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Foto feita perto da Die DeuSCHule. Berlim, 2018.

(Nunca pensei que eu pudesse aprender alemão)

Sair do país de origem é quase como se atirar de um avião com um paraquedas nas costas sem saber direito onde vai aterrizar. Mudar significa ver o chão mas não saber qual o território em que ele se encontra. Tudo o que era familiar, desaparece. E a língua é a primeira barreira que precisa ser quebrada para que as coisas comecem a fazer um pouco mais de sentido. Afinal, é através da comunicação que o mundo se conecta.

Quase seis meses depois que me lancei para minha vida nova em Berlim, posso dizer que, depois de algum tempo em queda livre, abri o paraquedas há uns dois e ainda estou planando no ar, me aproximando de um lugar para pousar. Assim como pular de paraquedas, mudar de país exige uma entrega de si que só o coração pode sustentar, coisa que a mente não sabe fazer. …


Parafraseando Jout Jout no vídeo “Não tira o batom vermelho”, digo que esse texto pode valer para amizades, familiares, colegas de trabalho, relações amorosas entre pessoas do mesmo gênero, enfim, relacionamentos. No entanto, por questões foco, a pauta aqui serão as minhas experiências em relacionamentos com homens, certo?

Tem horas que eu tento me manter firme e forte, focada em mim mesma, nas minhas rotinas e meus projetos, no meu processo de expansão de consciência, em ajudar ao próximo, enfim, em aprender a viver a vida de uma forma mais justa e coerente com o que eu tenho entendido que são valores importantes para mim. …


Anteontem, estava em uma festa dessas de rua que cada vez mais florescem em Brasília e encontrei um amigo. Ele estava sentado numa estrutura de concreto. Cumprimento-o e logo percebo: estava triste. Entorpecido de álcool, de si mesmo e do sistema, seu corpo estava dobrado. Coluna, cabeça e braços encurvados para dentro, quase como se gritasse em silêncio: eu não quero mais estar nesse mundo. Não desse jeito.

Para tirar a dúvida, questiono:


Tem horas que sinto um aperto no peito e uma vontade de escorrer um choro preso no coração. Os pensamentos embaralham e se tornam obsessivos, a ansiedade toma conta. Tem horas que acho que vou explodir. Já não aguento mais essa confusão que toma minha mente e me estafa. O medo insiste em ficar gelando a boca do meu estômago.

Quando paro e respiro profundamente, é como se uma iluminação tomasse conta do meu ser e entro em contato com as emoções que estão bloqueando o a energia que fluí através dos meus chakras. …


Estar em um momento de transição é um desafio diário. As preocupações sobre as providências a serem tomadas vão consumindo a mente e nessas horas você descobre a importância de manter tudo organizado. Mas lidar com a angústia da incerteza não é uma tarefa simples, pois ela te afeta em determinados níveis que, caso não exista uma certa consciência, tudo pode ser colocado a perder.

O emocional é o primeiro a ser atingido. A angústia costuma atacar áreas em que você se sente inseguro, funcionando como uma lente de aumento desses sentimentos. Os mais densos, tais como o medo e a impaciência, costumam ser os mais ampliados, pois enquanto a fase não for superada, o inconsciente ainda não tem informações suficientes para provar para mim mesma de que dou conta daquilo. …


Tem dias em que preciso prestar atenção para não confundir solitude com solidão.

As semanas passam e eu não sei muito bem o que estou deixando para trás. Sei que os amigos de outrora não caminham com os mesmos calçados que uso agora. …


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Você ainda não me vê.

Estou ali pela travessia do primeiro limiar da minha jornada da heroína. O caminho já me leva a algum lugar mais bem definido, mas sei que precisarei ultrapassar obstáculos até que a recompensa venha, enfim.

Você já me reparou, mas ainda não me vê.

Você é inspiração, é agonia, é frustração, é meta do meu vir a ser. Agradeço por aparecer (de novo) e ter conseguido me revirar como há tempos ninguém me revirava.

Você ainda vai me ver.

Aqui quem fala é minha menina, minha guria fantasiosa, minha garotinha que gosta de te inventar na minha cabeça só porque ela pode. A mulher de hoje olha nos olhos dessa menininha e bebe dessa fonte criativa para seguir firme e forte nos passos da travessia da jornada.

Você, pra mim, é ir em busca de ser quem sou.


Não era para ser. Nunca foi, aliás. E por mais que eu soubesse disso, há algo que me habita que gosta de ter esperança mesmo quando a sensação de que tudo já está desconectado é bem latente. E foi essa esperança que me colocou em lugares bem ruins em vários momentos da minha vida, numa espécie de masoquismo mascarado de amor.

Hoje sei que essa esperança é, na verdade, uma carência profunda. Um desejo de ter um amor que me fizesse sentir inteira como nunca pude sentir. …


Estava aqui pensando nessa sociedade louca em que vivemos e estive refletindo sobre suas questões estruturais. Para quem não sabe, falar de questões estruturais é falar de coisas que estão aí atuando bem antes de nascermos. Tipo, sei lá, a ideia de “família tradicional brasileira”, por exemplo. Sempre gosto de confrontar essas questões estruturais com questões ainda não estruturais, ou seja, que estão em pauta há pouco tempo, historicamente falando.

Desde sempre acreditei que a gente tá aqui vivo pra se melhorar, se aperfeiçoar, pra deixar um legado massa pro mundo. Isso torna a vida, na minha linda imaginação, um lance de ir passando de fase, alcançando níveis mais difíceis, caindo, tombando, morrendo, renascendo, tomando pau do chefão da fase. Daí, sabe aquele alívio e aquela sensação boa de quando rola de passar por coisas que custaram muito tempo e trabalho? …

About

Mari Vass

Photographer, sociologist, mind questioning and sensitive.

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