Marloren Miranda
Sep 3, 2018 · 2 min read

Uma ideia em brasa

O passado é uma ideia em brasa.
Mas o futuro é também uma ideia
ou várias.
E o teu futuro espelha essa grandeza
forjada pelo fogo, pelas águas,
Pela lama da mineração.

O futuro é um vislumbre na ruína
Que se faz fumaça
Negra
como teu povo
que queima até os ossos
em todo fogo cruzado
no morro
a senzala ainda é presente.
O museu está a céu aberto
e seus itens podem ser contemplados
das casas grandes no Leblon.
O passado é resistente
(mas teu povo também é)
e arde.

O futuro é um olhar de relance
para um berço esplêndido
como um índio que dorme eternamente
numa parada de ônibus.
Coberto de urucum
vermelho, que arde,
como brasa,
como o fogo que lhe ateiam.
O passado é desprezo,
é destruição.
E o presente é esquecimento.

Mas o futuro a Deus pertence
e — Graças a Deus! —
Deus é brasileiro
rumo ao Rio de Janeiro
(Há Deus, Belém do Pará?).

E dizem que o Estado é laico
e que a escola é sem partido.
— Só que as ideias nunca são.
As ideias têm cor, têm cheiro
e hoje elas são carvão.
O passado é negligência.
E o futuro? É solidão?

Nunca tantas cinzas, quarta-feira,
e já faz tempo que não é carnaval.
Luzia um futuro brilhante
para um país tropical.
Mas o presente está devastado,
vendido ou negociado,
como a Amazônia ou o Pré-Sal.
E o futuro foi assassinado
com tiros na cabeça,
em plena intervenção federal.

E quantas Luzias ainda ardem?
Quantas ainda vão arder?
De quanto passado ainda precisamos
pra um futuro que não queremos ter?
Quantas Luzias ainda vão arder?

Entre outras mil,
és tu, Brasil,
que vemos desaparecer.

Marloren Miranda

Written by

Doutora em Filosofia pela UFRGS