O dia em que a Paulista virou parque — e não só para ciclistas

Todas as chances que tive de caminhar sobre o asfalto da avenida Paulista foram em um contexto de transgressão. Foi assim quando participei de protestos contra o FMI, nos idos anos 1990, contra as comemorações dos 500 anos do Brasil, em 2000, e, mais recentemente , para acompanhar como repórter as sucessivas manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus, contra a Copa e o que mais aparecesse na agenda. Nessas ocasiões, caminhar livremente nos dois lados da via só foi possível após ações contundentes de punks que desafiaram a ordem policial e abriram caminho para a ocupação. Uma vez fechada para o trânsito, a avenida seguia cercada por (muitos) policiais que acompanhavam as manifestações até a dispersão, invariavelmente, violenta.

Além dos protestos, se quisesse ter a sensação de liberdade de ganhar com os pés um espaço totalmente dedicado aos carros e ônibus havia a opção de participar da Parada Gay, do Réveillon na Paulista ou da corrida de São Silvestre, as únicas ocasiões em que a avenida é fechada para o tráfego formalmente. Isso até a inauguração da ciclovia neste domingo que transformou a Paulista em uma filial do parque Ibirapuera, com bem menos verde, obviamente.

Mesmo fechada para o trânsito em toda extensão, a vocação da avenida para o congestionamento se confirmou até em dia de festa, só que de bicicletas. Centenas delas iam e viam sobre o asfalto, uma vez liberado, fez a ciclovia novinha ser preterida pela maioria.

Antes da inauguração formal, ciclistas que lotaram os vagões de metrô já tomavam a avenida, que ficou cheia, mas incrivelmente silenciosa. O som das correntes de bicicletas em movimento só era quebrado por um grupo que carregava caixas de som na garupa.

As bicicletas, nesse domingo, fizeram o papel dos punks nas manifestações e abriram caminho para a ocupação heterogênea que tomou conta da Paulista durante toda a tarde. Como em um protesto pacífico, casais, crianças, idosos, deficientes físicos e cachorros reivindicaram, mesmo sem levantar bandeiras ou entoar gritos de guerra, a apropriação do espaço público.

A multiplicidade de interesses que levaram os paulistanos a passar o domingo na Paulista demonstra a carência de espaços de convivência e a necessidade de seus moradores de simplesmente sair de casa e dos shoppings e fazer algo ao ar livre. Havia muitas bicicletas, mas também patins, skates, corredores e até uma mesa de ping pong armada perto do cruzamento com a Augusta. A ação faz parte de um movimento que pede a liberação da Paulista todos os domingos. Ainda que a inauguração da ciclovia tenha sido a primeira ação concreta para abrir mais espaços em São Paulo, é importante não restringir esse movimento aos adeptos das pedaladas.

Três em cada quatro paulistanos não possuem bicicleta própria, ou 73% da população, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada em fevereiro. Entre os 27% que possuem, apenas 6% pedalam diariamente, ou, proporcionalmente, pouco mais de 190 mil pessoas em uma cidade com 11,8 milhões. As ciclovias, portanto, não abarcam a necessidade da maioria.

A ocasião era a inauguração da ciclovia e, apesar de eu não ter pedalado, me permitiu uma realização: fotografar uma árvore encravada no prédio ao lado do Masp que sempre me chama atenção toda vez que passo por ela. Já tinha tentado fazer a foto da calçada e até de dentro do carro, no meio do cruzamento. Neste domingo, pude testar todos os enquadramentos sem medo de ser atropelada ou provocar um acidente. O resultado compartilho na imagem que ilustra este post.