos shorts. “Eu acho que você é que tem medo.”

“Do que você está falando?”

“Eu ainda não sei se você é real. Só consigo pensar que você é a representação de alguma emoção que está guardada em mim.” falava enquanto lentamente se sentava de pernas cruzadas sobre a cama. “Então estou lhe tratando como tal: com sinceridade.” Ademus estava confuso. “Você não é um monstro. Você não é assustador. Você é mais do que isso: você é nada. Uma tela em branco.”

“Eu…”

“Eu acolho você. Seja lá o que você for. Não vou fugir, não vou lutar. Eu sou a última pessoa que vai julgar alguém por ser quem ele é.” A estudante sorriu amavelmente para o desmemoriador. Tinha uma expectativa de que ele evaporasse no ar, por ter sido acolhido. Tal como sentia que acontecia quando aceitava alguns pensamentos e emoções negativas.

“Eu… Eu nunca…” a voz estava chorosa.

“Você quer um abraço?” abriu as mãos em oferta. Ademus hesitou por um instante, mas logo fez que sim com a cabeça e deslizou pelo ar até seus braços e tentáculos envolverem o corpo de Maíra, que abraçou de volta.

Ele parecia bastante real agora, o que começou a angustiar a estudante. Era possível sentir a textura rugosa e seca da sua pele, além de um leve cheiro de enxofre misturado a algum tipo de incenso. Inesperadamente ele tinha um coração, pelo que indicavam as batidas em seu peito.

“Obrigado” ele disse, por fim.

“Imagina. Sempre que quiser podemos conversar.” O abraço continuou por mais alguns segundos, até ser desfeito devagar.

“Posso voltar amanhã?”

“Com certeza.”

“Muito obrigado. Vou precisar ir agora, tenho mais algumas memórias para apagar antes de amanhecer.” estava visivelmente nervoso.

“Tudo bem. Bom trabalho. E boa noite!”

“Boa noite para você também!” desmanchou-se no ar.

Maíra ficou olhando para o vazio à sua frente por alguns instantes, ainda com um sorriso no rosto. Deitou-se na cama, a luz acesa. A serenidade logo deu lugar a um questionamento bastante pertinente: “Mas que merda foi esta?”

Quando o despertador tocou, algumas horas depois, sua sensação era de não ter dormido nada. Vampiros, inferno, memórias apagadas, memórias acordadas. Perguntas que julgava caladas, agora tagarelavam. Feridas que julgava cicatrizadas, estavam agora em carne viva. Entre uma consternação e outra, de alguma forma já estava escovando os dentes.

Pensava no passado. Quando ela chegou à capital, após ser expulsa de casa, não sabia o que esperar. Mas era otimista. Havia de tudo por ali, certamente haveria lugares onde pudesse viver e lugares onde pudesse trabalhar. Onde ao menos a tolerassem. Cedo ou tarde encontraria.

Mas o tarde estava ganhando a aposta. O prato de almoço da terça virou um pastel na quarta, que virou um jejum na quinta, e, por fim, na sexta, virou o sêmen de um caminhoneiro.

Foi comendo o feijão e arroz do sábado que percebeu como era bonita Anita, uma de suas colegas de esquina. Vê-la se tornou uma de suas pequenas alegrias. Perdê-la, a sua maior tristeza. Seu rosto era uma massa vermelha disforme quando encontraram o corpo.

O que o assassino, um cliente, não esperava era que Maíra tivesse memorizado a placa do seu fusca. Ela sempre memorizava. Alegremente se ofereceu quando ele apareceu de novo no ponto. Outra coisa que ele não esperava era ter a garganta cortada de um lado a outro e morrer como um porco.

Estava pronta para apodrecer na prisão, mas nunca a descobriram. Maíra se deu conta de que já estava no ônibus, a caminho da faculdade. O passado estava muito distante agora. Mas, não importa o que fizesse ou pensasse, ele ainda estava vivo, pulsante. Sempre estaria. A menos que… Lembrou-se do seu novo amigo. “Desmemoriador freelancer”, ele havia dito.

Voltou à noite do estágio com a sensação de um dia altamente improdutivo. Estava ansiosa por reencontrar Ademus e isto consumiu toda a sua mente. Sua colega de casa avisou que ela esqueceu de lavar os pratos ontem e que havia um resto de frango à parmegiana na geladeira caso quisesse. Acenou qualquer coisa com a cabeça para confirmar que ouviu.

