O que a moça morena queria?

No que parecia ser mais uma tarde como outra qualquer, a moça morena me ligou. A moça morena é uma velha amiga, que quase não me liga, eu também nunca ligo para ela, e é por isso que meu coração bateu com uma ansiedade a mais. Isso não é um mau sinal, não, essa leve batida mais alta no peito é mais como uma emoção, uma alegria, entende?

Mas a conversa era séria. A moça morena é a melhor do mundo em assuntos sérios, e ela é toda alegria também, transborda, aliás. Tudo a seu tempo, apenas. O assunto era auditoria, e a gente sente de longe a habilidade dela de desenvolver sobre o assunto. A moça morena exercita multitarefas como ninguém. Ela é do marketing, da escrita, da fala, da auditoria e do teatro, acredita?

O que ela queria? A moça morena queria, como sempre quis, o melhor de mim. Acho que ela sabe, mais do que eu, do que sou capaz. E não se trata de uma coisa grande, não, porque eu não sou dada a grandes coisas, no entanto, até as pequenas coisas merecem o melhor de mim, o melhor da gente. E hoje eu entendo isso.

No passado, eu não entendia muita coisa. Para mim tratava-se apenas de números, roupas sociais, gel no cabelo, viagens e dinheiro. E para um ser sendo que se sentia dentro de uma caixa de vidro apertada, só havia dor e cortes das lascas que se desprendiam dessa caixa. E eu lia, eu lia demais, eu lia todos os dias os relatórios, os informes, as leis, mas eu não entendia, eu era uma estrangeira. E então eu parti.

Eu amadureci.

Eu aprendi.

Eu criei com palavras textos para um leitor se apaixonar pelo produto “livro”.

Eu escrevo. Todo dia.

Eu vejo pastéis. — Com que frequência? — O tempo todo.

Eu aprendi.

Eu desenvolvi.

E desenvolver um aprendizado não seria possível sem a experiência de cinco anos dentro de uma caixa.

Eu valorizei.

Eu sinto saudade.

Não dói mais.

Porque entendo do valor social que o pragmatismo exerce em uma empresa. Porque entendi que a organização nos negócios é importante para se manter empregos e, o mais importante, a qualidade no trabalho no dia a dia.

Sem pragmatismo a epifania não existe, não flui, e meu inconsciente sempre soube da importância das dualidades, só não tinha conseguido fazer essa leitura no quadrado semiótico da minha vida profissional.

Não, eu não conseguiria ser alguém pragmática, porém entendê-la me liberta.

O que a moça morena queria, afinal?

A moça morena quer o meu futuro.