As Épicas Aventuras do Homem Comum #1
Meu nome nunca foi exatamente algo conhecido dentro da área da escrita. Você só reconheceria o nome Marco Nastilli se comprasse frequentemente a revista Shoptime e estivesse interessado em saber a utilidade de uma máquina de tricô semi-manual em pleno século XXI. Mas, caso você leia uma revista como essa - ou ainda pior, um artigo como esse -, eu teria muito a duvidar sobre a sua relação com a palavra interessante, e chutaria com facilidade que tem acima de trinta anos e já perdeu seu sentido da vida uma década atrás. Mas é claro que é possível encontrar esse nome impresso em capas de livros mais interessantes e atuais como "O impacto ecológico-econômico da migração dos leões marinhos na indústria farmacêutica", que pode vir a se tornar uma leitura mais cativante e emocionante do que você está imaginando.
Eu recebo um salário suficientemente relevante para escrever sobre produtos do século passado e um retorno mais do que básico sobre a venda de exemplares dos meus livros. Portanto, para não morrer de fome, aos fins de semana revendo produtos cosméticos de uma empresa renomada de porta em porta. E foi exatamente sendo um revendedor que eu tive o momento mais alto, e o mais baixo, de toda a minha carreira - tudo em um único dia.
Era um sábado, dia 12 de Novembro do ano passado ou algo assim. Meu relógio de pulso barato apontava cinco e meia da manhã, quando meus pés bateram na calçada do lado de fora do portão de ferro que protegia minha casa do mau olhado da vizinhança. Com a sacola abarrotada de revistas cheias de adesivos "cheire aqui", olhei para o céu ainda meio escurecido e dei uma inspirada tão profunda que conseguia sentir o ar gelado da manhã enchendo meus pulmões e, aliviando num suspiro longo, comecei a dar meu primeiro passo. Decidi que iria entregar as revistas no bairro ao lado antes de recolher os pedidos dos vizinhos para evitar casos como o anterior, onde acabei por embaralhar pedidos e providenciar um batom vermelho vivo ao Seu Alencar da casa 76, um senhor rabugento que conseguira bater a fascinante proeza de esgotar o estoque de potinhos de plástico com desenhos de peixinhos.
Na rua transversal à minha, avistei o simpático e jovem Tom, que comprava todo mês as meias baratas de cores diferentes do volume três, indo um pouco apressado para o ponto onde sempre pegava o ônibus para o trabalho. Na verdade aquele não era seu horário habitual para um dia de sábado, já que não costumava trabalhar de fins de semana, mas parecia estar profundamente desesperado para alcançar o ônibus antes que ele partisse. Onde o coitado precisava ir com tanta pressa era um mistério, mas não me interrompi para observar a situação e continuei a caminhar.
O caminho até o bairro ao lado não era exatamente extenso, mas consistia em subir uma avenida íngreme banhada a lojas de penhores e padarias com nomes italianos. Um caminho penoso para entregar revistas para umas quinze casas que não me comprariam uma coisa sequer, mas me agradava observar os produtos em vitrine e a arquitetura georgiana das várias lojas que brigavam entre si com placas de bronze chamativas e produtos aparentemente caros e de utilidade exclusivamente ostensiva.
Uma em particular me chamava muito atenção todos os dias, não pelo fato de ter uma porta amarela de madeira rodeada por um arco branco descascado, nem seus tijolos desbotados pelo tempo, muito menos seu nome peculiar, "Alcachofra Penhores", mas por um objeto que parecia ser mais velho que a própria edificação em si. Um prato, que não pertencia a conjunto nenhum, era só um prato muito ornamentado. Na verdade, a porcelana era tão ornamentada que até uma toupeira se sentiria desconfortável com tanta poluição visual contida num pedaço tão pequeno do espaço. Mas era atraente, não aos olhos, e sim à minha compulsa para gastar dinheiro com qualquer bobagem que fosse, porém algo muito longe de bom senso me impedia de comprar a peça: a falta de dinheiro.
O prato custava somente vinte reais, e tudo o que eu tinha nos bolsos da calça era um bilhete que o velho Seu Alencar havia me entregado na semana passada, que continha escrito em uma caligrafia desleixada "me arranje mais potes de plástico". Nunca consegui encontrar um motivo convincente para a utilidade de tantos potes de plástico com um homem cara fechada de 50 anos ou mais, e ele nunca fez o esforço de me explicar.
Guardei o bilhete e meu consumo compulsivo no fundo do bolso de trás, e continuei a caminhar morro acima até finalmente atingir a rua onde se instauravam as casas das quais precisava entregar as revistas. Ninguém ali se interessava por cremes esfoliantes para as mãos, ou por camisas infantis com estampas de coisas aleatórias que nunca faziam sentido, e muito menos por sair de casa. Em todos os meus dois anos trabalhando com esse ramo nunca vi sequer a silhueta dos moradores do lugar. Deixava as revistas penduradas em uma sacola que eu mesmo levava na porta principal e partia para a próxima casa, e quando voltava no sábado seguinte, elas estavam no mesmo lugar, intocadas. Tentei várias e várias vezes tirar aquela rua da minha carga, mas o assistente insistia em dizer que estes clientes assinavam todo mês o interesse nos produtos, então era obrigado a entregar os volumes mesmo não recebendo nenhum pedido.
