Democracia e imaginário social.
Muitas das atividades que nos são valiosas como indivíduos e como comunidade são empreitadas conjuntas. Um espetáculo de dança, por exemplo, é uma empreitada conjunta. Espetáculos musicais, como óperas, concertos e orquestras, são empreitadas conjuntas. E uma apresentação de teatro é uma empreitada conjunta.
Seus participantes se veem engajados numa prática comum, cuja finalidade compartilhada por todos é a produção de algo que transcende a mera agregação das performances individuais. Um espetáculo de dança não se resume à agregação de indivíduos cujos movimentos se coordenam. Um espetáculo musical não se resume à agregação de vozes, sons e instrumentos. E uma apresentação de teatro não se resume à agregação de falas, entradas e vestuários.
O objetivo de todas essas práticas, compartilhado por todos os seus participantes, é a constituição de um todo harmônico, com significado e existência próprios. É essa objetivo compartilhado que orienta e dá sentido às condutas individuais. Assim como apreciamos um musical pela qualidade da música nos é tocada, a despeito de falhas e imperfeições individuais, apreciamos uma peça de teatro pela qualidade da história que nos é contada, a despeito de pequenos erros de atuação cometidos por um ou outro personagem.
A compreensão dessas atividades como empreitadas conjuntas nos ajuda a compreender o mecanismo por trás do surgimento de instituições sociais complexas. Assim como espetáculos de dança e de música, o dinheiro é fruto de uma empreitada conjunta. A utilização reiterada de um pedaço verde de papel como meio de troca em transações econômicas nos permite criar socialmente algo cujo significado transcende aquele das suas propriedades físicas. Em vez de “um pedaço verde de papel”, nós, enquanto membros de uma mesma comunidade, enquanto participantes de uma mesma prática, constituímos o “dinheiro”.
Se, nessa nossa empreitada social conjunta, simplesmente deixarmos de enxergar o pedaço verde de papel como dinheiro, isto é, como um objeto dotado de um significado social que transcende suas propriedades físicas, retornaremos ao estágio anterior, no qual temos simplesmente um pedaço verde de papel. O “pedaço verde de papel como dinheiro” somente existe enquanto elemento do nosso imaginário social, compartilhado por nós na condição de participantes de uma mesma prática.

Assim como o dinheiro, a democracia é uma empreitada social conjunta. Ela não se resume à mera agregação individual de candidatos e eleitores. Trata-se de uma prática na qual nos engajamos com vista à promoção de algo que transcende a performance individual de candidatos e eleitores. Nosso engajamento nessa prática tem como objetivo a constituição de algo qualitativamente distinto: um processo por meio do qual legitimamos as decisões coletivas que tomamos enquanto comunidade política. A constituição de um “nós” que, apesar dos desacordos morais profundos entre seus diversos membros, busca atuar por meio desses processos com vistas à resolução de questões coletivas indispensáveis à nossa sobrevivência e autocompreensão enquanto indivíduos.
Dessa perspectiva, o ataque a um candidato a Presidente da República (ou à sua caravana) não é um ataque a um indivíduo, a um grupo de indivíduos ou mesmo a uma ideia. O ataque a um candidato a Presidente da República (ou à sua caravana) é um ataque à nossa prática política enquanto empreitada conjunta. É um ataque ao significado que o cargo de Presidente da República possui em nosso imaginário social. Da mesma forma, um ataque incisivo aos meios de comunicação por discordâncias ideológicas não é um ataque a um determinado veículo ou emissora. É um ataque ao significado que uma imprensa livre possui no nosso imaginário social.
A constância de ataques aos símbolos institucionais que constituem nossa prática política, derivem eles da esquerda ou da direita, é um alerta de que precisamos rever o papel que a democracia desempenha no nosso imaginário social. Democracia pressupõe um ethos socialmente cultivado e cuidadosamente preservado. Um ethos de que um certo tipo de jogo (voltado à resolução coletiva de questões públicas complexas e controvertidas) será jogado de acordo com um certo tipo de regras (em que o peso e a voz de cada cidadão terá igual valor e respeito na criação, direcionamento e controle das decisões públicas).
O risco do desleixo no cultivo e na preservação desse ethos é a corrosão da democracia, por meio da qual o governo do povo, pelo povo e para o povo como ideal político se desintegra. O risco é o aperto periódico de um número numa máquina eletrônica se tornar simplesmente isso: o aperto periódico de um número numa máquina eletrônica. É a transformação do dinheiro em um pedaço verde de papel.
Alice não compreendia os personagens e suas falas no país das maravilhas. Apenas quando compartilhou do imaginário social vigente no lugar, quando se viu como mais uma participante na guerra contra a Rainha de Copas, é que suas ações e as ações daqueles em sua volta ganharam sentido. O risco da corrosão do ethos democrático é a nossa transformação na anti-Alice: a participante que se distancia da prática e para quem as suas ações e as ações daqueles em sua volta perdem sentido.
