O DIA EM QUE ME CONFUNDIRAM COM O JASON STATHAM

Praia de paulistano é shopping. Dizem. Dizem certo. Fui para ver o movimento. Era o que tinha para o momento.

Distraído, pensando na vida, em tudo e em nada ao mesmo tempo, tanto que o sorvete acabava derretendo e manchava a calça. Tem homem que é assim.

Foi quando a moça veio com um sorriso brandamente iluminado, assim desses que te pegam mas não ofuscam. Achei que ela ia me dar um brinde desses de inauguração de loja, ou coisa parecida.

Não. Nem perto.

― Desculpa a intromissão, mas eu achei você tão parecido com aquele ator, como é o nome dele mesmo?… Jason Statham.

Claro, era piada, mas uma piada bem contada. Uma piada boa, se você me entende.

― Sentaí. Boa essa história do Jason, hein?

Ela nem se lixou para a observação mezzo automenosprezo. Foi conversando, eu nem sei bem sobre o quê. Não consegui prestar atenção. Em parte porque eu estava procurando a câmera — pegadinha, claro. Em parte porque o texto era agradavelmente suave, e o subtexto com jeito de lingerie sexy nova no jeito de estreia. Eu a ouvia com os olhos.

Ela foi ficando, certamente não por conta da minha habilidade social no trato com uma mulher daquelas. Ela foi falando, engatando sem pressa um assunto no outro. Às vezes ela me olhava de um jeito que eu me sentia mais musculoso, capaz de fazer bonito com qualquer mulher com aquele olhar seguro de homem-abdomen-tanquinho. Com sotaque britânico.

Claro que eu imaginava o subtexto. Que queria lê-lo com as mãos. E estava ao meu alcance.

― Minha tara é homem forte com cara de intelectual.

O petardo no peito. Eu me senti o próprio Jason, o Statham. Só que mais lido e mais escrito.

Não fui. Inventei que na verdade minha tara era o próprio Jason Statham, e nós dois não poderíamos tê-lo, com texto e subtexto, ao mesmo tempo. Ela não acreditava no que estava ouvindo. Minha recusa a feriu tanto em sua beleza textual vista, e sua beleza subtextual imaginada, que ela foi embora pisando duro.

Porque eu estava na minha praia de paulistano, deixando distraído o sorvete pingar na calça, pensando que eu só preciso de uma mulher. Pensando que ser monogâmico é um defeito. Que homem em contato com os próprios sentimentos é intolerável. Que ser decidido na vida é sempre uma decisão ruim. Mulher nenhuma desculpa um homem por encontrar nele as qualidades que sempre disse desejar. Porque eu não quero ser o Jason Statham.

Tem homem que é assim. Deixa o sorvete pingar na calça no shopping porque está pensando nessas bobagens e dispensa o texto sem ver o subtexto.

Tem homem que é assim. Trouxa. Vai passar a vida tendo que comprar calça nova porque nem consegue acompanhar ritmo de sorvete no ar condicionado. Que dirá o resto.