Meninos, não me façam ser grossa
Vocês me fizeram ser grossa. Por favor, não me façam ser grossa.
Tenho essa filosofia, quase um lema de vida, de tratar os outros como gostaria de ser tratada. A rotina já é difícil o suficiente, o sofrimento já é tanto, que ninguém precisa ser grosseiro assim, de graça. Tento sorrir e ser gentil, na medida do possível. Não custa nada e não dói, mas pode fazer a diferença no dia de alguém.
Mas vocês, meninos, têm me obrigado a ser grossa. Porque eu tento de todas as formas, envio todos os sinais, e vocês não entendem. Vocês só funcionam na base da grosseria, do corte, do desnecessário, do desenho. Poxa.
Um dos meus amigos mais antigos aqui em Los Angeles começou a agir de um jeito meio esquisito. A gente se conhece há uns cinco anos, embora para mim nunca tenhamos sido próximos como sou dos meus amigos brasileiros — existem assuntos sobre os quais não falamos, barreiras culturais e linguísticas que respeitamos. E eu tinha um namorado. Desde que fiquei solteira, porém, ele começou a insistir mais para sairmos. E de um jeito estranho.
“Tenho sentido mais a sua falta do que o comum”, ele me escrevia. Ao que não respondia, porque o sentimento não era recíproco. Eu não sentia a menor falta, por mais horrível que isso possa soar. “Algo muito esquisito aconteceu, meu pai acabou de perguntar sobre você”. De novo, fiquei sem reação. Afinal, o que você quer? Será que acha que somos mais íntimos do que eu acho que somos? Será que nossas culturas são diferentes assim?
Não, explicaram minhas amigas americanas que analisaram as conversas. Ele está a fim de você, embora tenha medo de levar um corte, então não vá direto ao ponto. Homem é homem, em qualquer língua e cultura. Parei de responder. Quem sabe ele se toca?
Fiz o mesmo com o coordenador do meu curso de pós-graduação. Não, você não leu errado. O coordenador. Do meu curso. E para isso nem precisei de análise externa: ele estava dando em cima de mim, descaradamente, sem escrúpulos, sem pudor. Mas como na maioria dos casos de assédio, ele me colocou em uma situação extremamente delicada, pois eu ainda dependia dele para completar meus estudos no exterior. Ele era meu ponto de referência para esclarecer dúvidas que iam desde disciplinas a orientações em relação à minha carreira. Foda.
Eu detesto ignorar as pessoas, detesto enrolar, acho ghosting a pior invenção do século 21. Ninguém merece ser ignorado, e isso frequentemente machuca mais do que uma resposta curta e honesta. E detesto mais ainda ser grossa, fazer cara feia quando cruzo com a pessoa no corredor. Mas meninos, vocês têm me obrigado a fazer tudo isso. Com essa atitude de ir comendo pelas beiradas, de indiretinhas, de dar em cima disfarçado de querer ajudar.
Eu trato vocês do mesmo jeito: esperando que vocês se toquem do que eu quero. Nesse caso, é que me deixem em paz.