EU E AS MULHERES

Mulheres não mulheres genéricas, gênero. Mulheres como em “eu quero uma dessas para mim”.

Tenho uma irmã três anos mais velha. Quando eu tiver 80, ela terá 83 e as reclamações da vida serão bem parecidas. Mas quando eu tinha 13 e ela 16, habitávamos mundos mutuamente exclusivos, apesar de eu sempre ter frequentado as rodinhas dela. E o mundo dela me interessava deveras.

Durante um período eu pude enxergar o mundo dela e das amigas que se confidenciavam na minha frente. O fato de que eu era quietinho, que ainda tinha um cabelo castanho, liso e inocente, ajudava muito minha empreitada de infiltração. Era como se eu não estivesse lá, e por isso elas rasgavam o verbo. Eu ouvia tudo, e ouvia muitas vezes. Assim, muitas vezes.

Eu sou psicólogo, faço terapia e às vezes demonstro algum bom senso. Deveria saber desde sempre que estas experiências me marcariam a ferro.

É uma chatice o debate entre homens e mulheres quando o assunto é romance. Homens são isso, mulheres são aquilo, e cada um vai para seu lado sentindo-se justificado em suas reclamações e se sentido incompleto, infeliz. Incompleto e infelizes porque eles queriam estar juntos, desfrutar de momentos de cumplicidade e outras coisas simples da vida pelas quais a gente facilmente mataria.

Olhando em perspectiva, trinta e mais anos depois desses momentos infiltrado no mundo das mulheres de 16 anos que conversavam com minha irmã, lembro das tantas vezes — ou assim me pareceu — em que elas reclamavam que os moços de 18 ou mais não ligavam para os sentimentos delas. Elas diziam e diziam do que queriam, mas não conseguiam obter o que queriam dos rapazes. Foi então que descobri que existem pelo menos duas categorias de homens na faixa dos 18 anos: a dos bonzinhos que não lhes acendiam as vontades, e a dos bacanas que lhes acendiam as vontades sem ter intenção de ficar com uma, uma só, uma delas.

Falo das minhas memórias. E eu sei que as memórias podem nos dar rasteiras. Ainda assim, falar dessas memórias continua fazendo sentido para mim.

No entanto, elas falavam mais coisas. Elas falavam de si, do afeto que queriam, que dariam tudo por um homem corajoso e carinhoso. A imagem que ainda tenho é de um homem com peito forte para acolher e também para defender. A imagem muito natural para mim do homem que envolve com seu braço esquerdo a mulher pela cintura, puxando-a para si, e o braço direito pronto para lutar contra o mundo pela mulher que ama. Quem montou essa imagem na minha cabeça fui eu mesmo, decerto. E desde então eu quis ser assim.

Entre querer e conseguir vai sempre uma boa distância. Entre querer e ser querido também vai outra boa distância. Só sei foi com as amigas de 16 anos da minha irmã mais velha, com o ouvido aguçado de adolescente infiltrado, que aprendi a querer ser assim.

Nem tudo na minha vida afetiva foi liso. Digo por dizer, porque nunca é liso para ninguém. O que não está dito ainda, mas agora está escrito, é que nunca passou pela minha vida me encaramujar e deixar de lado aqueles sentimentos dos 13 anos.

Claro que você pode dizer que sou ingênuo. Já fui mais.

Claro que você pode dizer que jamais sairei da categoria de bonzinho sonhador. Você provavelmente tem razão.

Claro que você pode dizer que ninguém precisa de um relacionamento para ser gente de verdade. Verdade.

Só estou dizendo que não tenho intenção de abrir mão de meus sonhos. E já que são sonhos, eles incluem, sempre, uma mulher para amar e ser amado. É o menino de 13 anos mais adulto que eu consigo nutrir.

Se eu matar esse menino, eu morro junto.