EU SEMPRE VOU ENCONTRAR UM JEITO

Meu pai entrou no quarto bem na hora em que uma das minhas irmãs dava com alguma coisa na minha cabeça. Não lembro qual das três. Nem importa.

Ele brigou com ela, mandou sair do quarto. Eu fiquei, só para descobrir que sobraria uma bronca para mim também.

― Mas você viu que foi ela!

― Eu vi, mas você deveria ter sabido evitar a situação.

Eu tinha uns 9 anos, acho.

Se você me conhece um pouco, já entendeu muito.
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Lembro desta história num momento em que tenho engulhos com o lixo das redes sociais, que parece surgir do nada, em grandes volumes, como que por brotamento espontâneo. Especialmente aqueles posts que destroem reputações por apenas uns poucos caraminguás de likes.

Sem moralismos. Eu uso tudo, gosto de tudo, estou aqui todo dia. É o lixo a céu aberto que me incomoda.

Então meu pai. Por injusto que eu considere ainda hoje o que ele me disse naquele dia, ele me vacinou contra esse lixo todo. Eu acreditei mesmo que era possível prever situações prestando mais atenção, acreditando mais nas mnhas intuições, escolhendo brigas.

Eu escolhi lutar a briga do conteúdo. Falar do que ninguém fala, ou falar do meu jeito. De um jeito diferente, mais legal, mais interessante, intenso sem ser agressivo,. Porque o corolário de evitar uma briga errada é saber escolher a briga certa.

Eu respiro a convicção esperançosa de que sempre vou encontrar um jeito legal de fazer alguma coisa se eu parar para pensar por tempo suficiente no assunto, se eu me debruçar sobre ele com atenção suficiente. Um texto, uma aula, um jeito de conversar, o de sempre. E depois que eu consigo, quando eu consigo, eu deposito no mesmo lugar onde se deposita tanto lixo na esperança que faça alguma diferença.

Faz quase 2 anos que meu pai se foi, mas essa parte dele nunca vai morrer dentro de mim. Eu sempre encontrarei um jeito de evitar essa situação.