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ia te mandar aquele oizinho despretensioso, inocente, mas você sabe o que eu quero, impossível não saber que não paro de pensar em você por um só segundo, que repasso suas frases, uma por uma, que lembro de você no sofá me olhando daquele jeito. meu deus, aquele jeito seu de olhar… ou não, você nem imagina, falo isso partindo do que eu mesma sinto, talvez você esteja cagando pra minha existência, e eu sei que prometi não fazer papel de trouxa em dois mil e dezoito, mas esperei passar da meia noite pra ter uma desculpa pra abrir aquela janelinha, ver seu rosto e poder dizer alguma coisa. eu não poderia fazer isso antes sem me odiar. sim, é verdade que mesmo sem contato já me odeio um pouco porque não era nem pra eu sentir isso tudo, era pra te ver, pensar num casinho, sexo gostoso e sem compromisso. sem querer saber da sua vida. sem revelar a minha. sem ver um livro na estante e sentir vontade de te mandar um poema que me lembra você.

desculpa por ser meio doida, não poder confiar em mim mesma, nas minhas decisões. é que você nem sabe da missa a metade, não sabe que eu curto uma relação intensa, conflituosa, escolho justo as pessoas que vão me atormentar o juízo. aquelas que me deixam na areia movediça, implorando por socorro com um bracinho levantado e a areia já chegando no pescoço, pra ser salva e pensar “ufa, tá tudo bem agora” e horas depois me sentir na corda bamba novamente implorando por uma outra saída. eu gosto de gente que me faz cometer loucuras.

reconheci isso tudo em você, sabia? você me dizendo que não quer compromisso, expondo tudo que não tínhamos em comum, diferenças inconciliáveis, e eu só ouvia um canto de mim dizendo “abre mão, vai, se joga, deixa ela te desgraçar”. já ouvi isso tudo em mim antes, eu sei como é, eu sei seu jeito, eu sei o meu e principalmente: eu sei onde isso vai parar. daí fui sensata pra caralho, dá um orgulho disso: olha como sou madura, mas não posso dizer que você não me afetou, não me afeta, não mexe com uma quantidade absurda de sentimentos que estavam soterrados em mim.

com quantas pessoas saí, beijei, transei, nesse último um ano, sem sequer me envolver, mas com você foi diferente porque vi nos seus olhos aquilo que mais me acaba e eu quero, como um alcoólatra quer aquele primeiro gole da cachaça rasgando a garganta. mesmo sabendo que é errado, ele quer, quer deixar a vida naquela garrafa, naquele bar, e eu queria acabar com minha pouca estabilidade emocional me rasgando por você. é um monte de “e se…” rondando meu peito mas minha cabeça vem e fala: “NÃO, não faz isso de novo, não, que dá merda e você sabe”. engulo as possibilidades e transformo tudo em lágrimas que escondo no lençol longe dos olhos dos outros.

escondo porque constato um pouco constrangida que me apaixonei. eu sei, parece impossível uma paixão já tão rápido, e, porra, sei que isso seria treta após treta, a gente não foi feita pra ficar juntas. não, a gente foi feita mesmo é pra quebrar o pau, xingar, chorar e depois se reconciliar com sexo acreditando que agora vai dar certo, vez após vez, até a gente estar tão desgastada que não consegue mais se ver sem ter vontade de mandar a outra à merda.

eu não quero ser o eu lírico de atrás da porta, do chico, eu podia vir aqui falar que te quero, que vamos tentar, que vem devagar que eu te ajudo a se curar, que eu sinto falta de tudo que não fomos nem seremos, mas eu não posso me dar ao luxo de me entregar de novo, de me foder de novo, por isso disfarço essas sentimentalidades com os goles do meu vinho e me limito a enviar poucos caracteres enquanto acompanho uma série que me distrai de você.

“Feliz ano novo :)”