De que horas ele viria? A mesma de ontem? Ligou o chuveiro. O cabelo cacheado tingido de loiro e o silicone nos seios davam pistas do que não precisava de pista alguma: ela era uma mulher. E uma bastante atraente. Seria preciso um esforço cultural muito grande para enxergá-la como um aberração.

Foi para o quarto, fechou a porta, ligou o notebook, enxugou-se e vestiu um short verde encardido e uma camisa gigante do System of a Down. Viu uma receita de cupcake, uma mulher praticando le parkour e um texto furioso contra o governo antes de lembrar por que havia ligado o computador.

“Boa noite.” Maíra girou na cadeira sobressaltada. Ademus chegou.

“Boa noite, querido! Você veio cedo.”

O monstro refletiu desnecessariamente sobre qual havia sido o tom do “querido”. Voltou a si e respondeu “Ah, eu resolvi vir antes do expediente. Ontem ficou corrido para terminar os serviços.”

“Entendi. E como foi o seu dia?”

“Bem normal, acho. Assisti a alguns seriados e tive algumas reuniões com clientes. Um lobisomem conhecido meu entrou em frenesi. Ele estava tomando remédios para não se transformar, mas bastou uma lua cheia sem se medicar que veio tudo de uma vez. Antes de o recapturarem ele atacou várias pessoas, na frente de outras tantas. Hoje vai ser uma noite trabalhosa.”

“Nossa, que terrível. Mas ele está bem agora?”

“Por ora sim, mas se acontecer de novo ele será sacrificado. Quebras de sigilo colocam em risco a Paz Sangrenta, o acordo que existe entre humanos e ‘criaturas das trevas’.”

“Que acordo é esse?”

“Responder seria uma quebra de sigilo.” riu Ademus.

“Entendo.” Maíra sabia que estava diante de algo real agora. Não só real, como aparentemente bastante complexo. Mas nada disso a interessava muito no momento. “Mudando de assunto, quanto você costuma cobrar para apagar uma memória de alguém?”

“Por que você quer saber?”

“Acredito que possa deduzir. Você viu o que tem dentro da minha cabeça. Viu a dor que ainda me causa.”

“Você realmente está me pedindo isto?” Maíra deu de ombros: “Estou.” Ele suspirou e respondeu “Eu não vou apagar nenhuma memória sua. Sua história lhe levou a ser quem você é, e você é incrível.”

“Eu não sou incrível, eu sou uma assassina.”, levou as mãos ao rosto, “Eu só queria poder realmente recomeçar. Ser uma estudante universitária, trabalhar em um grande laboratório, ter uma família. Sem fantasmas à noite.”

“Todos temos nossos fantasmas, Maíra. Mas somos forçados a fingir que não. Então, quando descobrimos que temos, parece que estamos fazendo algo errado. Parece que estamos quebrados. Eu apago memórias todos os dias, e todos os dias eu me questiono por que é tão necessário esconder a verdade. Por que não podemos viver todos juntos e em paz, à luz do dia, sendo quem quer que sejamos. Por que olhamos para um mundo tão perfeito e só enxergamos rachaduras que precisam ser removidas? Por que a verdade é tão inacreditável e inaceitável que precisamos mentir tanto?”

“Às vezes tudo de que nossos fantasmas precisam é de um abraço.” concordou a estudante, com um sorriso que acabou brevemente. “Mas de toda forma dói. E sou livre para escolher não sofrer.” deu uma lenta fechada e reabrida nas pálpebras, “Qual é o seu preço?”

“Eu sou livre para recusar um serviço.”, cruzou os braços, “Eu não acho que você esteja fazendo isso apenas para não sofrer. Está fazendo isso para entrar no padrão. Acho que a faculdade está fazendo mal: está lhe colocando em em uma latinha. Está fazendo você se medir por notas e certificados. Está fazendo você querer apagar o que você tem de mais valioso, suas lembranças — com todas as dores e imperfeições — só para que sua história de vida atenda ao modelo que lhe vendem como desejável.”

“Entendo sua opinião, realmente entendo. Mas quem é que é capaz de controlar o que quer, sabe? Veja você mesmo: qual é o seu sonho, Ademus? Seu maior sonho?”

“Surfar de dia.”

Maíra tentou não rir com a resposta, o semblante do monstro garantia que estava falando sério. “Pois bem. De que valeria eu olhar pro seu rosto e dizer ‘Não queira surfar de dia’? Em que isso mudaria alguma coisa?”

