O leão, a borboleta e o veado branco.

O veado branco

O livro Meia Noite e Vinte do Daniel Galera fala sobre a minha geração, hoje nos seus 30–40 anos. E fala sobre este momento em que as esperanças, planos e sonhos da juventude vão esbarrando na realidade e no cinismo da vida adulta, das desilusões da vida profissional e amorosa.

A (melhor) personagem Aurora conta que decidiu seguir carreira na biologia motivada pela descoberta, entre os livros de sua mãe, de uma espécie de bestiário, pouco científico, listando animais raros, com uma aura de mistério, conhecidos por meio de relatos duvidosos. Entre esses bichos havia um do nosso pampa: o veado branco. A busca da personagem por esse animal, simbólica ou não, assim como a busca pelos sonhos de juventude, foi ficando para trás, esquecida embaixo das centenas de páginas da tese de doutorado sobre cana de açúcar.

(SPOILER ALERT) No fim do livro, em um momento meio realismo fantástico, quando Aurora estava triste com os rumos da sua vida adulta, ela encontra o veado branco. Talvez o ápice do romance, um tracinho de otimismo e alegria num cenário de desilusão.

No meu mundinho particular, eu pensei: qual seria o veado branco do criativo publicitário?

O leão

O maior prêmio de criatividade publicitária é o leão de Cannes. Criticado e questionado como todo grande prêmio (vide Oscar), por seus critérios, politicagens e até falcatruagens.

Mas, para quem trabalha todos os dias pensando no que é novo, no que nunca foi feito, no passo adiante da sua área (definições de criatividade) é inegável o valor de um evento que reúne grandes profissionais para discutir, julgar e reconhecer o que de melhor tem sido feito no mundo em propaganda.

Neste ano, eu tive a experiência de estar entre estes melhores. Estar no shortlist de Cannes, para mim, criativo fora do grande centro e das grandes verbas, trouxe um pouco da sensação feliz da Aurora, vislumbrando entre as árvores o animal místico que um dia representou seus sonhos.

Mas na minha história tinha um bicho e uma alegria a mais.

A borboleta

O case que ficou entre os melhores da categoria promo & activation foi feito para a Fundação Thiago Gonzaga e a famosa borboleta do Vida Urgente.

Eu e o Mosquito (meu dupla aqui na Morya e quarto bicho da história) fomos chamados para fazer a identidade visual e divulgação da festa de 20 anos deles. E por isso conhecemos a Diza. A arquiteta, também criativa, que transformou a tragédia da perda do seu filho, croqui indecifrável do destino, no empreendimento gigante de salvar os filhos dos outros. Ouvir toda a história dela e a dos outros pais foi uma das experiências mais transformadoras das nossas vidas. E a gente pensou: se todo mundo passasse por essa experiência, ninguém mais dirigiria bêbado.

Assim nasceu o Carona de Pai.

A selva

A identificação com a desilusão geracional retratada no livro do Daniel Galera tem uma camada a mais para quem é publicitário. O nosso mercado (e o capitalismo e o mundo) é visto por todos, e às vezes é mesmo, uma selva de purpurina sem propósito, onde se trabalha sem se ter um porquê muito nobre — a não ser pagar os boletos no fim do mês.

Encontrar uma causa tão verdadeira como a do Vida Urgente, em que o nosso suor poderia fazer uma diferença positiva no mundo, quiçá até salvar uma vida, é o renascimento daquela chama de juventude, que crê em si mesmo e na importância do seu próprio trabalho.

A borboleta, mais que o leão, foi o meu veado branco particular.