Se uma porta se fecha atrás de nós, é porque há um caminho inteiro pela frente

Sobre não se desesperar ao ver a vaca ir para o brejo

Uma bela imagem clichê para ilustrar a vastidão do desconhecido que surge no horizonte

No final do mês passado, por telefone, recebi uma notícia muito antecipada e nem um pouco surpreendente: fui demitida. Meu chefe já havia me alertado de que havia a possibilidade de me demitir, porém sem previsão de data. E esse suspense se prolongou por mais de um ano.

Graças à iminente demissão, que nunca se concretizava, deixei de aproveitar diversas maravilhas que 2016 me trouxe, e passei o primeiro semestre de 2017 em um estado de nervos deplorável. Entrei em depressão. Tive crises de ansiedade e pânico. Tudo isso por causa de uma porcaria de um emprego. É inacreditável até para mim.

O medo transformou meu calendário em uma contagem regressiva. Os dias se suspendiam em partículas vazias — eu era a personificação da espera de uma hecatombe que não chegava nunca.

E, por fim, veio o derradeiro dia. Foi uma sensação estranha, como se tivesse terminado um longo relacionamento da forma mais impessoal possível. É incrível que eu tenha feito essa analogia, mas igualmente previsível, já que o trabalho ocupa boa parte das nossas vidas, às vezes uma parcela até maior do que os nossos relacionamentos.

Mas, não tem tristeza, não. Vamos em frente. A intenção desse texto não é ser um muro de lamentações nem destrinchar esta entidade sinistra que chamamos de “mercado”. O que eu preciso, na verdade, é admitir, após digerir a notícia por duas semanas — e este é o verdadeiro motivo deste texto: eu estou feliz por ter sido demitida.

Quer dizer, em meio a uma crise financeira e política, nesta recessão braba, essa não foi uma notícia muito fácil de acolher. Não foi nem um pouco agradável recebê-la, posso garantir. Entrei em desespero por alguns minutos, chorei, senti vontade de vomitar, frio na barriga, a sensação de que tudo foi pro buraco. Mas, ao final do dia, eu sentia a liberdade correr pelas minhas veias e o cheiro das infinitas possibilidades perfumando o ar.

Em meio ao medo de perder minha fonte de renda, fiquei cega e não consegui observar o quão desmotivada eu estava. Demorei para compreender que o meu problema era bem simples: eu estava infeliz no meu emprego e não tinha coragem de pedir demissão. Por todos os motivos imagináveis— o medo de não conseguir me sustentar, de não encontrar trabalho, de perder o FGTS e os meus direitos de rescisão (afinal, cinco anos e meio de empresa), de entrar em mais desespero ainda graças à falta de grana.

E o que mais me assolava era a vergonha pela ingratidão de não conseguir estar feliz, mesmo tendo um emprego razoável (enquanto tanta gente sofre há anos sem trabalho). Sem contar, é claro, o medo de as coisas darem certo e eu não ter mais do que reclamar nessa vida.

Eu não estava infeliz com a minha situação profissional, em si. Tudo estava bem cômodo para mim. Trabalhar em casa, receber décimo terceiro e férias, benefícios de CLT, era quase um sonho concretizado. Um enorme privilégio. Mas, então, algo me ocorreu. O meu propósito de vida, aquilo para o qual eu nasci, estava na gaveta.

Se dependesse de mim, talvez passasse mais trinta anos sem, de fato, viver da escrita. Porque a cada ano que se passava, eu continuava me escondendo atrás de um trabalho de carteira assinada, sem sair para desbravar a vida, sem colocar em prática a minha missão. O conforto me acomodou. Me contentei com migalhas, quando, na verdade, há um banquete à minha espera.

E aonde quero chegar com tudo isso, afinal?

Bem, eu não sei. A única certeza que tenho é a de que, muitas vezes, para que possamos sair do lugar e chegar aonde precisamos estar, a vida nos dá uma rasteira. Machuca, nos tira da zona de conforto, nos faz acordar de um transe aconchegante. Podemos até ter a impressão de que estamos afundando em areia movediça ou que o fundo do poço se aproxima, com um baque surdo e um gosto de sangue na boca.

Mas, tudo bem. Como diria uma amiga minha, quando chegamos ao fundo do poço, o único caminho possível é para cima. Ou seja, não há espaço para o pessimismo agora. O tempo de lamentar já passou, agora é mãos à obra.

Antes de chegar onde estou, foram necessários alguns pequenos terremotos. Da forma como vejo, quando estamos paralisados, é necessário que alguma força nos puxe ou nos empurre. Que nos sacuda da inércia e nos faça vibrar de novo.

E assim ocorre com todas as grandes transformações da nossa trajetória nessa Terra. As portas que se fecham são apenas para dar passagem ao que se estende logo à frente. Por mais árdua que seja, é essa a estrada onde devo caminhar.