“Nada. Assim como esta conversa não mudará em nada o fato de que eu não vou apagar suas memórias.”

“Tudo bem então.” fez um sorriso amarelo com os lábios. Após uma pausa constrangedora, prosseguiu “Mudemos de assunto, já que é assim. Você realmente gosta de surfar?”

“Sim, mas só posso fazer quando está escuro e não há ninguém olhando. Mas geralmente só largo do trabalho quando amanhece. Isso limita bastante o tempo que posso dedicar e a quantidade de ondas boas que consigo pegar. Hoje pode ser um dia bom, por sinal, com essa lua cheia. Mas o que eu gostaria mesmo é de surfar sentindo o sol forte no meu rosto. Seria outra coisa.”

“Você deveria fazer isso qualquer dia. Amanhã, talvez. Por que não amanhã?”

“Você está louca?” ele riu desconfortavelmente “No melhor dos casos, eu seria preso e torturado. Também seria morto, se não fosse imortal. E, no pior dos casos, eu apenas começaria uma guerra literalmente intergaláctica.”

“Não foi você que acabou de me dar um sermão sobre a importância da verdade? Talvez seja preciso haver um louco surfista para que acabe todo esse teatro.”

“Talvez…”

“Ou você quer passar o resto da sua vida imortal vivendo uma mentira? Vivendo um dia após o outro, trabalhando com algo em que não acredita, fingindo que nada é problema seu. Enquanto você está no coração da farsa. Você é o pilar que a sustenta. Você apaga a memória das pessoas, Ademus, para que não conheçam a realidade. Você é o maior de todos os hipócritas.”

O som do ventilador reinou indisputado por alguns minutos.

Maíra retomou, “Eu… Eu peço descul…”

“Não, não. Você está certa.” o monstro passou as mãos pelos tentáculos de sua própria cabeça. “Você está certíssima.”

“Eu não sei de nada. Talvez seja realmente perigoso fazer isso.”

“Não é mais perigoso que viver uma vida infeliz.” e deu de ombros. “Foi bom conversar com você, Maíra. Não sei se voltaremos a nos ver.”

A estudante se levantou da cama e se abraçaram demoradamente. “Independende de qualquer coisa, obrigado pelas visitas.” disse ela. Estavam a se desvencilhar o abraço tão suavemente, tão confortavelmente… que pareceu mais o fluxo natural das coisas do que um acidente quando os lábios de Ademus encontraram os de Maíra.

“Perdão.” disse ele prontamente.

“Não precisa pedir perdão.”

“Preciso ir agora.”

“Entendo. Boa noite, foi um prazer conhecê-lo!”

“Igualmente.”

Ademus não foi trabalhar aquela noite. Estava no topo de um dos prédios mais altos que havia à beira do mar. As consequências do que iria fazer pela manhã poderiam ser desastrosas. Não seria exagero dizer que apocalípticas. E ele seria o inimigo público número um. Tentariam destruir todo o resto de vida que ainda tinha, toda e qualquer sombra de felicidade. O pensamento o eletrocutou.

Respirou profundamente. Não tinha outra escolha. Deitou-se com as costas no chão, ao lado da sua prancha, e levou a mão direita ao rosto. Pequenos tentáculos saíram de sua palma para entrar em suas narinas, boca e ouvidos. Um cabelo loiro, um sorriso, um abraço, um beijo. Tudo sendo engolido pela escuridão.

Acordou paralisado. Com tranquilidade, inspirou e expirou vigorosamente até retomar os movimentos. Não sabia bem por quê, mas era crucial que fosse surfar de dia. Alguém disse. Alguém muito importante, mas sem rosto. Naturalmente, havia aprendido a confiar cegamente nos impulsos que tinha toda vez que apagava a própria memória.

Nove da manhã, parecia um bom horário. Pulou do prédio, planando longamente antes de chegar ao chão. Afinal, se era para começar o Armageddon, que fosse com uma entrada dramática. Aterrisou sonoramente no meio de uma rua movimentada, gerando um turbilhão no ar ao seu redor.

Então começaram os gritos e buzinas. As pessoas que não desmaiaram, correram, os carros que não bateram, fugiram. Alguém ainda tentou atirar uma pedra. Calmamente, Ademus começou a caminhar em direção à praia.

