Nietzsche contra Idealismos

Talvez a principal meta de Nietzsche tenha sido o combate ao idealismo. Dizia que era preciso viver o mundo verdadeiro, da matéria e das sensações sem apelar para resoluções metafísicas distintas. Defendendo uma forma de Perspectivismo, o filósofo rejeitava a maneira como os ideais estavam representados nas religiões monoteístas e pela filosofia tradicional, que segundo ele, afetavam os valores do homem e impediam que novas virtudes pudessem ser construídas. Contudo, é preciso antes esclarecer alguns conceitos para entender seu pensamento. Sendo influenciado na juventude pelas obras de Schopenhauer, que definia o mundo como movido por uma vontade insaciável, Nietzsche modificou e concluiu que haviam duas forças que controlavam a natureza, a ativa e a reativa, e baseava a explicação da realidade através delas. O mundo desde a psique humana até os átomos seriam movidos pelas forças que tentavam se sobressair às outras, essas do qual seriam as ativas, e outras forças que aceitariam a relação passiva, as reativas. Algo comum também na filosofia Hegeliana e Marxista. Ele usou esse critério para criar a vontade de potência, um conceito que não será necessário a explicação aqui pelo objetivo do texto ser a analise dos idealismos, mas basicamente a realidade em Nietzsche se resume ao mundo como percebido por nós, como aparece em nossos sentidos e como é analisado pela consciência, apenas há uma realidade possível, porém, em contramão também defende que diferentes indivíduos percebem a realidade diferentemente. Essa mistura quase que pontual entre Objetivismo e Relativismo foi chamado de Perspectivismo.

A filosofia nietzschiana é caracterizada por inúmeros jogos de palavras que formam sua epistemologia, embora algumas dessas palavras não tenham uma definição própria e variando o sentido no período pós-moderno. O niilismo pode ser visto como a chave do pensamento por estender-se como alicerce, então será o primeiro a receber uma definição: Niilismo comum: Falta de princípios que regem a moral; viver calcado no nada; deixar a vida levar o próprio eu. Niilismo Nietzschiano: Valores superiores como ordenação dos princípios; processo em que o indivíduo nega o mundo real e material para viver idealidades através de critérios. O niilismo de Nietzsche recebe o sentido contrário ao senso comum dentro de sua visão, e o mais estranho é que: ELE NÃO DEIXA ISSO CLARO! Era uma característica própria de escrever em aforismos, o que acaba dificultando ainda mais interpretar as obras. A crítica dos niilistas (sob sua definição) estava relacionada ao fato deles preferirem viver coisas inexistentes invés de encarar a realidade, o homem ao longo dos anos estava ficando dependente de amenizar sua inconformidade com a falta de sentido na vida e precisava incluir valores superiores como reconforto, para Nietzsche isso era fraqueza. Esperar vida eterna após morrer simboliza eufemismo contra o destino. Negar a terra em nome de ideais inexistentes, negar a própria vida em nome da própria imaginação, quanta estupidez, diria ele. A sociedade sem classe do socialismo, o paraíso cristão, o mundo das ideias de Platão, o mundo cosmológico de Aristóteles, o racionalismo cartesiano e dentre outros pensamentos são exemplos de idealidades criticadas na filosofia nietzschiana. O primeiro ídolo a ser desconstruído em sua obra é Sócrates. “Se Nietzsche é contra quem vive através de princípios e ideais, ele é a definição de Niilista comum que propaga a crença no nada?” Longe disso, o bigode grosso não dirige sua conclusão para que devamos viver fora de princípios, da moral e tudo mais. Pelo contrário, ele diz que os humanos devem destruir os valores antigos e criar novos que correspondam ao mundo da percepção e das sensações, da verdade, não fugindo dele tal como é, o que dizia ser a transvaloração de todos os valores. “Deus está morto! Deus continua morto! E nós os matamos!” — Nietzsche. A Gaia Ciência, p.125. O que Nietzsche queria dizer com Deus está morto? Justamente denunciar uma maneira de pensar, anunciar o fim dos fundamentos transcendentais da existência, dizer que uma forma de pensar morreu, que idealismos não são mais necessários na conduta do homem.

