Christmas Memories

Algumas noites duram mais que outras.

Tem sido assim há quatro natais seguidos. É dia 24 de dezembro, o frio está quase congelando a minha alma, mesmo com uma tonelada de casacos ao meu redor. Olho vez ou outra para trás e não vejo absolutamente ninguém, apenas as minhas pegadas na neve caída da calçada. Os carros passam com uma velocidade que meu cérebro não consegue acompanhar, tudo que chega à minha mente são raios produzidos pelos faróis. Provavelmente todos estão se perguntando o que um garoto estaria fazendo sozinho, caminhando em uma ponte cheia de neve e um frio desgraçado, em plena noite de natal. Alguns poderiam achar que eu era apenas um mendigo tentando dissipar o frio com a caminhada, mas eu não parei até chegar ao lugar exato que queria.

O ferro, que impedia as pessoas caírem da ponte até o rio logo abaixo, estava parecendo um cubo de gelo, mesmo com a luva grossa que eu vestia. Espalhei um pouco da neve com o pé até abrir um espaço para que eu pudesse me sentar no chão com as pernas soltas para o rio. Minha calça ficou molhada em poucos momentos, mas não me importei. Também foi assim nos três natais passados. Respirei fundo e encostei a testa no ferro que ficava na altura do meu queixo. Após um instante, levantei meu olhar para a fonte de luz que brilhava com maestria no meio da imensidão de água. Uma árvore razoavelmente grande se estendia de dentro do rio, cheia de luzes alegres que refletiam em tudo ao redor, repleta de vida. Seu toque macio chegou de leve no meu ombro e sua voz soou calma.

— Ei, tá sangrando de novo. — olhei para o meu peito, onde seu dedo trêmulo apontava. Ele estava sentado ao meu lado. Seu olhar era contemplativo e terno, depois virou-se para olhar as luzes da árvore.

Havia uma mancha de sangue no lado esquerdo da minha camisa de malha cinza, quase completamente oculta entre os casacos.

— Tem sido assim por um longo tempo, não é? — continuou, ainda com os olhos nas luzes coloridas.

— Às vezes eu nem percebo, às vezes eu ignoro. — baixei os olhos mais uma vez para a mancha, depois segui o olhar dele para as luzes. — Não importa de verdade.

— Essa árvore de natal carrega muitas histórias. — seu olhar era suplicantemente pesaroso. — Lembra quando passávamos algumas noites sentados aqui, admirando-a?

Dei uma leve risada triste e me virei pra ele.

— Eu lembro de cada detalhe. Já são quase quatro anos e eu ainda me lembro de tudo. — tentei dar o meu melhor sorriso, mas talvez tenha falhado em algum instante.

— Sua memória sempre foi a melhor de nós dois, isso é um fato. — agora ele tinha um sorriso acanhado no rosto, o mesmo que eu lembrava todas as noites antes de dormir. — Mas me lembro de muita coisa também.

— Uma vez invadimos um depósito e abrigamos vários gatinhos de rua que estavam passando frio numa noite chuvosa. A gente quase foi pego. — encostei a bochecha no ferro frio, esperando ficar mais confortável com a lembrança.

— Teve o dia em que derramei toda a mostarda do frasco sem querer dentro do seu sanduíche. — ele deu uma gargalhada ao lembrar disso. — E você ficou todo sujo, parecendo uma criança.

— Aquilo foi sacanagem, mas nem estava tão ruim assim.

Alguns segundos se passaram com o nosso silêncio. Procurei a mão dele por um instante e a apertei com força quando encontrei. Meu polegar acariciou a parte de cima dela logo depois.

— Esse é o quarto natal que não passamos juntos. — uma lágrima correu involuntariamente pelo meu rosto e não fiz questão nenhuma de enxugá-la. Outras vieram logo depois.

Sua mão não deixou a minha por nenhum instante.

— Éramos novos quando a vida resolveu trapacear a gente. — começou ele. — Ela segue o rumo que quer, não podemos fazer nada a respeito. O ciclo da vida nos diz que uma hora todo mundo vai embora, voluntária ou involuntariamente.

— Eu não estava pronto. — consegui dizer. — Na verdade ainda não estou.

Agora nossos olhos se encontraram, um refletindo o outro.

— Ninguém nunca está. — sua mão se separou da minha e ele fez um gesto com as duas, que representavam o voo de uma ave. — Voe como se você fosse um passarinho descobrindo o poder de suas asas pela primeira vez.

Ouvimos alguns fogos quando deu meia-noite.

— Feliz natal. — gaguejei.

Era dia 25 de dezembro.

— Feliz natal. — seus dedos finos seguraram meu queixo. — Eu vou estar no seu coração e na sua memória pra sempre, você já tem uma parte de mim dentro de você.

Comecei a chorar feito uma criança. Meu peito ardia a cada palavra sua.

— Eu te amo. — fechei os olhos para dizer isso.

Seu toque sumiu. Quando abri novamente os olhos ele não estava mais lá. Não havia nenhuma mancha na minha camisa. Não havia rastros na neve de que há poucos instantes um garoto estava sentado ali. Ele não estava. Ele não exista mais, exceto nas minhas lembranças e no meu coração. E aquela foi mais uma noite que demorou mais que outras para acabar.