Meus amigos estão tristes

Anteontem, estava em uma festa dessas de rua que cada vez mais florescem em Brasília e encontrei um amigo. Ele estava sentado numa estrutura de concreto. Cumprimento-o e logo percebo: estava triste. Entorpecido de álcool, de si mesmo e do sistema, seu corpo estava dobrado. Coluna, cabeça e braços encurvados para dentro, quase como se gritasse em silêncio: eu não quero mais estar nesse mundo. Não desse jeito.

Para tirar a dúvida, questiono:

- Você está triste? — Pensei que ele fosse me dar uma de suas costumeiras respostas longas, mas dessa vez foi diferente.
- Estou.
- O que houve?
- O de sempre.

Eu sabia o que era o de sempre. O de sempre começou há alguns anos, quando pensou que seu trabalho seria uma coisa, mas acabou se tornando outra. Um tormento, eu diria. Aquilo lá não é pra ele — creio que não é para quase ninguém — mas a Matrix é complexa demais para se encontrar a porta de saída. Porém, como sou esperançosa, tento trazer um pouco de fé, ainda meio que sem jeito, pois, afinal, eu mesma estou a procura da porta de saída:

- Você precisa largar esse emprego, não está te fazendo bem.
- Mas não é tão simples.

Pior que eu sei que não é simples. Dou esse conselho sempre com um aperto no coração, porque sei dessa dificuldade. Sair da Matrix é complexo quando nunca se foi ensinado a buscar a porta de saída. Desde sempre fomos criados para permanecer e viver nela.

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Esse momento me fez refletir sobre meus outros amigos. E cheguei a uma conclusão ainda mais infeliz: meus amigos estão tristes. E, o pior, é que não sei direito como ajudá-los. Como eu gostaria de ter uma pílula vermelha para entregar a todos eles.

Minhas memórias me levaram ali pelos meus 18/ 19 anos, quando tinha acabado de entrar na universidade. Aquele lugar maravilhoso de descobertas me permitiu conectar com pessoas fantásticas. A maioria fantasiava que seus cursos pudessem lhes dar uma vida diferente (melhor) que a de seus pais. Outros tinham um pé no chão, haviam feito escolhas que o sistema gostava mais, mas tinham atividades paralelas que lhes permitiam fantasiar livremente.

Eram músicos, fotógrafos, desenhistas, escritores, atrizes e atores, cinéfilos. Dos bons, inclusive. O frescor da fantasia ainda pulsava dentro dos seus corações. Tenho a certeza de que essas pessoas vieram para mudar o mundo, pois algo dentro delas sabe que as coisas não estão certas do jeito que estão.

No entanto, os anos foram se passando e a teia da Matrix foi apertando. Infelizmente, o dinheiro não vem fácil das atividades onde é permitido sermos nós mesmos, mas de onde o sistema necessita para se manter vivo. Ouso dizer que são poucos os que tem o sistema como vocação de vida. E os que tem, certamente são pessoas felizes, pois quando podemos fazer o que nossa alma deseja, naturalmente somos mais felizes. A tristeza vem da clausura.

Assim, aos poucos, esses artistas foram sendo fagocitados. O brilho de seus olhos foi sumindo, assim como as cores de suas vidas. Meus amigos estão tão tristes que só enxergam a vida em tons de cinza. A reclamação é seu mantra.

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Fico triste, mas sou esperançosa. Sei que cada um tem sua trajetória de vida e suas condições específicas para estar do jeito que está. Muitos tiveram que se virar desde muito cedo, outros já não têm mais como pedir ajuda para a família ou mesmo nunca puderam. Mas acredito que com um pouco de esforço, é possível que cada um consiga encontrar seu caminho. É um processo difícil, moroso e que exige paciência. Talvez seja necessário dar alguns passos para trás para depois seguir adiante, mas é possível. Se despir da Matrix significa também ter coragem para libertar-se do julgamento alheio, das caras feias de quem não entende o que está acontecendo. Não é fácil.

Não quero dizer que também estou livre da Matrix. Escrevo esse texto com alguma angústia, pois essa dor também é minha. O caminho ainda é longo, há muito para fazer. Tenho trabalhado para sentir menos culpa por não gostar de viver nela e de querer viver algo diferente — sim, querer sair da Matrix gera muita culpa e medo. Mas creio que um elemento importante e que ajuda nesse processo é ter otimismo e entendimento de que é preciso paciência e que fazer um pouco -qualquer pouco- todos os dias já ajuda um bocado.

Como forma de ajuda, desde anteontem comecei a rezar para esse meu amigo. Vou rezar por todos agora para que tenham forças para agir.

Amém!

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