Sobre pedir e confiar

Por que é tão difícil?

A vida é uma complexa rede de cooperações. Uma teia construída sobre nossas relações de confiança. Quando somos crianças, dependemos dos adultos e não temos cerimônia na hora de pedir ajuda para tudo. Choramos quando sentimos fome. Confiamos nos braços dos nossos pais ao nos ampararem nos primeiros passos e nos aprendizados em geral. Confiamos. Somos vulneráveis, e não sentimos vergonha disso. Na verdade, nossa vida depende dessa vulnerabilidade.

O tempo passa, os muros se constroem ao nosso redor. Queremos pedir, queremos nos conectar, mas as paredes não apresentam muitas brechas. As nossas, e as dos outros. Vivemos tentando espiar por entre esses espaços, ansiando pela conexão humana, real e verdadeira, sem constrangimentos. E, quando este contato acontece, a vergonha e o medo nos fazem desviar o olhar.

E não pedimos ajuda. Nos fechamos na nossa redoma de autossuficiência, correndo o risco de perder aquilo que nos torna humanos, pois não sabemos pedir. Sentimos medo de mostrar as fraquezas, ignorando totalmente o quanto precisamos uns dos outros.

Estou relendo o livro A Arte de Pedir, da maravilhosa Amanda Palmer. Relendo, porque da primeira vez, eu me apressei demais para chegar ao fim e perdi algumas coisas importantes. A Amanda é uma artista visceral. Foi a pioneira no crowdfunding de música, e o seu projeto teve a maior arrecadação da história do Kickstarter para um álbum musical.

Ao construir uma relação de confiança com seus fãs, Amanda criou uma rede de colaboração tão forte que conseguiu se libertar das gravadoras e se tornou uma artista independente, livre para produzir a arte para quem realmente importa: as pessoas que amam o seu trabalho. Como ela conseguiu essa façanha? Pedindo. Em seu livro, ela relata como, ao longo da vida, aprendeu que pedir não é algo vergonhoso. Que mostrar a sua vulnerabilidade, seja pedindo aos fãs um lugar para passar a noite, ou se jogando em seus braços num crowdsurfing durante um show, não a torna menos especial ou digna de reconhecimento como artista. Pelo contrário. Isso mostra um nível de confiança e entrega que é exatamente o que desejamos em nossos contatos com os outros. Aliás, todos os relacionamentos implicam em pedir alguma coisa, de certa forma. Nas palavras da Mrs. Fucking Palmer:

“Pedir é, em si, o elemento fundamental de qualquer relação. Constantemente e em geral de maneira indireta, muitas vezes sem falar, pedimos uns aos outros — aos chefes, aos cônjuges, aos amigos, aos funcionários — a fim de construir e manter as relações entre nós.
Você me ajuda?
Posso confiar em você?
Você vai me ferrar?
Posso meeeeesmo confiar em você?
E muitas vezes, por baixo disso tudo, essas perguntas derivam de nosso anseio humano, fundamental, em querer saber:
Você me ama?

A gente tem a impressão de que, quando está trabalhando, vendendo um produto ou serviço, pedir é algo totalmente fora de cogitação. É como mendigar. É demonstrar uma vulnerabilidade que, segundo o que nos ensinaram, não é adequada para quem trabalha de forma séria e profissional.

Já parou para pensar quantas oportunidades profissionais você deixou passar, por ter vergonha de pedir? Pedir para um amigo espalhar o seu currículo, pedir para divulgarem o seu produto, pedir ajuda para melhorar suas habilidades ou aprender algo novo?

No contexto geral da vida, essa parece ser a coisa mais difícil a fazer quando nos tornamos adultos. Até mesmo nas coisas banais — ou principalmente nelas. Quando conheci meu marido, tive vergonha de dizer que não sabia andar de bicicleta. Ao invés de rir de mim, ele disse “eu te ajudo a aprender”. Achei aquilo ridículo. Eu tinha trinta anos nas costas, não precisava pedir ajuda para uma coisa tão básica. Passei algum tempo pensando sobre aquilo, e me lembrei da infância. Eu não tive coragem de pedir para o meu pai ter um pouco mais de paciência comigo, de dizer a ele que eu tinha receio de cair e me machucar, e quando percebi que tinha medo de tirar as rodinhas de apoio, desisti de tentar e de pedir ajuda. Passei trinta anos sem o prazer de passear de bicicleta na praia, porque tive vergonha de assumir minha vulnerabilidade. Quando eu aprendi a pedir, eu finalmente perdi o medo e consegui pedalar pela primeira vez. A sensação foi maravilhosa.

Pedir e confiar são verbos intrinsecamente ligados. São a base das nossas relações com o mundo. Eu vejo você e você me vê, nós nos ajudamos, nos conectamos e esta troca é o que nos faz crescer. É o que nos sustenta. É o que nos faz sentir gratidão e perceber que todo mundo precisa de alguma coisa e é capaz de oferecer algo em troca. Quando realmente enxergamos uns aos outros, sentimos essa necessidade de ajudar.

Vou terminar este texto pedindo a vocês: assistam ao vídeo abaixo. E não tenham vergonha de pedir. Do outro lado tem um monte de gente disposta a estender a mão.