Manhãs de férias

A beleza do tédio

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Acordar. Tomar um café com leite. Alimentar os gatos, colocar água nas plantas (dia sim, dia não, com intervalos de esquecimento). Ajeitar a vida, para que ela continue a se mover. Movimentar um pouco o corpo com alongamentos e lamentar a preguiça, que gruda os pés no chão e não me deixa sair para caminhar.

Respiro. Manhã é momento de se alegrar, de agradecer pelo dia que surge no horizonte poluído — ainda assim, um horizonte. O que haveria de ser, se fôssemos privados dessa perspectiva que nos orienta e norteia? Inspiro, expiro, rejeitando as reclamações.

Abrir as janelas. Deixar entrar em todos os quartos, sala, cozinha, banheiro, o cheiro do orvalho e do asfalto úmido, do outono tímido, escondido atrás do sol quente relutante em descansar.

Contemplar a raríssima falta de trabalho. O sabor de descanso e o frio na barriga que as férias despertam, uma súbita dúvida, um não saber o que fazer com o ócio.

Respiro. Coloco a preguiça de lado, calço os tênis, visto as roupas de ginástica. Vislumbro a rua pela janela da sacada, cintilando sob a luz da manhã. Já são quase dez horas. Uma incômoda culpa por não ter feito nada de produtivo alfineta em meu peito por alguns minutos.

Sair para ver a rua. Encher os pulmões com o aroma doce do ócio. Voltar para casa, assistir ao transcorrer das horas e aguardar a noite. A transformação do véu escuro em céu azul salpicado por nuvens. Observar os ponteiros do relógio com seus passos lentos. Elásticos. Adormecer nesse mesmo ritmo insosso.

Acordar. Tomar mais um café, talvez um chá ou capuccino. Colocar a mente nos eixos. Repetir os inícios, as manhãs arrastadas, na esperança de que durem mais do que meros trinta dias.