Estava saindo da última casa para me dirigir a um caminho paralelo, que facilita minha volta para casa, quando me deparei com um detalhe amarelo no chão do outro lado da rua. Coisas amarelas me chamam atenção, eu gosto muito de coisas amarelas. Atravessei a rua e me aproximei do que parecia ser um pedaço de papel, analisei o objeto e percebi que aquilo era a imagem mais linda e graciosa que poderia aparecer aquele dia. Uma nota de vinte reais dobrada ao meio, esquecida no chão, esperando pelo próximo sortudo que a encontrasse, e eu a encontrei. Todo o meu corpo foi tomado de euforia e uma vontade intensa de saltitar e dançar, senti um calor emanar do meu rosto e meus olhos lacrimejarem. Aquela foi a maior quantia que eu já tive em mãos pra gastar no que quisesse em toda a minha vida.
Soltei um grunhido parecido com o de um avestruz latindo, peguei a nota como se fosse uma criança coletando balas que acabaram de cair de uma piñata destruída e a joguei na sacola de revistas quase vazia sem prestar muita atenção. Era óbvio que aquele dinheiro precisava ser gasto naquele momento, ele esperou toda a sua vida de dinheiro por isso. Caminhei rápido - quase saltitando - até a avenida de penhores e padarias pensando em quais antiguidades ou pães de batata eram necessários em casa, ou se em alguma dessas lojas encontraria um desentupidor de pias.
Com minha mente completamente em dúvida e meus olhos atentos a todos os lados, algo familiar me chamou atenção. Aquele prato ornamentado e chamativo que não combinava com nada. A realização tomou conta da minha espinha e começou a dançar frevo com a euforia que ainda rodopiava no meu corpo quando me veio a lembrança de que a porcelana custava vinte reais.
Fui para a porta amarela chamativa da Alcachofra Penhores, segurei sua macaneta prateada com vigor e tenacidade e a abri. Logo que pus meus pés para dentro do estabelecimento, minhas narinas foram tomadas pelo cheiro de mofo e bolacha de coco. Normalmente aquele conjunto de odores me enojaria e me faria sentir extremamente desconfortável, mas não naquele dia. Estava tomado de encanto pela dança da euforia e realização que havia se tornado agora um bolero - muito bem performado, aliás - e só conseguia pensar na maravilha de poder entrar em uma loja e realmente comprar algo. Tudo ali dentro era tentador e magnífico, os vidros sujos de uma cristaleira branca, que mais parecia uma versão achatada e alta da Casa Branca, reluziam num brilho amarelado e empoeirado num canto próximo à entrada e chamava a atenção de qualquer um que entrasse ali, enquanto um conjunto de taças de prata muito bem puídas ludibriava quem olhasse um pouco mais pra direita.
Apertei meu peito como uma forma de controlar e acomodar meu consumo compulsivo e me dirigi ao balcão. Um homem com uma aparência de trinta anos ou mais - e que parecia ter perdido o sentido da vida há uma década atrás -, que estava sentado num banco retrátil e lendo um exemplar da revista Shoptime, logo se prontificou no balcão com um sorriso torto e simpático. Antes de proferir qualquer palavra ao atendente resolvi vasculhar minha sacola em busca da recém-adquirida nota de vinte reais.
A dança rítmica e suave foi brutalmente interrompida, e ambas euforia e realização caíram duras após uma rasteira violenta do desespero. Ele não gostava nada de danças, muito menos de coisas alegres, e seu caos e escuridão logo tomaram conta de todo o meu corpo, subindo à cabeça e escurecendo a vista. O dinheiro havia sumido, e não estava entre nenhuma página das revistas que ainda sobravam dentro da sacola. Eu havia perdido a coisa mais valiosa da minha vida até aquele momento, o que seria de mim a partir dali se tornou escuro e nebuloso.
Estava prestes a cair em desolação quando recobrei a consciência e voltei a realidade. Sem pensar duas vezes sai o mais rápido possível pela porta a procura daquele maldito pedaço de papel amarelo. Corri morro acima prestando atenção em cada centímetro quadrado do chão no caminho, minha capacidade de processamento se tornou incrivelmente melhor que o mais atualizado e potente dos computadores, nem sequer um pedacinho daquela avenida larga escapou da minha análise.
Quando finalmente atingi a esquina que conectava o morro movimentado com a rua desértica, e virei minha atenção para onde havia originalmente encontrado o dinheiro, notei uma mulher, com uma expressão extremamente radiante e cabelos encaracolados, poucos metros adiante da minha posição, se abaixando para pegar alguma coisa caída perto de seus pés. Ao se levantar era possível ver um pedaço de papel amarelo em suas mãos, uma nota de vinte reais. A minha nota de vinte reais. Bom, não mais tão minha.
O desespero se cansou da baderna e foi embora, deixando a porta aberta pra uma colega que esperava calmamente do outro lado. A tristeza entrou e fechou a porta, sentou no chão e começou a chorar, tomando todo o meu corpo com um calafrio esquisito e fazendo minhas glândulas lacrimais trabalharem.
Com a cabeça pesada e um pouco de desajeito, arrumei o cinto da calça e coloquei-me a caminhar de volta para casa.