Memórias do exílio: feridas abertas à espera da cura

Lembro-me de borrões. Pessoas preocupadas, minha mãe me passando ao colo dos meus irmãos mais velhos para dividir o tempo entre cuidar da casa, seis filhos, mais o filho da empregada doméstica e dar amparo a refugiados exilados fugindo da ditadura que tomava o Brasil naquele ano. De repente, parei de ouvir meus pais conversando em português e aquele sotaque estranho tomou conta da minha nova casa. Era janeiro de 1966, minha consciência levava toda aquela situação em tom de brincadeira. Mas as coisas mudaram repentinamente.

Eu só tinha cinco anos de idade e já tinha noção do que estava acontecendo. E aquilo não era mais uma diversão. Após alguns anos de fuga, de preocupações em estar atento à presença dos militantes, nada parecia melhorar. Mais pessoas passavam a frequentar nossa casa e nossa rotina sempre era tomada pela tensão.

Em uma situação rotineira com meus pais, Beno Orlando Burmann e Diva Terra Burmann, o que era para ser um momento comum preencheu meu corpo com medo. Um sequestro, eles diziam. Gritavam. Tentavam machucar meu pai. Colocavam medo. Fomos oprimidos. Era uma noite de segunda-feira. Enquanto meu pai lutava, minha mãe me abraçava forte, tentando acalmar seu filho mais novo que levava, com orgulho, o nome do patriarca. Explicou-me quem era o DOPS gaúcho, o que faziam e o que queriam de nós. Mas eu ainda não entendia. Por quê? Por que com o meu pai? Ele era um homem tão bom. Por que a polícia estava atrás dele?

Foi quando eu entendi a definição de ser bom ou mau em uma ditadura. Não existe diferença. Há a possibilidade de aceitar o que é imposto, ou ser taxado como bandido. Meu pai, até então deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sempre lutou pelo bem do povo. Pela democracia e pela justiça. E ele não era visto como alguém “correto”.

Quando pude perceber e me posicionar sobre o que acontecia é que as chacotas começaram. Ser chamado de “comunista” de “tupamaro” era cruel. Uma expressão pejorativa que fazia referência ao fato de ser filho de alguém que lutou contra os ideais de golpistas que não aceitavam a democracia.

“O único que se arriscou por esse Brasil, aqui no Rio Grande do Sul, foi o Orlando. Os outros não se arriscavam, de sair assim. O Orlando não parava, eu nem sabia, às vezes mandavam me buscar de noite, de madrugada, eu ia me encontrar com ele nas estradas, em outro lugares assim, por um ano.” Diva Burmann

A partir daqueles acontecimentos, nossa casa virou um tipo de quartel. Jango e Brizola passaram a frequentá-la e pediram suporte aos meus progenitores. Meu pai era importante para esses homens. Era visto como uma “ponte” para os que iam e vinham do exílio.

Naquele tempo, me recordo, alguns de meus irmãos já não moravam mais conosco. E eu já tinha crescido, finalmente entendia com clareza o que estava acontecendo. Mas, mesmo assim, era algo que me incomodava, que não deixava meus pensamentos se acalmarem.

A maior vontade dos meus pais sempre foi voltar para Ijuí, cidade onde eles iniciaram a vida, para que pudéssemos continuar a vida livremente. Mas foi visível que depois de tanto sofrimento para se adaptar, fugindo e atento enquanto brincava com os meus amigos — sempre preocupado com o DOPS — o mais difícil era retornar para uma vida “normal”. Era 1977. Eu já tinha 12 anos e iniciei uma fase nova na minha vida, que no início foi tomado por tantas expectativas…

Quanta dor. Dificuldades para se acostumar novamente com o português. Para entender tantas perguntas dos meus novos colegas na Escola Estadual de Ensino Fundamental Ruy Barbosa. Não tinha coragem de reclamar. Muito menos de chorar em frente aos meus pais. Por isso, nesse tempo, o silêncio foi meu melhor amigo.

O fim deste pesadelo demorou a chegar. Parecia uma eternidade. Mas em 1979 ocorreu a abertura política no Brasil e uma nova luz se acendeu. Neste tempo, um pouco mais adiante, em 1982, eu assistia pela TV À campanha pelas Diretas Já, parecia que as coisas estavam melhorando. Nesse meio tempo aprendi a fazer novas amizades, a humildade que aprendi com o povo uruguaio, e que trago até hoje em minha vida, me ajudou bastante.

Em 1988 finalmente foi criada uma Nova Constituição e foram sendo apagados os rastros da ditatura militar no Brasil. O problema é que novas leis não apagaram tudo o que a ditatura impôs na minha vida e de minha família. Os traumas são para sempre.

Minha mãe sempre repetia: “não se nega ajuda a quem necessita”. E foi assim que eu cresci. Que aprendi valores de solidariedade e de amparo. Que entendi e vi com meus próprios olhos pessoas que se diziam amigos de meu pai e o delatavam, sem culpa nenhuma.

Mas a vida segue. Os ideais semeados por meu pai se mantêm firmes em mim. Acredito na verdade e na força da palavra de um homem. Sim, a vida segue. Sempre continua. Passando ou não por problemas. O importante é aprender lições com o que aconteceu. Ser humilde como o povo uruguaio que sempre nos acolheu muito bem e ser posicionado, lutar pelo que se acredita, reafirmar aos nossos filhos sobre a liberdade, a igualdade de direitos e deveres e o respeito ao ser humano.