
Os surpreendentes silêncios de Vitória
Vitória, no Espírito Santo, é daqueles lugares surpreendentes e encantadores. Surpreende pelos silêncios, encanta pela beleza.
A região banhada por águas marítimas e cercada por montanhas emoldura lindas paisagens por todos os lados. Só em Guarapari, na grande Vitória, são 46 recantos praieiros. Tem ângulos, tamanhos e belezas ao gosto do banhista.
Fica entre a malandragem barulhenta do Rio de Janeiro e o axé malemolente da Bahia. As praias são apreciadas mesmo pelos mineiros que passam o verão por aqui. Mas eu, desde o Rio Grande do Sul, pouco havia ouvido falar do Espírito Santo. Não fui alcançada pela propaganda turística, se é que existiu. Lembro apenas de dois contatos: as remotas notícias das areias monazíticas de Guarapari que pela crença popular curariam as dores articulares – veja meu pai e meu irmão são reumatologistas. E pelo professor Fábio Malini da UFES que estuda redes sociais e nas suas palestras costuma também falar com entusiasmo sobre Vila Velha, na grande Vitória.
Além da não-propaganda, há ainda o silêncio das ruas e das praias expresso em placas de sinalização. É proibido fazer barulho na praia. Nada de carro com caixa de som, amplificador, roda de samba. Praia por aqui combina com a paz e os sons da natureza. As ruas da cidade te transmitem sossego. Trânsito mesmo vi às 7h e às 15h. E sem congestionamento. Nenhum. Nas outras horas do dia, tem mais pessoas e bicicletas do que carros na rua. E tem ciclovia. Das boas.
E tem o silêncio das manifestações. Com a aprovação do Uber em Vitória, taxistas foram às ruas protestar. Lançaram cinco tiros de rojão, não interromperam ruas, não provocaram congestionamento. Demonstraram pacificamente o descontentamento. E a vida segue.
Mas tem um outro silêncio, do tipo corrosivo, entranhado na cultura local. O desconfortável silêncio da sociedade frente ao machismo. Ele vive nas praias, nos táxis, no Uber, nas ruas. Toma conta dos homens, das mulheres, do artesanato. As frases são expressas por capixabas. naturalmente em diferentes circunstâncias. Mulher é como macarrão tem de enrolar, enrolar bastante pra depois comer, está em ditos de peças de artesanato. Agradeçam pelos homens ainda mexerem com vcs na rua, de um professor de educação física. Saudades do fio fio, na boca de uma mulher de meia-idade. Eu que vivo no Rio Grande do Sul, sou professora de graduação em jornalismo, me senti agredida com tais frases anacrônicas, ofensivas. Como assim saudade do fio fio? As capixabas não deveriam estar ressoando Chega de fio fio, no embalo das brasileiras do Think Olga? Será que elas conhecem o Olga? Fico com a impressão de que não. Não conhecem. Precisam conhecer, entender, falar.
Esse silêncio opressor pode ser rompido com conversa, com debate, com leituras. Mas se nem sobre o turismo no Estado se fala, a cultura e a identidade parecem estar adormecidas em estereótipos. E carregam preconceitos velados, subentendidos, reproduzidos superficialmente em frases generalistas de origem duvidosa. Por certo, não é essa a melhor expressão da cultura capixaba. O Estado é belo demais para se render à opressão.
Quem poderia quebrar os silêncios capixabas? Todos. A começar por este texto. Quantas mais formas de expressão, questionamentos, artes, mais diversidade, maior o espalhamento de ideias. E que essas manifestações ecoem pelos recantos praieiros e façam a beleza natural também refletir o encanto do respeito nas relações entre homens e mulheres.