Desejos de aniversário

Queria poder fazer exatamente o que planejo quando o dia nasce e me levanto da cama. Queria ser a pessoa impecável que às vezes finjo existir debaixo da carne e do osso e da matéria. Queria olhar para fora de mim e conseguir enxergar o que há de errado, uma espécie de inspetora de mim mesma. Queria um mundo em que eu pudesse controlar tudo o que me transtorna e esmaga o amor. Queria corresponder à altura as expectativas projetadas sobre mim. Queria aprender a não repetir erros em situações previsíveis.

Queria um pedaço de terra para cultivar, flores, pássaros, florestas verdes sem fim. Longe da humanidade, por um instante, para viver da forma mais natural possível e quiçá compreender todos os motivos de tudo. Eu sou um clichê do bucolismo, do fugere urbem, e não me importo, todos somos clichês de uma forma ou de outra. Eu escolhi o da vida no campo. A escritora reclusa que cuida dos gatos, das ovelhas, que vive longas conversas com o marido num balanço na varanda de uma casa sem muitas portas nem paredes. É um bom sonho para cultivar.

Queria o poder de soprar as trinta e quatro velinhas do meu bolo e ver todas as minhas angústias voando para longe com a fumaça das chamas enquanto se apagam, materializando tudo o que gostaria que existisse dentro e fora de mim. Queria o poder de fazer sorrir todos os que choram e sofrem de dor, fome, desespero e ausências. Remover por completo a maldade do mundo e restaurar a paz, se é que um dia ela já existiu.

É pedir muito, eu sei, mas a utopia é o que alimenta a esperança, é o que colore o horizonte com algum resquício de encantamento. E aniversários também servem para sonhar com tudo o que é (im)possível.