É tempo de parar as confidencias (Hilda Hist*)

Primeira

Teus esgares, de repente,
Teus gritos
Quem os entende?
E todos os teus ruídos
Teus vários sons e mugidos
Quem os entende?

E foi assim que o poeta
Assombrado com as ausências
Resolveu:
Fazer parte da paisagem
E repensar convivências.
Em vão tenho procurado
A gloria das descobertas.
Em vão a língua se move
Trazendo a tona segredos
Em vão nos locomovemos.
Para onde pés e braços?
Até quando estas andanças
E até quando estes passos?

Distantes os hemisférios
E as relíquias da memória.
Tão distante a minha infância

Pudor, beleza, invenção
E o ouro da minha trança
Não teve sequer canção.
Cresci tão inutilmente
Quando devia ficar debaixo das laranjeiras
À sombra dos laranjais.
Cresci, elegi palavras
Qualifiquei os afetos.
Vestígios de madrugada
Diante dos olhos abertos.
Claridades, esperanças,
Em tudo a cor e a vontade
De ver além das distâncias.

Depois as visões, as crenças
Algumas falas a sós
Premeditadas vivências
Graves temores na voz.

Era ou não
Abrada adolescência?

(Trecho extraído de ‘Da Poesia’, editora Companhia das Letras, 2018. Publicado originalmente em ‘Roteiro do silencio’, 1959)

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