Cigarro de Palha

Velho Zé

Eram tempos difíceis quando ele veio para a cidade. Era um homem simples e do campo que apenas conhecia a linguagem da terra da lavoura de café, de milho, e do feijão. A enxada era sua companheira de todos os
dias, assim como seu filho primogênito que o acompanhava nesta labuta, pois lavrar a terra era seu oficio. Perdeu seus pais ainda jovem, distanciou-se de irmãos e primos, casou-se cedo e sua família resumia-se a esposa, filhos e a terra. Teve muitos filhos para ajudar na lavoura, no eito com a terra, e que está tão pouco lhe pertencia, pois pobre e preto só tem terra em baixo das unhas… Homem negro, alto, seu silencio era quase uma oração. Pouco falava de seus pais e irmãos, e os filhos e netos cresceram com este abismo em suas histórias…. Quem seria seus avós? Como viveram? Aquele homem taciturno constituiu uma nova geração, deixando atrás seu passado, suas raízes, e na cidade longe do convívio com a terra que lhe tirara um pedaço da vida.

A cidade, o asfalto substituiu a estrada de chão, a carroça de tração animal e os carros de boi, foram substituídos pelo ônibus, a sandália de couro que trazia nos pés, foi substituída pela chinela havaiana, pelo sapato fechado de couro, tendo que usá-lo no frio e no calor que ferindo além de sua pela também sua alma…quem conheceu antes este homem, vê que ele não era mais o mesmo, depois do êxodo rural.

Quando no campo, a lembrança que vem era ele sentando na porta da casa, terreiro de chão batido e terra vermelha, pelas Minas Gerais. Trazia em suas mãos uma palha de milho seca, e um rolo de fumo, preparando seu cigarro, este ato era sagrado. O homem preto como a noite, velho, alto de cabelos brancos como algodão e de chapéu de couro, trajava uma calça marrom e camisa de tergal branca de um tom amarelado pelo tempo de uso, levava horas realizando aquele ato antes de fumar. A alegria e o prazer em seu rosto, quando dava a primeira tragada, em seguida uma xícara de café para acompanhar o ritual.

Na cidade, já não ousaria a repetir a mesma cena, sentia que quase tudo lhe era proibido assoviar, cantar, andar descalço, o pior, preparara seu cigarro de palha. Ele resistiu por muitos anos a entregar-se a estas privações. E seu contato com a terra e a enxada se deram de outras formas. Para os filhos era duro, mas ele se sentia feliz.

Todos os dias despertava as quatro horas da manhã, preparava o café, arrumava sua marmintinha, colocava seu chapéu de couro, e a enxadinha nas costas e rumava pelas ruas da cidade ainda escuras, ao encontro de um transporte que o levaria para as lavouras de café, os chamados boia-fria. Nesta travessia ele acompanhava suas duas filhas, que juntos no silencio da madrugada iam rompendo o amanhecer, ele para a roça (campo) e elas para as fabricas… para os três este momento era intenso, pois o silencio e os gestos diziam mais que qualquer palavra.

No fim do dia o sol se punha lentamente e lá vinha ele, com sua enxadinha nos ombros, e uma mistura de cores do negro de sua pele com a o vermelho de terra, contrastando com a cores da cidade. Percorria o mesmo caminho realizado pela manhã, sentimentos bons no reencontro do fim da tarde… em casa seus instrumentos de trabalho tinham seu destino certo, o descanso, assim como ele para recomeçar no dia seguinte. Por vários anos estas cenas transcorreram…

Assim viveu José, meu pai com o corpo e alma divididos, entre o campo e a cidade, a poeira e o asfalto, o silencio e os gestos, preparando todos os dias seu cigarro de palha.

13.08.2016 -Dia dos Pais — Para meu Velho Zé.

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