Recebendo influências dos estoicos, especialmente Sêneca, Nietzsche compartilha a reflexão de que o passado quando analisado através das boas lembranças -nostalgia- e o futuro quando imaginado com otimismo -esperança- são nocivos. Por quê? Pois produzem consequências sobre a vida. É entendido como male quando alguém está reconstruindo o que já passou, ou antecipando o que irá acontecer. Segundo o filósofo, permanecer olhando ao que já se foi é uma estratégia de evasão para o que acontece no agora. O indivíduo descobrindo a possibilidade de decepção e infortúnio refugia-se num passado que lhe foi generoso. O passado e o futuro não intensificam a vida, aceitar o presente independente dos erros é uma busca permanente com o real, conceito que chamou de amor-fati. Mas foi além disso, o amor ao real também inclui não idealizar as pessoas com quem você tenha contato, não idealizar qualquer sentença de contato ao mundo que possa tirar a essência do próprio significado. Pensar que estudar na melhor universidade, que possuir dinheiro ou fama são atributos diretos da realização são erros graves na sua perspectiva, o ideal não é uma possibilidade porque não é o que vivemos, aceitar o presente de forma concisa seria o melhor conselho dado por Nietzsche. Mas como fazer isso se o mundo perdeu todos os sentidos? Todos os Deuses? Todas as esperanças? Como construir novos valores? Para resolver essa questão ele formula a ideia de eterno retorno. Você viveria sua vida uma vez e outra, e assim eternamente? Se você fosse condenado a viver a mesma existência infinitas vezes, e nada além disso, como se sentiria? Este pensamento é um teste, e segundo ele, só os fortes podem suportar. Nietzsche cria uma forma genial para dar sentido a própria vida sem ideais: Fazer dela algo aceitável dentro de um paradoxo infinito. Na verdade não se trata de querer repetir todas as coisas, ou uma rotina, mas o desejo de que o instante não passe. Isso supera todas as religiões e metafísicas porque mantém o centro da ética voltada para o real, ela se justifica por si mesma. O Eterno retorno coage o indivíduo a dar sentido por si. Ele se torna criador de valores. Esta capacidade de criar e ser juiz de seus valores é o que justificará sua existência. Como seremos obrigados a viver eternamente, torna-se preciso fazer o melhor, aqui e agora. Ao superar o Niilismo e compreender o eterno retorno (Vivendo com vontade de potência), o homem se tornará finalmente um além-do-homem, o indivíduo que não vive às custas de muletas metafísicas -termo bastante utilizado por nietzschianos como analogia ao que se apoia o corpo para diminuir a dor- sem utopias, sem Eldolrado, sem nenhum artifício. Super-homem é alguém que se eleva, a criação de um novo tipo, o balancear perfeito entre um animal e um deus. Nietzsche identifica alguns super-homens na história, tal como Napoleão, Goethe e Sócrates (Não pelas ideias, mas pela vontade de poder). Na obra “Assim falou Zaratustra”, Zaratustra ridiculariza o homem europeu moderno pela paixão por sua cultura, suas leis e seus valores cristãos. Os últimos-homens são os europeus domesticados, obedientes e entupidos de cultura, este está em declínio e Zaratustra ama aqueles que querem declinar, pois assim nascerá dele o super-homem: corajoso, valente e ativo. O niilismo europeu está em seu estágio mais avançado, o homem não quer mais ir em frente, não quer mais arriscar, não quer matar os próprios ídolos e estar além do humanismo. “Eu vos digo: é preciso ter ainda o caos dentro de si, para poder dar a luz uma estrela dançante, eu vos digo: tendes ainda o caor dentro de vós”
— Nietzsche, Assim falou Zaratustra, p.18 Sendo assim, a crítica de Nietzsche ao idealismo aparece em vários âmbitos, a forma como a humanidade se conduziu, a modernidade, a falta de anseios por novas aventuras e a conformidade trazida no coletivismo sociocultural. Tudo isso, resumidamente, culmina para ao fracasso do ser humano, e que na melhor das hipóteses deve ser superado.

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