As sirenes não demoraram. Ainda não havia pisado na areia quando ouviu o primeiro “Mãos para o alto!”. Ignorou solenemente. “Mãos para o alto ou abriremos fogo!”. Derrubou a prancha no chão, antevendo o que viria em seguida, e continuou andando. Logo veio uma saraivada de tiros, fazendo cócegas ao atravessar inofensivamente seu corpo feito em fumaça. Esperou paciente que percebessem estar desperdiçando munição, e então coletou de novo a prancha.

Chegaram por fim helicópteros da polícia e da imprensa. Gritavam ordens e perguntas. “Parado!”, “Quem é você?”, “O que é você?”, “Você está nos ouvindo?”. Houve uma rajada de metralhadora, da qual Ademus desviou graciosamente, protegendo a prancha.

Maíra assistia à transmissão ao vivo em completo choque. “E.T. surfista?” dizia a manchete. O desmemoriador entrou na água e começou a nadar em busca de boas ondas. Em algum lugar um vampiro engravatado fazia telefonemas desesperados.

E então ele percebeu o helicóptero negro se aproximando. Nenhum logo, nenhuma identificação. O fim — ou o começo — estava agora bastante próximo. Antes que percebesse, um outro helicóptero, claramente militar, chegou no meio da confusão e atirou um míssil. A distração lhe custou o equilíbrio e a prancha, que agora flutuava em mil pedaços chamuscados.

Como aquilo tudo era insano. Ele só queria surfar. Gargalhava de tristeza enquanto deixava seu corpo boiar sem destino. O sol era delicioso. “Que tempos são estes?!” gritou a plenos pulmões. “Que tempos são estes em que para viver em paz é preciso começar uma revolução?”

Houve um rebuliço geral, em especial dos jornalistas que estavam no local. “Você gravou isso?”, “Ele fala!”. Ademus fechou os olhos e respirou fundo. Quando abriu de novo, o helicóptero preto já estava logo acima dele. Só conseguiu ver uma forma escura usar uma espécie de canhão para atirar uma esfera de luz azul na sua direção. E em seguida escuridão.

“Acorda, seu verme!” — a voz e o soco que a acompanhou eram de Samuel, braço direito de Ector. Cabeludo e barbudo, o capanga lembrava um viking. Ademus lentamente recobrou os sentidos. Estava sentado em uma cadeira de madeira, braços e tronco amarrados em raios azuis, em um ambiente com paredes metálicas iluminado por lâmpadas fosforescentes. Ector o encarava do outro canto da sala, com sua ridiculamente óbvia gravata vermelha. Ao seu lado estava Mgom, um demônio corpulento que também apagava memórias.

“Você realmente não tem ideia, não é?” — falou por fim o vampiro, com sua voz suave. “Temos duas opções: gastar um fortuna para reparar a merda que você fez, ou deixar a guerra rolar.”, caminhava para mais perto do desmemoriador. “O problema é: não temos uma fortuna.”

“De uma forma ou de outra, você vai precisar pagar pelo que fez. Você sabe bem disso, não é?”, Ector agora apertava os tentáculos na cabeça do monstro. “Você também sabe que não conseguiríamos lhe matar.”, continuou, “E de toda forma você é muito útil para descartamos assim. Ainda mais com a guerra iminente.”, soltou os tentáculos, e agora encarava o rosto do desmemoriador a poucos centímetros de distância, olhando diretamente para suas pálbebras costuradas. “Vamos fazer deste jeito: eu vou entrar na sua cabeça e descobrir o que lhe é mais valioso.”, fez sinal para que Mgom se aproximasse, o que este fez ruidosamente. “E então, seja o que for, eu vou destruí-lo. Da forma mais lenta e brutal que você puder imaginar.” Ademus sorriu com tranquilidade.

Já era fim de tarde. Maíra estava em casa, o expediente no estágio havia sido cancelado por conta do caos na cidade. Ela se pôs à janela do apartamento. Sua colega de quarto tagarelava. Ora com ela, ora com amigos no telefone. Invasão alienígena, apocalipse, gravação de filme. A estudante não se dava ao trabalho de parecer interessada.

Foi então que reparou na lua diurna. Aparentemente deslocada no céu das quatro horas. Antinatural. O certo é de dia só sol, de noite só lua. Não é? Segundo quem, se a natureza diz o contrário? “Que natural é esse”, murmurou para si, “que quem define é o homem?”

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