Nem todo jornal faz jornalismo

Parece contraditório o título deste texto e talvez seja mesmo. Essa reflexão nasceu em uma discussão em sala de aula com formandos em jornalismo. Discutíamos características do webjornalismo quando estacionamos numa questão cara: qual a diferença entre textos que reproduzem senso comum e textos que nos levam a conhecer e refletir sobre temas de interesse coletivo e público publicados no mesmo espaço. De pronto respondi: um é panfletário, o outro é jornalístico. Mas, reconheço, não é tão simples o que define os limites — muitas vezes tênues — entre um e outro. Posto aqui a minha contribuição ao debate a partir de livres enunciados.

Fonte: freepic

"É jornalismo aquilo que é produzido por veículos jornalísticos ou grandes grupos de comunicação". Nem tudo que um grande veículo de comunicação publica é jornalismo. Os grandes veículos de mídia — concessão pública de rádio e TV e/ou jornais e revistas online e impressos — reservam espaços para publicidade, entretenimento, propaganda, jornalismo, comunicação digital, interatividade e comentários não mediados, entre outros tipos de conteúdos. Nem tudo que é assinado por um grande grupo de comunicação é jornalismo. Opiniões que incitam a violência, por exemplo, não são jornalismo. São senso comum disseminado em um espaço de mediação pública. Devem e podem ser questionados e seus autores responsabilizados, mas não dá pra chamar de jornalismo ou mau jornalismo porque não é jornalismo.

"É jornalismo tudo aquilo que é escrito e produzido por jornalistas". Deveria ser uma verdade. Mas na prática não funciona assim. Há jornalistas com diploma que não reconhecem a ética da profissão. O jornalismo da busca da verdade histórica, reconstituição a partir da memória, visibilidade de atos públicos, investigação de fatos sociais, análise de temas emergentes. Achismos, denuncismos e textos baseados em declarações levianas não são jornalismo porque estão à margem da ética profissional. Não cumprem a função social mesmo que sejam escritos por jornalistas e publicados em jornais.

"É jornalismo o relato dos fatos em tempo real e os furos noticiosos". Já foi. Há 20 anos esse espaço começou a se abrir para outras vozes. O jornalismo no tempo da mediação centralizada em escassez de canais era regido pelo tempo da programação estabelecida por veículos de massa. Havia disputa pela primazia da notícia. Mudou com a internet. O saber antes, publicar antes virou confirmar antes, apurar antes. O furo factual não se aplica mais a fatos cotidianos. O lugar do primeiro alerta foi deslocado do jornalista para o cidadão. A mídia americana atribui esse ponto de virada ao caso do avião que fez aterrisagem forçada no Rio Hudson. Um fotógrafo estava ali e postou primeiro no Twitter. Rádios, TVs e jornais começaram a cobertura 15 minutos depois do post.

"É jornalismo a cobertura ao vivo de fatos". Pode ser, mas nem sempre. A cobertura de manifestações políticas seletivas, por exemplo, é publicização de uma causa. Seja por parte da mídia independente, seja pela mídia chamada "de referência". O ao vivo jornalístico deveria trazer diferentes pontos de vista, análise plural, memória histórica. Uma cobertura marcante para esse 'fazer jornalístico' aconteceu em 2003. A CNN, CBS, NBC e outros introduziram repórteres embedados na guerra contra armas de destruição de massa no Iraque. Repórteres "embedados" estiveram ali relatando um ponto de vista. Soube-se mais tarde que as armas de destruição de massa nunca existiram, mas os canais de TV estavam muito ocupados relatando o tempo real e não abriram espaço para investigar o contexto histórico. Na época se atribuía relevância ao papel dos repórteres, hoje olhando pra trás percebemos que eles não estavam exatamente fazendo jornalismo, estavam fazendo propaganda de guerra.

"Coluna de opinião é jornalismo". Esse talvez seja a mais controverso enunciado. Opinião e colunismo são gêneros do jornalismo. Portanto, deveriam seguir a ética do fazer jornalístico, ser construídos com técnicas de apuração, dados confiáveis, contextos históricos que afastem o jornalista do achismo, do xenofobismo, do desrespeito à legislação. É sempre bom retomar a tão defendida liberdade de expressão. Ela está explícita no texto constitucional no parágrafo dos direitos e deveres individuais e coletivos. Mas vejam que ela está colocada depois dos direitos fundamentais à cidadania, dignidade da pessoa humana, pluralismo político, livre iniciativa e prevalência dos direitos humanos. Vem depois porque o meu direito de liberdade de expressão pode ir até o limite do respeito aos direitos fundamentais.

Então, o que é jornalismo? Jornalismo é aquilo que se encaixa em uma ética e uma deontologia profissional. A ética diz respeitos a valores morais e princípios que regem um comportamento, seja ele de um grupo, uma comunidade, um profissional. A deontologia é um conjunto de regras e obrigações para a prática profissional. Esse conjunto de regras está em transformação, não tenho dúvida. Mas ele tem um importante papel de delimitar o espaço de fala do jornalismo. Fora dele orbitam vozes à margem que também tem o direito fundamental de expressar opiniões, mas não possuem as mesmas obrigações deontológicas. Se o jornalismo como campo profissional, empresarial e acadêmico conseguir avançar no reconhecimento desse espaço, talvez a sociedade compreenda melhor e reconheça, enfim, o jornalismo como representatividade social. Nem que seja um jornalismo assumidamente produzido para segmentos sociais, políticos, editoriais, mas essa é outra discussão.