O processo de autoaceitação é coisa para a vida toda

Ruminei este texto durante muito tempo. Não por não saber o que dizer, mas por demorar a encontrar a maneira certa de expressar a minha experiência e meu processo de amadurecimento em relação ao meu corpo.

Há cerca de cinco anos, quando me vi cansada de sentir ódio por mim mesma, embarquei em uma jornada de autoaceitação que tem sido gratificante e árdua, em igual proporção. Passei a encarar o amor próprio não só em termos dos cuidados com o meu aspecto físico e a saúde corporal, e sim como algo que envolve tudo o que sou, de forma completa e profunda. Comecei a fazer exercícios físicos por prazer, a me alimentar de uma maneira mais consciente, escutando os sinais que meu organismo enviava — de fome, saciedade, vontade de comer algo específico. Isto resultou em um emagrecimento não tão drástico, porém evidente.

Com a perda de peso, surgiram os comentários. Você está linda, está tão elegante, continue assim, me conta qual é o segredo… Antes mesmo de começar a refletir sobre o que estava acontecendo, me vi envolvida novamente com os pensamentos nocivos da adolescência: preciso emagrecer mais, estou no caminho certo, tenho que comer menos, não posso comer este chocolate, preciso fechar a boca, não posso engordar, não posso engordar, não posso engordar.

E isto se repetiu como um mantra dentro de mim durante dois anos. Não posso engordar, porque esta é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa, especialmente na de uma mulher. Se todos estavam me elogiando por diminuir de tamanho, obviamente reparariam em como eu estava estagnada e havia parado de emagrecer, ou em como talvez eu estivesse engordando um pouco, apesar de todos os exercícios e a boa alimentação. O ruído na minha mente era ensurdecedor e o que antes era amor próprio se transformou em um novo processo de frustração, revolta e infelicidade.

Graças às “coisas da vida”, tive que aumentar a minha jornada de trabalho e perdi a vontade de fazer exercícios todos os dias. A mente fica tão cansada ao fim do expediente, que eu só quero descansar, ler, escrever, ficar quieta no meu canto. Mas a cobrança interna não me abandonou, e eu já não conseguia descansar direito, de tanta gritaria aqui dentro vai logo, vai correr, você não pode ficar parada engordando que nem uma porca, olha, suas pernas estão flácidas, vai logo, levanta a bunda daí, descansar é pros fracos, dormir é pra quem está morto, vai, se mexe, anda!

Comecei a refletir sobre este ciclo, e por que ele estava se repetindo, logo comigo que, supostamente, já havia superado tudo isso.

Não é tão simples assim. É um processo que vai durar a vida toda, pelo visto.

Nas últimas duas semanas eu tenho conseguido lidar melhor com isso. Eu engordei um pouco, e o que isso mudou na minha vida? Literalmente nada, porque nem as roupas estão apertadas. Eu escolhi ocupar o meu tempo com coisas que me fazem bem: ler, ficar com meu marido, cuidar da mente, relaxar, assistir a um bom filme, jogar vídeo game. Isto, neste momento, é o que me agrada, e é nisso que vou me concentrar. Fazer o que eu gosto também é uma forma de amor próprio, é um longo abraço em mim mesma, dizendo que vai ficar tudo bem. Que eu posso descansar um pouco, porque não sou feita apenas de carne, tem a mente também, e ela está pedindo arrego.

E, no fim das contas, eu tenho um corpo grande, e sempre tive, e não vou mais ficar me punindo ou culpando por isto. Os seres humanos são diversos, tem gordo, magro, alto, baixo, diferentes cores e formatos de rostos, cabelos, pele… E tá tudo bem. Eu prefiro viver mais feliz do jeito que estou agora, do que passar anos me maltratando, física e mentalmente, tentando alterar o meu corpo e encaixá-lo em um padrão que eu nem acho bonito.

A vida se torna mais simples quando o espelho é seu aliado, e não o seu inimigo. E eu resolvi me abraçar, mais uma vez, selando este pacto de seguir o caminho da vida de mãos dadas comigo.